Este lixo que nos asfixia

Ricardo M Santos 5.5.15
Andar pelas ruas é, nestes dias, um exercício de coragem. E não estou a falar do mau tempo primaveril que fez o favor de levar tudo e mais alguma coisa pelo ar. É do ar que se respira nas ruas mas nem é da poluição. É do lixo. Não o da Moody's, que disse recentemente que já somos menos lixo do que éramos. É do outro lixo. A forma como nos tratam todos os dias, as conversas com amigos e menos amigos. Isto está bastante irrespirável e começa a dar cabo da virtude da paciência. A foto ao lado foi tirada no Porto durante a tarde. Uma pessoa a vasculhar um caixote do lixo, à procura de um bocadinho de qualquer coisa que lhe permita respirar melhor. Não há como andar na rua e falar com as pessoas. Pessoas mortais, que não elogiam o Dias Loureiro e para quem a democracia não é anacrónica. Pessoas para quem sobreviver é um desafio de todos os dias, mais ou menos escondido ou, neste caso, às claras. Ontem foi um dia complicado, foi. Mas nem foi pelo mau tempo.
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O Tempo dos Ciganos - uma semana com os romenos de Lisboa

António Santos 6.4.15
Maria mora numa parte de Lisboa que poucos lisboetas sabem que existe. Todos os dias, no seu caminho para casa, atravessa a estação de Sete-rios carregada de pesados garrafões de água. Os seus olhos, verdes de um verde profundo, perscrutam cada uma das pessoas à espera do comboio, que a observam, com muito desprezo, um pouco de medo e a mala bem segura. Maria veste uma saia comprida, muito suja, várias camadas de camisolas e umas sandálias de plástico. E apesar da roupa andrajosa, é uma mulher bonita, na casa dos trinta.

Depois, deixa-se o passeio, cruza-se a via rápida, salta-se o rail de protecção, passa-se por baixo de dois viadutos e alcança-nos o cheiro, o inconfundível cheiro, a fogueiras e a pobreza. Então, por um caminho de cabras, através da lama e do lixo, chega-se ao enorme bairro de barracas oculto sob o Eixo Norte-Sul, um lugar a que 200 pessoas chamam casa.
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