O outro lado da cortiça

Lúcia Gomes 1.2.19
Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.
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Alteração aos recibos verdes - o abraço do urso

Lúcia Gomes 14.12.17
É com pompa e circunstância que alguns que se declaram «inflexíveis» e, claro, o sempre presente na ribalta dos equívocos, José Soeiro do Bloco de Esquerda falam em avanço civilizacional e outros quejandos. Já estamos demasiado habituados a que alguns deputados saibam pouco (ou nada) do que falam, mas desta vez é levar o foguetório ao insulto para quem trabalha a recibos verdes e, sobretudo, falsos recibos verdes. E porquê? O acordo alcançado somente negociado entre BE e PS - pergunto eu porque excluíram PCP e sindicatos, já sabendo a resposta - vai muito mais longe do que a direita alguma vez teve coragem.
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PETIÇÃO - DGArtes: financiamento 2017

André Albuquerque 30.9.16
Nas artes performativas temos boas e más notícias. As boas é que finalmente se irão rever os critérios e regulamentos dos concursos aos apoios da DGArtes. As más é que corremos o sério risco de manter um nível de financiamento similar ao de 2016. Querendo potenciar as boas notícias e tentando eliminar, ou pelo menos minorar as más, o CENA e o STE tomaram a iniciativa de lançar uma petição pública com algumas exigências.

A diversidade de agentes do sector que aceitaram ser primeiros subscritores e os que agora têm vindo a assinar, mostram que há uma convergência de preocupações muito grande em torno dos financiamento mas também do combate à precariedade e da valorização social das estruturas de criação artística.

É preciso assinar esta petição, dar-lhe força. Depois é preciso continuar a trabalhar para que as exigências nela contida se vão cumprindo. Mas vamos ao primeiro passo, ler e assinar. Ah, e depois divulgar por todos os meios e mais alguns. Vamos a isso?
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Exaustão médica: Realpolitik VS. A Puta da Realidade

André Albuquerque 30.6.16
Quando vamos ao médico queremos ser atendidos bem, rapidamente e de preferência sair de lá curados. Calculo que todos os profissionais que nos atendem no SNS e no privado desejem o mesmo, Hipócrates assim obriga. Certamente que, como em todas as profissões, haverá melhores e piores profissionais, é o que é, não há grande volta a dar. Mas no caso dos médicos e médicas, quando há um erro é grave, é mais grave do que em quase todas as outras profissões. E não são poucas as notícias que nos chegam de possíveis negligências médicas ou de consultas que demoraram meses a acontecer e depois foram despachadas em minutos.

E se devemos continuar a exigir que principalmente no SNS a excelência, a paciência, a simpatia, o profissionalismo, a dedicação, sejam as únicas bitolas possíveis, o que fazer quando nos deparamos com um clínico que não dorme há mais de um dia inteiro? Que tem o cansaço de anos totalmente estampado no rosto? Que é obrigado a fazer horas extraordinárias sem fim e sem pagamento? Que aceita tudo isto porque Hipócrates assim obriga e porque o SNS tem de fazer tudo para ser eficaz, para combater as listas de espera, para combater a desorganização provocada pela falta de médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos.

E de repente ficamos a saber que "quase metade dos médicos da zona centro do país apresenta sinais de exaustão emocional, um fenómeno também conhecido por burnout. Um estudo agora divulgado pela secção centro da Ordem dos Médicos revela que um em cada quatro clínicos sofre de depressão. Os médicos mais jovens e os do sexo feminino são os mais afectados."
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Mensagem de Gregório Duvivier aos trabalhadores portugueses do espectáculo e do audiovisual

André Albuquerque 2.6.16

No Brasil luta-se. Luta-se pela democracia, pela manutenção de alguns direitos sociais e laborais que os governos do PT conseguiram implementar, luta-se pela decência. O actor, poeta, cronista, ilustrador e homem de ainda mais instrumentos, Gregório Duvivier, mais reconhecido em Portugal como "aquele da Porta dos Fundos", tem estado na linha da frente destas lutas e também na luta contra o desaparecimento do Ministério da Cultura no Brasil.

O Gregório está em Portugal, com o seu espectáculo "Uma Noite na Lua" e o CENA - Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, foi conversar com ele. Falou-se da situação dos trabalhadores do sector em Portugal, comparou-se essa situação com a dos trabalhadores brasileiros. O Gregório ficou de olhos esbugalhados com as condições em Portugal. Sendo certo que no Brasil há ainda muitas conquistas a serem feitas, o que ele transmitiu ao CENA é que os trabalhadores brasileiros deste sector são respeitados, têm direito à vida. Isto é, têm contratos de trabalho, os horários são cumpridos, existem tabelas salariais, etc.
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Entrevista com o Inspector-Geral da ACT

André Albuquerque 5.4.16
Partilho aqui a entrevista feita ao Inspector-Geral da Autoridade para as Condições do Trabalho. Não por estar de acordo a 100% com tudo o que diz Pedro Pimenta Brás, mas pela forma exaustiva mas simples e correcta como analisa de forma directa os principais problemas vividos pelos trabalhadores e trabalhadoras do país. Precariedade, atrasos no pagamento dos salários, acidentes de trabalho, etc. Ah, e aponta alguns caminhos interessantes.

Se há problemas novos, causados pelas novas formas de precariedade laboral, pelo avanço galopante das tecnologias nos locais de trabalho, há problemas que são bem antigos e que se mantêm. Demasiado antigos para acreditarmos que vivemos o ano de 2016, num país onde a inovação enche a boca de muita gente que a única coisa que sabe de inovação é que rima com exploração.

Vejam então a Conversa Capital.
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Até quando?

Rui Silva 7.3.16
O presidente da confederação dos patrões deu uma entrevista ao Diário Económico, jornal que tem uma greve de 24 horas decidida pelos seus trabalhadores para o próximo dia 10 - por motivo de degradação das condições de trabalho e de salários em atraso -, e nela afirmou a dado momento aquela já velhinha ideia, sempre renovada pelo constante uso, de que mais vale trabalho precário do que desemprego. O tema foi aberto e encerrado numa única pergunta e os jornalistas que conduziram a entrevista não sentiram necessidade de perguntar ao patrão dos patrões se a realidade se resume a uma das duas opções apresentadas (trabalho precário ou desemprego). Também não lhes ocorreu perguntar a António Saraiva se trabalhar sem vínculo decente, ou com horários desregulados, com salário reduzido ao osso e sistemas de prémios construídos à medida do empregador, não é uma certa forma de desemprego, na medida em que não estamos verdadeiramente a falar de um emprego.
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Contratação colectiva: o acto de contrição de Vieira da Silva?

Lúcia Gomes 8.2.16
As relações laborais têm vivido momentos mais do que conturbados no que à contratação colectiva diz respeito.

Os avisos não faltaram: desde os sindicais, os políticos, os jurídicos e os académicos - o Código do Trabalho de 2003 seria uma machadada nos direitos colectivos dos trabalhadores e na contratação colectiva.
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Não é propaganda, é literatura, estúpido

António Santos 3.10.15
Esta história é verdadeira, mas eu preferia que não fosse. Aconteceu esta manhã no trabalho, mas eu preferia ter ficado na cama. Já estão a ver, pela feição de pôr a história breve ou pela melancolia sáfara com que já me quis esquivar, que isto não pode ser propaganda. A propaganda é sempre optimista, mas às vezes o coração não deixa e precisamos da literatura. Olhem, senhores da CNE, se duvidas restarem, a protagonista nem sequer é comunista, mas eu suspeito que é só porque não sabe que o é.
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Os 3 P's do Emprego que devia ser Trabalho

André Albuquerque 13.5.14
Pedro Mota Soares bate couro a uma idosa antes de lhe dizer
que a sua reforma está como o papagaio dos Monty Python.
Precarizar

Transformar postos de trabalho permanentes e mesmo sazonais em meras tarefas, que no fundo é aquilo que define uma prestação de serviços: tarefas concretas que o tarefeiro deveria fazer em condições que o próprio estabelece ou aceita. Sempre que possível substituir um trabalhador que se reforma por outro a falsos recibos verdes, ou contratado através de uma ETT, ou até pagando-lhe "por fora". Acabar com os falsos trabalhadores independentes tem de ser uma prioridade, e porque se trata de uma questão legal, não devia ser apenas uma prioridade dos trabalhadores e das organizações que os defendem e representam, mas também do Estado, que como pessoa de bem deveria zelar pelo cumprimento da Lei.
Como bem sabemos, o Estado português não tem sido uma pessoa de bem. Responsáveis por isto só há 3, os partidos que têm governado o país e que, propositadamente, têm transformado o Estado num inimigo dos trabalhadores e da população em geral.
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Capitalismo para totós II - Colaborador

miguel 28.3.14
Colaboradores - termo que designa o conjunto das assalariados de uma empresa, independentemente do regime contratual. No essencial, mascara duas dimensões fundamentais das relações sociais capitalistas: a do trabalho e a da exploração.

O colaborador colabora, não trabalha.
O colaborador colabora, não é explorado.

Além disso, o termo não comporta uma dimensão contratual ou referente a relação estável, antes faz uma remissão subentendida para uma situação volátil. O empregado ou trabalhador estão relacionados com o exercício de uma profissão, de um ofício ou de um conjunto de tarefas que exigem determinada perícia. Já o termo colaborador induz uma concepção amorfa, não especializada e efémera. Colaboras hoje, podes não colaborar amanhã.
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Partir ou ficar ou o apedrejamento moral dos desempregados

Irene Sá 15.3.14


Volta e meia somos brindados com doses cavalares da apologia do só-não-trabalha-quem-não-quer. Em geral chega-nos no pacote do empreendedorismo, desta chegou de assalto a um pseudodebate sobre a emigração portuguesa. Falo do Prós e Contra, mais conhecido como Prós e Prós, da passada segunda-feira. O tema era qualquer coisa como ficar ou partir, o que já de si fazia tender a discussão para pressupostos absurdos: um, a emigração como opção e não como condicionante; dois, criar falsos defensores de uma ou de outra situação; três, evitar discutir a emigração com seriedade. O resultado só podia ser o do apedrejamento moral dos desempregados que decidem ficar no país.
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Encontrar forma

Irene Sá 7.3.14
Quem faz aqui o Design? Quem é? Quem é o trabalhador que idealiza, cria, desenvolve, configura, concebe, elabora e especifica objectos e imagens para a produção industrial e em massa no nosso país? Quem é que considera aspectos estéticos, funcionais, económicos e sociais tanto no seu próprio processo de trabalho como nos produtos que concebe? Quem é que, alvo da ignorância generalizada e por cedência às condicionantes laborais aceita ser aquele que faz bonecos, que passa para o papel a ideia de outros, que maquilha, que faz omeletes sem ovos?
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Nos dias que correm...

filipe guerra 24.12.13
- ainda há trabalhadores que passam o natal à porta dos seus locais de trabalho exigindo coisas tão elementares como um salário ou um emprego, viu-se esta realidade dramática hoje na construção civil em Marco de Canavezes;

- é notícia a emigração portuguesa em 2013, atingindo números entre os 100 e os 120mil(e isto são estimativas…), confirmando uma sangria cujo paralelo histórico mais recente remonta ao fascismo com as suas explorações e as suas guerras;

- revelam os órgãos de comunicação social que o nosso país já pagou 3mil milhões de euros só em juros e comissões pela “ajuda externa” entre 2012 e Novembro deste ano, engordando assim a banca e o capital nacional e transnacional;

Eu hoje escrevo pela primeira vez no blogue Manifesto74, e neste primeiro texto devo agradecer o convite para aqui participar. Obrigado pelo convite, camaradas!
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