As tranças de Maria

Bruno Carvalho 17.8.17
Serra do Larouco // Fernando Ribeiro
"Se passeares no adro no dia do meu enterro diz à terra que não coma as tranças ao meu cabelo", cantam por vezes as mulheres da região de Lafões. Com uma das mais bonitas tranças que vi até hoje, dias antes de morrer, a irmã quase nonagenária da minha avó contou-me a história da deserção do meu bisavô. Acamada e ensombrada pela cegueira num lar transmontano, desdobrou a memória e falou do rapaz que andou clandestino durante meses pelas montanhas do Larouco. Não fazia ideia de quem era Lénine e do que havia sido a Conferência de Zimmerwald mas o pastor e contrabandista, que acabaria por morrer sem nunca ter visto o mar, decidia há cem anos adiar a morte evitando uma guerra que não lhe dizia nada.

No tempo em que viajar a Lisboa era quase mudar de país, uma geração de transmontanos atravessada pela pobreza acabou por se lançar pela aventura da migração. De Fiães do Rio, com 15 anos, saiu Bento Gonçalves para Lisboa onde acabaria como torneiro mecânico no Arsenal da Marinha. Não muito diferente foi a história de Militão Ribeiro que, com apenas 13 anos, começou a trabalhar como operário têxtil no Brasil. O jovem de Murça acabaria por ser expulso daquele país por militar no Partido Comunista Brasileiro e não teve dúvidas em desafiar o fascismo português ingressando no PCP precisamente depois de Bento Gonçalves assumir a direcção do partido. Oito anos depois da morte do então secretário-geral no campo de concentração do Tarrafal, Militão Ribeiro era também conduzido à morte na prisão pelos esbirros. Antes conseguiu escrever com o próprio sangue uma carta em que jurava fidelidade aos ideais por que lutava.
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A revolução esquecida de 1383

António Santos 8.12.16
Neste dia, no ano de 1383, começava em Lisboa a primeira revolução burguesa do mundo. Revolução, pela mesma razão que ninguém ousaria chamar «interregno» à Revolução Francesa nem «crise» ao 25 de Abril. Burguesa, porque, ainda que pavorosa aos próprios netos, inaugurou definitivamente o poder dos «homens honrados pela fazenda». E, à semelhança da revolução francesa ou do 25 de Abril, a revolução portuguesa de 1383-1385 também foi condenada ao olvido e à mentira­­ – com a diferença, no entanto, de mais séculos de avanço.

Há 633 anos, a regente Leonor Teles, numa fuga desesperada para Alenquer, prometia esmagar a Revolução queimando Lisboa com «mau fogo», ará-la a carros de bois e encher tonéis com as línguas das mulheres revolucionárias. A redoma de silêncio que cobriu a Revolução quase faz crer que se cumpriu o vaticínio de Leonor. Porque se calaram as vozes de 1383? Quem mandou cortar as línguas dos sublevados de Lisboa?
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Aos Heróis de Abril #4

Anónimo 25.4.16
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Aos Heróis de Abril #3

Anónimo 24.4.16
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Aos Heróis de Abril #2

Anónimo 23.4.16
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Aos Heróis de Abril #1

Anónimo 22.4.16
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Nas ruas sobra o espaço que não cabe no orçamento

António Santos 16.3.16
Há poucos dias, conversava com um amigo sobre o Orçamento do Estado proposto pelo PS e aprovado, na generalidade, com os votos do PEV, do BE e do PCP.

Sentados na Praça do Município lisboeta e separados pelo já tradicional tabuleiro de xadrez, o debate discorria previsivelmente entre as duas balizas do governo de Costa. Por um lado, a travagem do rumo renitido por PSD e CDS-PP, com importantes, embora tímidos, sinais de inversão de marcha.
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Da Telesur às ruas: A revolução será transmitida?

Bruno Carvalho 7.7.15
Caracas, Bairro 23 de Enero, bastião da revolução bolivariana
No passado mês de Fevereiro, o governo bolivariano da Venezuela denunciou um plano golpista. Na denuncia, o mandatário, Nicolás Maduro, revelou à imprensa os detalhes desta estratégia elaborada pelos “sectores mais fascistas da oposição, vinculados ao imperialismo norte-americano”. O presidente afirmou que queriam bombardear o palácio presidencial de Miraflores, o Ministério da Defesa e a Telesur.

Davide Angelilli
Bruno Carvalho

Informar para transformar.

A Telesur é uma ferramenta mediática que se define como “um canal multimédia de comunicação latino-americana de vocação social orientada para a liderança e a promoção dos processos de união dos povos do SUL. Um espaço e uma voz para a construção de uma nova ordem comunicativa que procure dar um espaço aos que não são ouvidos pelas grandes cadeiras de noticias”.

Somente um antes da criação da Telesur é que o governo da Venezuela e da República de Cuba haviam formalizado a criação da Aliança Bolivariana para os povos da Nossa América: a ALBA, que hoje em dia reúne doze países membros na região latino-americana e caribenha e a três países observadores. Os governos da ALBA – especialmente, a Bolívia, o Equador e a Nicarágua, para além dos que a fundaram – partilham a vontade de alcançar a soberania através da integração regional na América Latina.
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«A função social da terra só se cumpre com as mãos de quem a trabalha»*

Bruno Carvalho 22.5.15
Há 40 anos, os trabalhadores agrícolas do Sul do País tomaram a decisão de romper com séculos de opressão baseada na propriedade das terras. Extensas herdades de uma minoria agrária com poder económico e político conviviam com a pobreza e a miséria da maioria do proletariado agrícola. Com Abril, encerraram-se as portas da brutalidade fascista e pôde semear-se nos campos aquilo a que Álvaro Cunhal chamou “a mais bela conquista da Revolução”. À conversa com alguns dos protagonistas da Reforma Agrária, percorremos os caminhos do passado sem perder de vista o presente e o futuro de uma aspiração inscrita na história da luta dos trabalhadores portugueses.

António Gervásio desempenhou como dirigente do PCP e destacada figura da luta agrícola um papel importante. Também Manuel Vicente, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Évora, e Rogério Arraiolos, da Unidade Colectiva de Produção Pedro Soares, de Montemor-o-Novo.
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"Medo e Revolução" por João Viana

Manifesto 74 6.5.15
A minha amiga Lúcia Gomes pede-me um texto e, em troca, dá-me liberdade para o escrever. Aceito a medo. Nas últimas comemorações do 25 de abril, ao olhar para um grupo que desce a avenida ostentado um cartaz onde se lê CORAGEM, dá-se o click. Vou falar-vos sobre o medo e também sobre revolução.

A forma como o medo pode durar e durar até perder-se nos tempos, mas também a forma como num simples piscar de olho o medo pode ir-se embora, dando lugar a uma revolução de criatividade, felicidade, progresso e tudo o mais que se quer da vida.... Há muito, muito tempo, lá na minha terra, em África, isto de que vos vou falar aconteceu.
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Grécia - Há demasiado tempo do mesmo lado do sol

António Santos 6.1.15
Como sucede sob o sol ao orvalho das manhãs, à medida que se aproximam as eleições gregas, o SYRIZA vai-se derretendo em garantias de respeitabilidade, promessas de estabilidade e averbamentos de moderação política. Sob intensa pressão do poder económico e financeiro, o radicalíssimo diácono da esquerda helénica esforça-se agora em apaziguar os mercados que saqueiam o seu país: "nós nunca fomos comunistas" juram à imprensa estado-unidense; "só queremos salvaguardar a estabilidade da zona euro" imploram aos agiotas europeus; "somos a melhor garantia de estabilidade financeira" adiantam ao capitalismo.
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O imperialismo também usa silenciador

Bruno Carvalho 2.10.14
Esta tarde, o deputado venezuelano Robert Serra, eleito pela zona de Caracas que inclui o bairro 23 de Enero, baluarte da revolução bolivariana, ia participar numa conferência consignada ao tema «Fascismo, vanguarda extrema da burguesia». Mas já não vai. Caiu assassinado mais a sua companheira na noite passada. Para lá da especulação, há boas razões para suspeitar do imperialismo, essa mão invisível que se abate sobre os povos mas que só se confirma décadas depois quando se desclassificam documentos.

Um desses guerrilheiros que se levantou em armas durante décadas contra a oligarquia venezuelana confessava-me há dias que já havia tropeçado em gente que duvidava da intervenção imperialista no país de Bolívar e Chávez. Suponho que a ingenuidade floresça através da sementeira ideológica que impõem os meios de comunicação para ofuscar a realidade. A contra-revolução em Portugal não começou a 11 de Março ou a 25 de Novembro. Desde o primeiro dia, as potências capitalistas distribuíram armas, deram preparação militar, montaram uma ampla rede mediática, deram assessoria política e investiram milhões em organizações e partidos que sendo de direita eram obrigados a dizer-se de esquerda. Não é novidade e tudo isso era amplamente denunciado pelos comunistas e aliados durante o processo revolucionário. Contudo, tudo o que hoje se pode confirmar através de documentos dos próprios pontas-de-lança do imperialismo - que antes eram confidenciais e que, entretanto, foram tornados públicos - comprova aquilo que para alguns era tão pouco credível.
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Parteiros da revolução

Bruno Carvalho 24.4.14
Há muros que se rompem de madrugada para que quando saia o sol se varra a sombra que tanto tempo viveu barricada nos corações de pedra. Então, ouve-se um rugido que abre veios na terra e rebenta um rio de gente que nasce nas fábricas e nos campos. Essas nascentes, donde durante quase cinco décadas brotou a dor de um povo que acabado de nascer já via no horizonte o ataúde em que havia lugar para corpos mas não para sonhos, matava-nos agora a sede de esperança.

Mas encheram-nos as veias de cal para que o vermelho queimasse e a escuridão voltasse ao velho leito em que tantos ficaram pelo caminho. Terá o Alex conseguido gravar na memória o rosto de quem o assassinou? Qual terá sido o último pensamento de José Dias Coelho? Quantas toneladas de coragem terá arrancado Militão Ribeiro para escrever cartas com o próprio sangue? Quantos de nós caímos contigo em Baleizão, Catarina? Mataram-nos, e aos do Tarrafal, uma e outra vez, quando em Abril aterrou a digressão de abutres apostados em levar às nossas praças o espectáculo ensaiado em Santiago do Chile.
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Quatro mulheres de Abril*

Bruno Carvalho 14.4.14
Quarenta anos depois da revolução, quatro mulheres falam das dificuldades que passaram, da miséria que lhes roubou a infância e das lutas que travaram contra a dureza dos tempos. De quando, sobre os estômagos dos portugueses, o peso da fome amarrava muitos à sopa dos pobres. E do que se começa a viver hoje em muitas localidades do País e que era sentido de forma brutal pelos trabalhadores durante o fascismo.

Viúva, e sem forma de sustentar a família, a mãe de Idália Martins foi uma das muitas mulheres que deixaram horas da sua vida nas longas filas de espera por um pedaço de alimento para os filhos.Do tempo em que a região de Lisboa era um mar de barracas e em que os homens não podiam ser meninos, Idália recorda que começou a trabalhar aos 12 anos como costureira. Também foi o caso de Odete Filipe e de Amélia Lopes. Com a mesma idade, uma estreou-se a tomar conta de crianças até que três anos mais tarde uma empresa de produção de material telefónico a contratou. A outra entrou para o sector do vestuário. Sobre estas e tantas outras mulheres, o fascismo deixou marcas que não esquecem. 

Foi doloroso para Odete querer uns sapatos e a mãe não lhe poder comprar. Os pais trabalhavam por conta de outrem na agricultura e só aos oito anos lhe puderam dar uns botins de borracha. «Para que durassem mais», explicou. Em casa não havia electricidade e uma pia ao lado da chaminé fazia as vezes de sanita. Como a maioria das crianças da sua época, cumpriu a quarta classe e a condição social dos pais expulsou-a para o mundo do trabalho. O destino de Amélia foi o mesmo. Aos 12 anos, caminhava sete quilómetros diários para ir e vir da fábrica. Apesar da dureza das condições de vida, amplificada pelo facto de serem mulheres, nenhuma delas deixou de remar contra a corrente. 
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Com a semente que Abril deixou

Bruno Carvalho 20.3.14
Para muitos, deixar para trás o subúrbio e visitar Lisboa é um luxo. Se partirmos da Amadora e tivermos de usar outro transporte como o metro regressamos a casa com menos 6,90 euros. São os cálculos que faço quando o comboio atravessa a Reboleira. Pela janela, vejo uma cidade destroçada. Arrancaram-lhe a identidade e a quem lá mora pouco mais deixaram do que a miséria de viver agrilhoado sem poder sair do bairro. Ficou-lhes o sabor amargo de terem um dia achado que isto da CEE ia ser como os Jogos Sem Fronteiras. Um divertido intercâmbio sem obstáculos que nos levaria a ser felizes por estarmos mais próximos uns dos outros. Eles, lá na Europa, sabiam das nossas privações.
Foram tantas as décadas que vivemos isolados do mundo que se abriram os sorrisos ingénuos de quem acreditou que, de facto, a Europa estava connosco. Já bastava de convulsões sociais e a própria URSS cedia caminho. À sombra, Mário Soares e Cavaco Silva conspiravam. Depois das privatizações, desmantelaram o país e venderam-no aos sucateiros alemães, franceses e britânicos. Sem indústria pesada, sem pesca, sem agricultura, Portugal estava lançado na roleta capitalista. Mas o salão de jogos era nos bastidores e os homens do charuto acenavam para a plateia com auto-estradas, arranha-céus e estádios de futebol.
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5 razões para ser leninista em 2014

António Santos 7.3.14
Desde a morte de Engels que o leninismo é a mais radical, coerente e incendiária adenda à doutrina marxista. O contributo de Lenine não foi edificativo para que o operariado assimilasse e aplicasse a obra de Marx, foi também o inspirador da primeira revolução desde a Comuna de 1871 a acabar com o capitalismo e a instaurar o socialismo. Nos nossos dias amargos de miséria, quando os tambores da guerra voltam a ribombar em todos os continentes, cabe aos marxistas e a todos os revolucionários prestar especial atenção aos fundamentos do leninismo. Afinal ele é, comprovadamente, o mais eficaz dos guias para destruir o capitalismo que diariamente destrói a humanidade.

Abaixo, ficam cinco conceitos com que os leninistas continuam a ser, em 2014, os revolucionários mais temidos e malqueridos pela grande burguesia de Kiev a Lisboa.
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