A Sonsa Sina de Ser-se Santos Silva

9.12.19

Calma Augusto, que amanhã acordas cedo. Pensa na cascata, pá. Imagina a água fria a rir por entre as pedrinhas… um gajo imagina a cascata fica logo mais relaxado. Não penses mais na Bolívia, Augusto! Esquece o Chile! Que se lixe o Equador! O que é que tu tens a ver com a Palestina? Vá, dorme sossegado… visualiza a puta da cascata.

Se agora o Ministério dos Negócios Estrangeiros começasse a fazer comunicados por tudo… Em África todos os dias os gajos matam-se às centenas e nem dá um rodapé, mas se há um golpe de Estado na Bolívia toca a vir chatear o desgraçado do Santos Silva, a perguntar porque é que estou calado enquanto um governo ilegítimo tortura e assassina. Perguntem à EU, porra! Perguntem à NATO, caramba! Vão chatear o Trump! Porque é que só me perguntam a mim?

Um gajo faz o que lhe mandam e ainda tem de levar com a esquerda a fazer comparações absurdas, entre a repressão policial no Chile e na Venezuela… Qualquer dia querem comparar a França à China. Mas cabe na cabeça de alguém, o MNE andar a imiscuir-se nos assuntos de outros Estados? O que é que o Macron ia pensar?

E depois ainda vem o Pompeo e o Netanyahu, e lá tenho de ir eu outra vez armado em Durão Barroso a servir cafés, a sorrir feito imbecil para a fotografia, a fingir que não reparei pelo canto do olho na nódoa de sangue na manga, a disfarçar os arrepios que aqueles gajos me dão, a dar pontapés no inglês à frente das câmaras. E eu ali, a pensar que aquilo é tudo treta, e que se começássemos a julgar os regimes pelas intervenções policiais já tínhamos bombardeado Paris seis vezes, imposto sanções contra o Iraque, invadido a Bolívia e imposto uma zona de exclusão aérea na Arábia Saudita. E eu ali, com um papelinho na mão sobre as «relações de amizade» a apertar a mão a um criminoso de guerra condenado pela ONU, com milhares de civis mortos no cadastro. E só me lembrava de como éramos felizes e fortes quando o Maduro recorria à polícia ou o Assad ao exército… E entretanto o Pompeu, a dizer-me assim, à cara podre, à frente das câmaras, que vai mesmo ocupar ilegalmente as margens do Jordão, e eu a sorrir um sorriso amarelo, a dizer que pronto, temos ideias diferentes, não faz mal, concordamos em discordar, não é assim que agora se diz? E eu ainda a pensar que há três anos nos juntávamos todos, a malta da NATO toda, e bebíamos e comíamos à grande e no fim sacávamos fotos e dizíamos que "Basta de violações dos direitos humanos na Venezuela", como se a gente se importasse. Como se não fosse para o lado que dormíssemos melhor se no Haiti mataram 77 ou na Bolívia 25, no Equador 8 ou no Chile 26. E eu ali, feito imbecil, sem saber muito bem porque é que “o tempo do Maduro chegou ao fim”, mas o do Piñera, que anda pelas ruas de Santiago a arrancar olhos, não.

As voltas que a vida dá: um dia estás na Liga Comunista Internacionalista, a descer a Braamcamp de braço dado com o Louçã a mandar vir com a ditadura soviética, no dia seguinte estás em Paris a falar da ditadura na Venezuela ao lado de um ministro espanhol que no dia seguinte vai rebentar à porrada um referendo em Barcelona. Pronto Augusto, tu consegues. Conta os mortos do Chile até adormeceres. Pensa na Cascata. Raios partam! Mas afinal o que é que eles querem? Sair da NATO? Dizer que se dane a UE? Fazer um manguito ao Trump? Proibir o Netanyahu de entrar? E depois? Já não estás na Liga Comunista Internacionalista, Augusto. São malhas que o PS tece. Agora o teu internacionalismo é outro: o das bombas e dos dólares. És Ministro dos Negócios Estrangeiros ou és Ministros dos Princípios Estrangeiros? Lembra-te mas é de que tens amigos poderosos e vê se descansas porque amanhã te vão perguntar como é que consegues dormir à noite.

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  1. O PS tem uma série de gente que, do ponto de vista político, me provoca um justificadíssimo asco. Este Augusto Silva, ocupa seguramente um lugar de destaque nesse painel. Muitas das razões estão aqui retratadas neste magnífico texto.

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  2. A diferença entre um incidente e um sistema passa despercebido no meio da arenga.
    Alarguemos o conceito para período conturbado e regime abusivo e corrupto.

    Para alguns basta-lhes que se lhes diga que se vai a caminho de lhes satisfazer as crenças para logo aceitarem toda a merda por tempo indeterminado!
    Crenças difíceis! Dizem ser utopias - coisas sem lugar, senão em bestuntos delirantes.

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