Vai à merda, Isabel

17.7.19

Estávamos em 2017. Lembro-me como se fosse ontem. Provavelmente não te lembras de mim, porque eu era só mais um dos trabalhadores em luta. Era dia 28 de Março e nós, os jovens precários da Randstad, fizemos greve. Tínhamos decidido concentrar-nos à porta do edifício da Meo na Praça do Areeiro, e daí seguimos em marcha até à sede da Randstad em Lisboa, na Avenida da República.

À chegada, ficámos espantados: estava lá uma equipa de reportagem! Uma equipa de reportagem e tu, Isabel Pires, deputada do Bloco de Esquerda. Eu desconfio que sei quem te deu a dica, e ficará para a consciência dele essa traição aos trabalhadores que foi eleito para representar.

E portanto, com os trabalhadores a servirem de pano de fundo para a desavergonhada promoção do Bloco e de ti própria, palraste umas generalidades sobre a precariedade e sobre o compromisso do Bloco no combate à mesma. Findos os teus minutos de fama, deste à sola, e a equipa de reportagem fez o mesmo.

Nós, os trabalhadores, não tivemos sequer um segundo para expôr perante aquela câmara de televisão as nossas reivindicações. Entregámos na empresa o nosso caderno reivindicativo e seguimos para os Restauradores, onde engrossámos mais uma manifestação de jovens trabalhadores.

Passaram-se dois anos e três meses e tu abstiveste-te na votação da taxa de precariedade. Uma taxinha de merda, com um máximo de 2%, para as empresas que ultrapassem a média de precariedade do sector a que pertencem. Média essa que sobe de cada vez que uma empresa contrata acima da média, isentando no futuro as empresas que agora ultrapassam a taxa média. Já sei, vais dizer-me que o teu voto pouco conta, que mesmo com os votos do Bloco todos somados não conseguirias ainda assim travar esta proposta. Sabes para quem é que o teu voto teria contado muito? Para os trabalhadores precários. Aqueles com quem te comprometeste, para que te dessem o seu voto. Aqueles a quem roubaste a voz quando, oportunista, te meteste entre eles e uma câmara de televisão.

A precariedade não é para regulamentar nem para taxar, Isabel. A precariedade é para acabar! Os trabalhadores precários asseguram necessidades permanentes, têm um horário de trabalho e um local de trabalho fixos, e do que precisam mesmo é de vínculos de trabalho efectivos com as empresas para as quais efectivamente trabalham. Não é de uma taxinha insignificante paga pela empresa que os explora e que legitima que continuem a receber ordenados de miséria, com vínculos precários e o medo constante de serem despedidos se lutarem pelos seus direitos.

Como já disse, provavelmente não te lembras de mim. Mas eu lembro-me de ti e do teu oportunismo. Oportunismo que não foi coisa da ocasião, é mesmo o teu modus operandi. Passaram-se dois anos e três meses e tu, na semana a seguir a te teres abstido na aprovação da taxa da precariedade, estiveste à porta da Assembleia da República depois da manifestação da CGTP-IN de 10 de Julho, com o teu co-aderente José Soeiro, rodeados por três câmaras de televisão. Ao mesmo tempo o Arménio Carlos falava para duas câmaras. E lá no meio da multidão vi o Jerónimo de Sousa e a Rita Rato, mas esses nem sequer prestaram declarações. Mais uma vez aproveitaste-te de um momento da luta sindical para o qual não deste qualquer contributo para a promoção, tua e do Bloco.

Dir-me-ás que a culpa não é tua, que as câmaras vos procuram. Treta. Mas mesmo que fosse verdade; cabia-te, se soubesses o que é rectidão, dizer aos repórteres que te procuram que não é a ti que devem entrevistar, que não é a tua voz que naquele momento deve ser ouvida. Que os trabalhadores têm estruturas representativas e elegem democraticamente os seus delegados e dirigentes, e que nos momentos de luta sindical são esses os seus porta-vozes.

Mas deixa lá, estás bem entregue; o oportunismo político está no ADN do Bloco e assenta-te que nem uma luva.

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  1. A precariedade é para acabar!

    Qualquer patrão, por muito burro, incompetente ou javardo que seja, quando contrata contrata prasempre.

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    1. A sério, José Mim? Tens a certeza? Essa opinião é digna de ti?
      Ou estarás a ser mais um «oportunista» nestes teus comentários saloios?

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    2. "Qualquer patrão, por muito burro, incompetente ou javardo que seja, quando contrata contrata prasempre."

      Uma frase curiosa.Porque se por um lado encerra uma autocrítica do próprio, por outro patina na mais sólida ( sórdida?) mentira.

      Há por aí relatos deste patrão a insultar os trabalhadores e a apelar ao seu despedimento. Mulheres e sobretudo delegados sindicais diminuíam o seu lucro e era para ir directamente para olho da rua.Até bramava contra os bombeiros voluntários

      Um ódio de classe conhecido. Tanto que se podem citar ipsis verbis as rosnadelas do sujeito em causa, ávidas de despedimentos em prol do aumento da taxa de lucro

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  2. Por acaso estes merdas do Bloco cada vez me dão mais asco. É que à grande maioria deles, já os conhecia antes de terem nascido: basta ver o útero da mãe e sabe-se logo qual a besta que vai parir.

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    1. só dor de "cotovelo"!!! Em lugar de atacarem a direita e a extrema-direita, "alguns" "iluminados" simpatizantes/militantes da CDU, vêem no Bloco de Esquerda o seu inimigo!!! Haja paciência... e sanidade política e de classe.

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    2. concordo completamente com a tua opinião

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  3. O Bloco de esquerda continua a arriscar o caminho trilhado pelo PS no início da democracia, ou seja, oportunismo, descaramento, falta de carácter dos seus afiliados (ex: Ricardo Robles, Isabel Pires...) E tudo em nome da «esquerda».

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    1. só dor de "cotovelo"!!! Em lugar de atacarem a direita e a extrema-direita, "alguns" "iluminados" simpatizantes/militantes da CDU, vêem no Bloco de Esquerda o seu inimigo!!! Haja paciência... e sanidade política e de classe.

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    2. Que comentário tão estúpido. Ou seja, pela tua ideia (desconhecida ou «unknown»), o BE é intocável. Se és assim, vais pelo mesmo caminho da direita.

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  4. Um texto inqualificável. Não é por acaso que algumas forças políticas à esquerda do PS estão em erosão contínua. É por este tipo coisas.

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    1. Nuno, pretender explicar a "erosão" do PCP (é disso que estamos a falar, por isso deixe-se lá de rodriguinhos), com o facto de alguém escrever um texto tão claro e objectivo como este (concorde-se ou não com o respectivo conteúdo), é um bocadinho tapar o Sol com a peneira. Ou ainda não reparou que o capital e as suas forças directoras se incomodam SOBRETUDO com o PCP e não tanto "com outras forças à esquerda do PS", digamos assim. É que isto de ter uma proposta política de classe gera muitas comichões. Dá porventura menos votos, não nos torna tão consensuais, mas torna-nos muito mais verticais, o que não é coisa pouca.

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    2. A verdade incomoda muita gente.
      A verdade é necessária e revolucionária.

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    3. Este texto não acrescenta nada de relevante à luta destes/as trabalhadores/as. Ponto.

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    4. O Nuno Alves também não acrescenta nada de novo à luta contra o oportunismo que existe no BE.

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  5. Confesso, sou, sou sim senhor, sou um potencial votante do bloco que continua a não votar nos camaradas broquistas e vai continuar a votar CDU enquanto conseguir, e vou continuar a votar CDU também por isto, porque a pavonice broquista me provoca urticária. Irrita-me especialmente a forma como os camaradas broquistas cavalgam lutas para as quais os seus camaradas "ativistas laborais" não deram uma gota de suor. Vai à merda Isabel!

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    1. É só dor de "cotovelo"!!! Em lugar de atacarem a direita e a extrema-direita, "alguns" "iluminados" simpatizantes/militantes da CDU, vêem no Bloco de Esquerda o seu inimigo!!! Haja paciência... e sanidade política e de classe.

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    2. Unknown, és capaz de explicar o que significa para ti a sanidade política de classe?

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