Bicicletas partilhadas também são um meio de transporte... e devem ser públicas!

terça-feira, 19 de junho de 2018

As bicicletas partilhadas servem como um bom adereço nas cidades responsáveis. Enganam bem. Maquilham estas cidades como cidades do futuro. Mas não cumprem um objectivo básico, o de servir as pessoas e a cidade no seu todo. Assim, surgem na cidade de Lisboa a GIRA pela EMEL e muitas empresas privadas de bicicletas partilhadas.

Nos últimos anos, várias cidades portuguesas criaram um sistema de bicicletas partilhadas. Na generalidade com nomes simpáticos (caso da GIRA em Lisboa), em simultâneo, estas mesmas cidades permitiram a entrada de empresas privadas para fazerem o mesmo serviço ou serviços semelhantes com bicicletas em suas cidades. Estas cidades não criam grande regularização destes serviços, pois qualquer empresa com interesse introduz um sistema de bicicletas partilhadas. No geral, o que se assiste é uma despreocupação generalizada em servir as pessoas, sejam moradores, trabalhadores, estudantes ou até mesmo os turistas.

Note-se o exemplo da cidade de Lisboa, talvez o mais mediático de todos, que começou a investir tardiamente nas infra-estruturas (por exemplo, as ciclovias e as próprias bicicletas) para uma melhor utilização de bicicletas individuais e partilhadas.

O sistema desta cidade é da responsabilidade da EMEL. Tem um custo anual-25€/mensal-15€/diário-2€. A partir do dia 30 de Setembro deste ano, cada viagem até 45 minutos tem um custo de 0.10€ (bicicletas clássicas) /0.20€ (bicicletas eléctricas), ou seja, num dia normal (ida/volta) as viagens custaram 0.20€/0.40€. Isto quererá dizer que, fazendo as contas, cinco dias por semana, quatro semanas por mês, dará um valor aproximado de 4€/8€. Neste momento, já estão em vigor os valores praticados em viagem que ultrapassem os 45 min até os 90 min, em que são acrescidos 1€ e 2€ por cada período adicional de 45 min acima dos 90 min de viagem. Uma viagem de bicicleta na cidade de Lisboa dura em média 45 min, de uma pessoa que vem de fora do centro da cidade. Tendo em conta estes valores todos, proponho a criação de um exemplo tipo (num cenário optimista), no qual um usuário com um passe mensal, utiliza somente as bicicletas clássicas, cinco dias por semana, e ultrapassa uma vez por semana o tempo de 45 min, num cenário pensado pós 30 de Setembro de 2018. De acordo com este cenário, teremos os seguintes valores num mês “normal”: 15€ passe mensal + 4€ uso diário (ida/volta) + 4€ por ultrapassar 45 min = 23€ mês. Conclui-se para cenários mais negativos e como foi afirmado num artigo do Jornal de Negócios: "as bicicletas são perfeitas para quem mora no centro".

Esta rede de bicicletas foi lançada pelo poder autárquico como se fosse o último copo de água num deserto. O discurso associado à GIRA mistura práticas ambientalistas, cidade responsável e umas bikes giras e cool. Funciona através de uma APP (colocando em causa quem não tem telemóvel com estas configurações). Foi testada no Parque das Nações, por outro lado, um novo sistema de vigilância e controlo de pagamento de bilhetes da Carris foi testado na carreira 711 da Carris que faz o trajecto do Alto da Damaia ao Terreiro do Paço, nota-se que as escolhas sempre pendem pelas questões de classe, no caso da Carris com um florear racista. Apesar da expansão da GIRA pela cidade, facilmente, constata-se que em vários bairros municipais da cidade de Lisboa, elas ainda não chegaram (ver exemplos em Marvila). Soma-se, por fim, um novo factor, começam a aparecer recorrentes falhas dos travões destas bicicletas. Foram reportados mais de 40 acidentes por pessoas a usar a GIRA no início de Maio, segundo o Correio da Manha.

Como praticamente todas as redes que foram criadas pelo país, esta rede de bicicletas partilhadas não está associada à rede de transportes públicos, por exemplo, aos passes urbanos. Neste momento, há uma discussão importante sobre a criação de um Passe Intermodal na AML e as bicicletas partilhadas praticamente não têm lugar à mesa. Elas também estão totalmente desligadas de todas as outras redes semelhantes na Área Metropolitana de Lisboa, visto que cada cidade cria a sua rede e não partilha, ironicamente, com as outras redes na mesma área metropolitana. Deveria ser pensada uma AML com transportes urbanos integrados, públicos, eficientes e com preços adequados aos respectivos utentes. Esta deveria cumprir, entre vários objectivos, o de aliviar o fluxo de automóveis individuais nas cidades. Neste momento, para os utentes é mais prático utilizar um carro do que estar a pagar balúrdios para utilizar uma série de transportes, que cada vez mais são poucos eficientes.

Em simultâneo, com a existência da GIRA, a cidade de Lisboa dá alvará e promoção a todas redes de bicicletas partilhadas que chegam à capital, nacionais e estrangeiras. Com poucos impostos e legislação, este é um mercado em crescimento e de fácil acesso. Recentemente, uma multinacional na área, a oBike, chegou à cidade e, de um momento para o outro, colocou as suas bicicletas em cima de passeios, praças e lugares de estacionamentos de carros, o que foi considerado pela CML como prática “abusiva” e ordenou a retirada de todas as bicicletas do espaço público da cidade, neste momento há conversas para a mesma retornar à cidade. Em França, uma empresa retirou as suas bicicletas do mercado porque foram vandalizadas, roubadas e mandadas ao Rio Siena numa resposta dos franceses contra estes abusos praticados por empresas como oBike.

Num mercado aberto, sem muitas regras, de fácil acesso, barato, muito lucrativo e aliado a um discurso mediático e político de responsabilidade social e ambiental, as bicicletas partilhadas florescem e não dão respostas práticas e realmente responsáveis para a vida das pessoas.

2 comentários:

  1. De onde tiraram os dados da duração da viagem média de bicicleta em Lisboa? Fiz uma viagem desde o IST para perto das torres de Lisboa e demorou 23 minutos. Acho essa média inflacionada.

    ResponderEliminar
  2. A estimativa de um mês médio é interessante, mas qualquer pessoa perceberá que, para uma utilização regular, compensa sempre comprar o passe anual. Portanto, usando a bicicleta durante 10 meses, para o mesmo tipo de utilização descrita, o custo mensal ficará nos 10,50 euros. É alto, mas não é tão caro como é dito no texto.

    ResponderEliminar