Como os nossos pais

9.2.18

Ao fim de vários dias de trabalho sufocantes não queria estar a perder tempo de descanso e arrastar-me dolorosamente até ao teatro. Não sabia ao que ia, o tema da peça, nada. Só sabia da minha exaustão e vontade de dormir.

Mal entro no D. Maria, em cima da hora, vejo o pequeno auditório cheio e uma sala com panos. Lembro-me então que a peça teria qualquer coisa a ver com operários. Mas não sabia o que estava para vir.

Todos aqueles nomes que sempre fizeram parte da minha vida: Coelima, as fábricas em Barcelos, o museu do têxtil. Vizela, Felgueiras, Guimarães, Pevidém, todos aqueles sítios onde a vida me levou e para onde a minha cabeça imediatamente se transportou. E, de repente, estava nos anos 90, em Santa Maria da Feira, a ouvir as sirenes de entrada da Lunik, da Huber Tricot, da Ecco, da Rohde.

À medida que a peça avançou, avançou a minha memória das vigílias intermináveis ao frio, durante o Natal, em frente à Rohde. Das caras das mulheres que na sua meninice estavam na mesa ao meu lado na escola. Das suas mães que estavam na mesma fábrica nas gáspias. Do ano negro de 2003 em que encerraram dezenas de fábricas. Das vigílias dos corticeiros. Da luta das corticeiras pela igualdade salarial que rapidamente se tornou em luta pelo pagamento de salários em atraso.

A história que Eu uso termotebe e o meu pai também conta é a história dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos vizinhos. O exemplar d'A Mãe de Gorki que envergam é o exemplar que tenho na minha estante e que quero deixar à minha irmã mais nova.

Imagino misturar a vida destes testemunhos de operários com a vida dos operários de A Mãe de Gorki. O que mudou desde 1907? Que verdade nasce destes testemunhos confrontados com as históricas lutas do trabalho? Que consciência nasce em mim [se fosse eu um narrador] à medida que a história avança? Talvez isto seja a chave para prosseguir. O operário e o seu espelho. Um espelho fictício mais real do que a realidade. Plagiar o real com a ficção. Como num auto retrato. Será que assim conseguimos roçar a verdadeira vida?

Esta é a pergunta que Ricardo Correia faz depois de ouvir dezenas de operários, de patrões e alguns sociólogos. Uma peça capta a essência da contradição do trabalho e do capital. A persistência da luta de classes e a necessidade da consciência de classe. Da nossa, de cada um de nós. Da repetição em espiral da história que está tão patente na corajosa luta das trabalhadoras da antiga Triumph. Nas citações dos operários que liam Marx, Lenine, Rancière, esses operários letrados que lutavam meses e meses pela jornada de 40 horas e pelo fim do trabalho ao sábado, lado a lado com aqueles que iam ganhando a consciência de classe na luta. E que termina como começou.

Esta é a camisola do avô, que passou ao pai, que passou ao filho para que um dia o que vier possa dizer que valeu a pena. Até lá, é à classe operária que cabe tomar nas suas mãos o seu destino.

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