A escassez de Economia

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Há um livro de Paul Sweezy, de 1973, que tem uma abordagem interessante ao momento que então se vivia no meio académico e que se agravou desde então e, creio, ajuda a explicar a dificuldade sentida, academicamente, no aprofundamento da economia marxista. Economia que, para ser uma ciência social, não pode actuar desgarrada de todas as outras. A economia não é uma ciência exacta, tem matemática mas não é matemática. É por isso que, se num mercado desregulado a oferta e a procura ajustam preços, no mundo real fazem-no à custa do factor do trabalho. É que até o factor capital só existe quando é produzido pelo factor trabalho, e é este princípio que parece ser esquecido ou, não raras vezes, omitido.

Não é menos verdade que o marxismo foi afastado dos programas de Economia das universidades. Aliás, no livro base de qualquer curso de Economia actual, de Samuelson e Nordhaus, pode ler-se: “A agricultura, os sindicatos e a economia marxista foram reduzidos para dar lugar à economia do ambiente, à economia de rede, aos ciclos económicos reais e à economia financeira". Em suma, a academia não ensina Economia, mas antes um sistema económico, que nos é apresentado como único nas suas variantes, com a nuance de haver mais ou menos regulação.

Porém, a História, recente e não só, tem-nos provado que a regulação efectuada pelos Estados é insuficiente, ineficiente e anacrónica. Porque, mais uma vez, a Economia enquanto ciência social não pode existir sozinha. E, por isso, não pode a Economia alhear-se dos outros fenómenos e analisar os factos à luz de processos que não correspondem à realidade. Afirmar, como na Economia neoclássica, que é necessário que os Estados regulem os mercados, sem ter em conta que os Estados estão capturados pelo poder económico, pelos detentores dos meios de produção e pela minúscula fatia que concentra a esmagadora maioria da riqueza, não é ser Economia, é ser matemática.

Dizia, então, Paulo Sweezy: "O paradigma subjacente que, neste caso, insiste no conflito, no desequilíbrio e na descontinuidade, data igualmente de há uma centena de anos. Precisamente porque o conhecimento que ele produz constitui uma crítica total da sociedade existente, é natural que os beneficiários desta ordem social não o tenham aceite - em primeiro lugar as classes possidentes, que são também as detentoras do poder político. A economia marxista foi, portanto, rejeitada por todas as instituições estabelecidas da sociedade: os governos, as escolas, colégios e universidades. Em consequência, tornou-se a ciência social dos indivíduos e classes em revolta contra a ordem social estabelecida".

(...)

"A «investigação normalizada» no interior do quadro do paradigma marxiano tem sido, desde o início, extremamente difícil de levar a cabo. Excluídos das universidades e dos institutos de investigação, os economistas marxistas não tiveram as facilidades, o tempo, o ambiente conveniente de que dispunham os outros investigadores. A maior parte deles teve de consagrar as suas vidas a outras tarefas, muitas vezes em sectores de actividade em sectores da actividade política que exigiam um trabalho esgotante e uma grande tensão nervosa. Em tais circunstâncias, não é de espantar que tão poucas coisas tenham sido realizadas: pelo contrário, talvez se deva antes sublinhar o facto de tanto se ter concretizado nestas circunstâncias".*

Ontem, a Oxfam publicou um estudo onde se pode ler que 80% da riqueza criada foi para 1% da população mundial, apelando a uma justa repartição dos rendimentos, mas fá-lo com uma conclusão errada, que é não referir – que heresia – que isso não acontecerá neste modelo económico, com ou sem regulação, pelo que foi dito atrás. Não há alternativa a este estado de coisas neste modelo económico e social. Não há alteração da distribuição de rendimentos enquanto o valor do trabalho não for propriedade de quem o produz.

É na parte menos pior do capitalismo que este é vendido como inevitável, único e o fim da História. Sendo também nesta zona do globo que são ditadas as leis que acabam por perpetuar o actual estado das coisas. É aqui que estão as universidades, os detentores dos meios de produção e os centros de decisão mundiais. Não há uma instituição mundial localizada na Etiópia, no Mali, no Haiti. Não é por acaso. É porque a metade menos pior do capitalismo se mantém nos ombros de milhões de explorados para que se possa alterar tudo, sem alterar mudar alguma. De cátedra, FMI, Banco Mundial, OMC e centenas de outros organismos onde cada um diz o mesmo com vozes diferentes, explicam ao explorado porque é que tem de ser explorado para que os primeiros possam ser exploradores. E é nesta zona do globo, no chamado Ocidente, que se definem as políticas de todo o mundo, mantendo metade na mais extrema pobreza e uma parte substancial do que resta, na ilusão de que pode viver com dignidade a pagar a um banco aquilo a que tem direito.

E entramos então num círculo que urge romper. Os detentores dos meios de produção, que se confundem com reguladores e, por isso, governos, são quem define políticas, incluindo educativas. Através dessas políticas, perpetuam o seu estatuto. Quando acaba o seu tempo útil de vida, retiram-se e são substituídos por outros formados dentro do mesmo campo, formados dentro dos mesmos parâmetros.

Obviamente, é útil conhecer os fundamentos e o funcionamento da economia de mercado. Diria que é essencial para quem a combate. Mas tenhamos todos noção que o trabalho de um marxista, nesta como noutras questões, é redobrado em relação todos os outros. Mas, tenhamos noção que “é assim porque tem de ser assim”, enquanto nós quisermos que seja.

Há escassez de Economia na Economia. E suprir esta falha é, também, uma tarefa de todos.

*"Para uma Crítica da Economia Política"
Publicações Escorpião - Cadernos o Homem e a Sociedade
Impresso em 16 de Março de 1973

6 comentários:

  1. «Não há alteração da distribuição de rendimentos enquanto o valor do trabalho não for propriedade de quem o produz.»

    O fortíssimo e bem sucedido movimento cooperativo, e o empenho que nele põem as forças progressistas traduzem a enorme confiança nesse princípio!

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  2. Impossível ser mais estúpido e obsessivo que o José.

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  3. É verdade que...
    Excluídos das universidades e dos institutos de investigação, os economistas marxistas não tiveram as facilidades, o tempo, o ambiente conveniente de que dispunham os outros investigadores.
    ...Mas acho que os partidos marxistas não teem feito tudo o que podem para colmatar esse handicap.

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    1. Há resmas deles nas universidades e institutos públicos!

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