O apartheid social de Inês Teotónio Pereira

26.10.15

Contexto: no passado sábado a candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa organizou uma pouco concorrida sessão (estilo comício) no salão da sede da Voz do Operário, em Lisboa. A ex-deputada do CDS, Inês Teotónio Pereira, foi à Voz e dessa presença no comício de Marcelo resultou uma fotografia legendada que publicou nas redes sociais. Na fotografia pode ler-se a insígnia "Trabalhadores, uni-vos" inscrita em lápide presente no salão. Na legenda a seguinte observação: "Só o Prof. Marcelo me leva a um sítio com operário no nome".

A piadola saiu-lhe cara e apesar de ter removido imagem e legenda das redes sociais, Inês Teotónio Pereira, que é ex-deputada eleita pelo círculo eleitoral de Lisboa, já não pode fugir às consequências políticas das suas palavras.

A alergia de Inês Teotónio Pereira a sítios com operário no nome não é característica especificamente sua. É também por isso que afirmá-lo nas redes sociais não lhe causa constrangimento algum. O CDS tem origem histórica e de classe bem conhecida, e o seu desprezo pelas instituições populares de cultura e recreio - como a Voz do Operário - é parte estruturante do seu ADN. O associativismo popular é um dos principais factores de resistência à destruição dos valores de Abril; dentro deste o associativismo de raiz operária permanece como uma das mais dolorosas pedras no sapato daqueles que não apenas promovem mas simultaneamente afirmam como necessária a estruturação da vida económica e social do país na forma de uma pirâmide social injusta e anacrónica, que instituições como a Voz do Operário (de que sou associado há muitos anos) procuram por formas diversas combater. Através da educação das crianças das camadas populares, por exemplo.

É curioso que, sendo ex-deputada eleita por Lisboa, com responsabilidades parlamentares na área da educação (pertenceu na legislatura de 2011-2015 à Comissão de Educação, Ciência e Cultura), Inês Teotónio Pereira trate com tanto desdém uma das mais antigas e prestigiadas instituições ligadas à educação na cidade de Lisboa. A Sociedade "A Voz do Operário" não é uma escola, mas a sua actividade no domínio da educação é não apenas centenária mas também reconhecida por quase todos aqueles que desenvolvem actividade técnica, científica e também política neste contexto.

Inês Teotónio Pereira foi à Voz e da sua passagem pela sede da instituição - edifício que é aliás património arquitectónico da cidade [1] - apenas trouxe a piadola que se conhece sobre os sítios "com operário no nome". Creio que se trata de um episódio que caracteriza de forma exacta a intervenção pública não apenas desta deputada mas também do CDS enquanto agrupamento partidário das facções mais reaccionárias do espectro político nacional.


Nota:
[1] "A Voz do Operário vai ser classificada como monumento", Público, 25/03/2012.
[imagem]

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  1. "Inês Teotónio Pereira, que é deputada eleita pelo círculo eleitoral de Lisboa", felizmente já não é. Esta não vai ganhar à custa dos operários nos próximos tempos (pelo menos na AR)

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    1. Obrigado pela boa notícia. Está alterado!

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  2. Anónimo29/10/15

    CDS, PSD, Marcello Rebelo de Sousa, são nojentos em tudo o que fazem.

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  3. Sr. Rui Silva, venho por este meio manifestar o meu desacordo com o teor do seu texto.

    Antes de mais, umas pequenas notas.....
    1. Não sou PSD, nem CDS, nem PS, nem PCP, nem rosa chique nem nada disso. Sou português, com ideais de esquerda assumidos!
    2. Não gosto da sra em causa... nem um bocadinho. Tive o desprazer de me cruzar com ela, por motivos profissionais, há uns 15 ou 16 anos atrás (já não simpatizava com ela na altura, e claro, depois, muito menos). Altiva, prepotente, mal educada (posso dizê-lo porque o foi comigo - e levou troco, claro, porque eu, digo o que acho e como não falto ao respeito a ninguém, não admito faltas de respeito, venham de quem vierem) mas a verdade é que neste caso, a sra fez uma piada. Eu achei graça, porque acredito que não houvesse maldade. Admito, que possa estar errado, mas acho que não! De resto, onde é que A Voz do Operário foi insultada? como instituição que muito gosto, admiro e já fui várias vezes fruir a tal cultura (na altura era quase contra-cultura) popular.
    A "alergia" que refere da ITP ou do CDS também é sintomática na dita "esquerda radical" ou "popular" ou "trabalhadora", como quiser...
    Estou em sintonia perfeita consigo quando diz que é através da educação das crianças (e não só.... há muito "crescido" por aí que não é digno desse nome) que se pode levar um país para melhores condições, mas ao destilar semelhante raiva, ódio, diria nojo até, não está a prestar a essas criancinhas, na minha opinião, o devido valor, uma vez que devolve, sem classe, desculpe que lhe diga, e com o mesmo desrespeito que criticou à ITP.
    Para terminar, ideais de Abril? onde? quando? quem? Até agora, houve um, e o mais importante na minha opinião, que será o que me permite estar aqui, a trocar umas ideias consigo, e discordar, educadamente, e sem isso, claro, não há, nem nunca haverá uma verdadeira democracia. Tal como nos países onde o PCP "governa"....
    Muito obrigado pelo seu artigo.
    Miguel Máximo

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  4. De facto, aos poucos a tal máscara com se indumentaram para povo ver e que abusivamente adjectivam-na por democracia, vai desaparecendo, aqui e ali, ela vai caindo revelando o verdadeiro espírito fascistas desta gente que despreza e odeia no fundo, aqueles de que se alimentam como vulgares parasitas, os "OPERÁRIOS ELES E ELAS", enfim, POVO QUE TRABALHA E VIVE DO SEU TRABALHO. Esta gente do CDS-PP e seus aliados do PSD, são na realidade nua e crua o regressar a 1973 e votar ao esquecimento tudo o que ao 25 de Abril de 1974 foi e representou, inclusive a ascensão deste tipo de gentinha, pequenina em raciocino na mesma escala da sua capacidade geográfica, pois para além do seu umbigo, tudo é mau, à excepção quando necessário, dos seus iguais, que eventualmente cabem todos numa única divisão de um apartamento T0, mas que tudo fizeram para dominar o aparelho designado como COMUNICAÇÃO SOCIAL. Imagine-se Hitler, Mussolini ou os grandes ditadores da 1.ª metade do século XX terem tais "aparelhos" à sua inteira disposição. Hoje sem quaisquer dúvidas, estaríamos a falar alemão e a abraçar submissamente a raça ariana e os Judeus, Comunistas, Deficientes, Ciganos, já não existiriam, tinham sido pura e simplesmente, fisicamente extintos, com aplausos e gritos de vivas dos cobardes resignados e obedientes com temor infinito pelas suas vidas. Os não arianos seriam os escravos desta raça, Mediterrânicos, Hispânicos, Negros, etc., seguramente seguros por trelas de muitos tentáculos pela mão de subservientes da mesma espécie escrava e não ariana, que como hoje claramente se vê existirem sempre em demasiados cantos como uma vulgar prostituta não por necessidade, mas por puro prazer em se sentir nem que seja um milímetro acima dos seus para si, não iguais, sem contudo jamais em toda a sua vida sequer se aproximarem dos seus donos e senhores. Reforço aqui a tal frase que se encontra escrita na VOZ DO OPERÁRIO:
    "TRABALHADORES DE TODO O MUNDO, UNI-VOS"
    (Eles, as bestas, são centenas. Mas nós TRABALHADORES, somos MILHÕES!)

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