Senão o quê?

13.7.15

Não está tempo para sermos ingénuos: o governo grego traiu o seu povo e mostrou cabalmente que os únicos referendos vinculativos que o Syriza reconhece votam-se nas reuniões do Eurogrupo.

Pouco interessa quais eram as intenções de Tsipras ou dos seus seguidores. Não se trata de escamotear as pressões, ingerências e chantagens de que foi alvo o governo e o povo helénicos, mas de enfrentar a realidade como ela é: este governo assumiu promessas que não cumpriu, convocou um referendo que não respeitou e acaba de assinar o maior retrocesso social das últimas décadas.

O governo de Tsipras aumenta a idade da reforma, sobe brutalmente os impostos para os trabalhadores, injecta o erário público nos bancos privados e transforma a Grécia, com a hipoteca de 50 mil milhões em activos, num protectorado de Bruxelas. Não criticar o governo que assina estas medidas anti-populares, sob qualquer pretexto, é toda uma declaração de intenções do que se quer para Portugal e para a Europa.

Sim, é verdade que houve quem não se tivesse deixado enganar pelo cavalo de Tróia: uns tentaram cavalgá-lo mas houve outros que se abstiveram de festejos. E desengane-se quem atribua a desconfiança a qualquer sectarismo: Tsipras não capitulou por ser um líder fraco, os seus negociadores não atiraram a toalha ao chão por não saberem negociar nem o Syriza traiu pela grandeza das forças que contra ele se investiram.

Tsipras traiu porque, reconhecidamente, não vê qualquer caminho fora do Euro e da União Europeia. E, como em qualquer negociação em que se enfrentam interesses antagónicos, há que antecipar a pergunta que, mais tarde ou mais cedo, o outro lado há-de fazer: «senão o quê?».

Isto serve tanto para uma reivindicação laboral ( «se não cedem fazemos greve!»), como para uma guerra («se não cedem atacamos»), como para as negociações com os credores da dívida. O problema é que Atenas foi pedir a Bruxelas o que Bruxelas não quer nem precisa de dar. E, quando Bruxelas perguntou «Se não o quê?», o Syriza respondeu: «senão nada».

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  1. Anónimo13/7/15

    Ou seja, o KKE tinha razão.

    Onde está o Bloco de Esquerda que apoiou este Syrisa?

    Cadé o Bloco de Esterco?

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  2. Anónimo14/7/15

    O KKE é um partido oportunista, que foi incapaz de apoiar o Syriza logo de início, votou contra a moção de confiança ao governo quando este tomou posse, e foi incapaz apoiar o "não" no referendo (quando até a extrema-direita odiosa e odiada por todos apelou ao "não"). A ideia de apelar ao voto nulo foi ridiculamente parva. Não há como classificar esse sectarismo. É fácil dar razão a quem é do contra e não faz esforços quando no fim as coisas correm mal para quem teve as responsabilidades de governo.

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    1. Anónimo14/7/15

      Por isso, tiveram razão. No final, quem se comportou de maneira oportunista e parva foi o Syrisa. Na verdade, prometeu aos gregos que o «Não» significava o fim à austeridade, quando na verdade está a negociar propostas com austeridade, como o IVA em 23% na restauração e a subida da idade de reforma para os 67 anos.

      Há aqui um enorme equívoco na declaração deste anónimo das 02:30. Quem tem razão não é oportunista. Normalmente, quem é oportunista não tem razão, como aconteceu com o Syrisa.

      Já agora, eu pergunto a este anónimo das 02:30, porque é que o KKE não apoiou o «não» pedido pelo Syrisa no referendo?

      O anónimo das 02:30 diz também que apelar ao voto nulo é uma opção ridiculamente parva.

      Então, eu pergunto: Se em Portugal tivesse que votar para presidente entre Marcello Rebelo de Sousa e Rui Rio, em quem optaria?

      Ou a escolha do voto nulo se insere numa opção democrática?

      Portanto, mais consenso nas palavras e no pensamento e menos «Parvoíce» que é muito costume entre filiados e não filiados do «BE», «Livre» e «Pin Pan Pum».

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    2. Anónimo14/7/15

      Carlos Carapeto

      Caro anónimo das 02:30.
      As suas criticas às posições responsáveis, claras e patrióticas assumidas por o KKE.
      Em primeiro lugar como ficou demonstrado no curto comentário que deixa, assentam nesse anti comunismo evangélico que apregoa.
      Em segundo lugar fica claro que se esforça por caldear um pouco de verdade com a grande massa da mentira difundida por a informação ao serviço dos poderosos acerca das razões que levaram o KKE a não confiar na propaganda do Siriza.

      Os comunistas Gregos perceberam desde a primeira hora o oportunismo dos dirigentes do Siriza, perceberam que as promessas que faziam assentavam na demagogia, movia-os o oportunismo alimentado na esperança do sacrificado povo Grego de se livrar da espessa placa de chumbo que está a esmagar as suas vidas, o partido Comunista Grego por a sua experiência histórica de luta e resistência às traições da burguesia travestida de revolucionários também desde a primeira hora que avisou o povo Grego que as promessas feitas não iam ser cumpridas, infelizmente o tempo deu-lhe razão.

      Tsipras rendeu-se incondicionalmente às exigências do capitalismo Alemão, entregou o povo Grego como garantia das suas traições. Porque Tsipras é um traidor e os comunistas Gregos sabiam-no desde que abandonou o partido e se transformou num revolucionário de "vanguarda".

      Munique repetiu-se em Bruxelas, com outros protagonistas e noutras condições, foi mais outra cedência humilhante e uma traição vergonhosa. Tal como Munique, a capitulação de Bruxelas esconde outros objetivos tenebrosos que vão muito para além do que está à vista, pretende atingir também outros países.

      Tsipras quando chegou a Atenas só lhe faltou exibir nas escadas do avião o celebre papelinho e dizer "fizemos um acordo".

      Tsipras a partir de agora já não faz falta na Grécia, cumpriu a missão que o grande capital lhe destinou, de denegrir e desacreditar a esquerda e as organizações dos trabalhadores, muito brevemente é empurrado para fora do governo e consagrado ao esquecimento.

      Ao povo Grego a curto prazo está reservado o mesmo destino dos Búlgaros e Romenos.

      Por esta grande "vitória" só temos que felicitar os Trotskistas inspirados na moderna doutrina de Zizek por os grandes progressos conseguidos na luta dos povos contra o capital.

      Carlos Carapeto

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    3. Anónimo14/7/15

      «Então, eu pergunto: Se em Portugal tivesse que votar para presidente entre Marcello Rebelo de Sousa e Rui Rio, em quem optaria?»

      Olha, quando tive que optar entre Mário Soares (que não tinha nada de esquerda) e Freitas do Amaral (o representante da direita reacionária), não tive hesitação nenhuma.

      Houve gente com hesitações, mais do que compreensíveis. Mas ninguém com um mínimo de consciência política revolucionária deixou de participar nesse combate ou fez o jogo da reação deixando de votar Mário Soares.

      O PCP, com toda a sua responsabilidade, consciência e lucidez, em nenhum momento perdeu de vista o que estava em jogo.

      É uma evidência que, se tivesse apelado e se se tivesse empenhado na campanha do Não, o KKE estaria agora em muito melhores condições políticas para prosseguir a sua atividade.

      Assim, os trabalhadores mais conscientes dirão: na batalha mais importante que tivemos contra a troika, o Não do Syriza afinal era um SIM, mas não nos esquecemos que o Não do KKE era um Nulo.

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  3. Esteve bem o KKE, ao rechaçar com firmeza a golpaça política do Syriza da convocação daquele referendo.
    Lamentáveis foram os apressados elogios, simpatias e solidariedades manifestadas ao Syriza e ao Tsipras aquando da convocação do referendo e do esmagador "Não!" que recebeu, por aqueles que dizendo-se de esquerda e até comunistas (?!), confundiram deliberadamente o justo apoio à luta dos trabalhadores e povo gregos, aos seus sindicatos e partido de classe, com vergonhosas manifestações de simpatia ao governo social-democrata traidor do seu povo. Esses, agora, bem podem limpar as mãos à parede!...

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  4. Anónimo14/7/15

    É claro que para o anónimo das 02:30 ser sério é uma opção que não está em causa na política.

    Portanto, mais vale ser oportunista, fazer a vitória pelo «Não» e depois vir a saber que foi enganado pelo mesmo que convocou o referendo.

    Ser sério e honesto não conta...

    Não me admira que gente desta lavra, ao fim de vários anos, já não vote e diga, num jeito muito cansado e refeito: «Que os políticos são todos iguais» e que «A política é uma merda»... «eles só querem saber do deles»... «se fosses tu fazias o mesmo»... e por aí adiante.

    Ser sério e honesto nas suas convicções e pensamento político deve ser algo que faz confusão para quem não tem paciência para a política.

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  5. Anónimo15/7/15

    Muito simplisticamente:

    Quando foi convocado o referendo - bem ou mal, necessário ou desnecessário - não concordei com a posição do KKE de apelar ao voto nulo. Claro que, já que havia referendo, a posição teria de ser pelo NÂO, a melhor resposta para fortalecer a oposição à Troika.

    Isto apesar de concordar que, como diz o KKE, o caminho é a RUPTURA-DESLIGAMENTO DA UE, CANCELAMENTO UNILATERAL DA DÍVIDA, SOCIALIZAÇÃO DOS MONOPÓLIOS, PODER DOS TRABALHADORES E DO POVO.

    Mas a minha dúvida é: estarão reunidas as condições objectivas e subjectivas para colocar já estas exigências na ordem do dia?

    Penso que infelizmente não! Tanto na Grécia como em Portugal e noutras partes do mundo. Sejamos realistas! Exijamos o possível!

    Não é com cedências e capitulações que se criam essas condições mas também não é com avançar “à maluca” para depois cair uns metros à frente…

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    1. Anónimo15/7/15

      Avançar «à maluca» e cair uns metros à frente, é o que os bancos europeus (principalmente alemães) estão a fazer.

      Nós estamos a ser sujeitos a um verdadeiro jogo de Casino pelos banqueiros ricos europeus (que ganham fortunas com a austeridade imposta aos países do sul).

      Porque teremos de ser sempre nós, o povo, a ceder?

      A sua posição (anónimo das 02:10) é muito submissa. Com essa sua posição, os tubarões do dinheiro fazem o que querem.

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  6. Anónimo15/7/15

    Por isso o PCP afirma e reafirma que é necessário começar a estudar alternativas a esta UE e ao euro, para não sermos apanhados com as calças na mão quando os donos da UE nos perguntarem: Senão o quê?

    A.Silva

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  7. Análises simplistas - e estereótipos oportunistas induzidos-, tal como "presunção e água benta, cada um toma o que quer"...
    Além do mais, os pragmatismos "possibilistas" em nenhuma época ou país conduziram a bons resultados. Também hoje, na Grécia ou em Portugal, nenhum avanço proporcionarão aos trabalhadores e povos respectivos, para gaudio do grande capital.
    Hoje mesmo, nas ruas das cidades da Grécia, devem estar a decorrer grandes jornadas de luta, convocadas pelo PAME e politicamente dirigidas pelos comunistas gregos. Será isto agir "à maluca"?...

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  8. Anónimo15/7/15

    O esquerdismo é a doença infantil do comunismo e o sectarismo é a sua doença geriátrica.

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  9. Oportunismo reformista - a lepra que corrói tanto tecidos jovens como menos jovens e que a ambos conduz ao pântano da abjuração política e à submissão ao "status quo" do capital.

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    1. Anónimo16/7/15

      Apoiado, Filipe.
      Um abraço

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