Este texto não é sobre a Grécia

14.7.15

Nem sobre Portugal, ou Alemanha. Também não é sobre austeridade, nem sobre resultados de referendos.

Na verdade, ao falar-se de União Europeia, excluem-se os povos que alimentam esse projecto imperialista, entre os quais o Grego, o Português, o Alemão. Porque falar de União Europeia não é falar de Europa, que é um continente, um vasto conjunto de países, que cá continuarão muito após o colapso do projecto de espoliação que é a União Económica e Monetária e a União Política.

Este texto não é sobre austeridade porque "austeridade" é a capa sob a qual se esconde o capitalismo. O capitalismo não é austero porque austeridade pressupõe rigor e contenção no uso de recursos. O capitalismo é o inverso disso: é a destruição dos recursos naturais e a exploração do trabalho, com desperdício incalculável. O capitalismo, que agora dá pelo pomposo nome de "austeridade", faz produzir o dobro do que todos os habitantes globo inteiro necessitariam para viver, mas deita fora metade do que produz e mesmo assim um hemisfério do planeta morre de fome. O capitalismo esbanja os recursos para os concentrar nas mãos dos seus privilegiados. Enquanto metade da população da terra sofre de mal-nutrição ou carências no plano da saúde, higiene e acesso à água, uma outra metade consome o suficiente para suportar um planeta inteiro e ainda deita fora diariamente uma parte igual.

Dessa metade de privilegiados, em que nos incluímos apesar de não termos tido opção, apenas um punhado de indivíduos abocanha a riqueza gerada, vivendo na opulência obscena dos milionários a quem nenhuma fortuna satisfaz. Para que esses milhões se concentrem nas mãos de menos de 1% da população terrestre é preciso destruir os recursos comuns e apropriar-se do trabalho dos outros mais de 99%. Mesmo neste contexto, o capitalismo desperdiça milhões e milhões de trabalhadores, votando-os ao desemprego para garantir baixos custos de trabalho e a total precarização das relações laborais.

O capitalismo é desperdício. Austeridade é o eufemismo, tal como Estado Novo o era para o fascismo.



Ora, desde o princípio que a Benelux, a União do Carvão e do Aço, depois a CEE, agora UEM e a UE, são estruturas de mercados capitalistas, são tratados e acordos entre classes dominantes de diversos países que, por mero acaso, ocupam o solo europeu. Aqueles que agora dizem que a "Europa falhou", que "a Alemanha destruiu a Europa", como muito se lê por parte dos que, dizendo-se de esquerda, sempre defenderam a estrutura mais de direita que existe no continente: a União Europeia, estão na verdade, a cumprir o seu papel de sempre.

Em primeiro lugar, a "Europa" não é a "União Europeia", porquanto um corresponde a uma soma de povos e a um espaço geográfico e outro a um conjunto de tratados entre capitalistas que usurparam estados e decidiram mercados.

Em segundo lugar, aqueles que agora vêm chorar pela "europa" (que é na verdade a "União Europeia"), estão apenas a absolver-se a si próprios de terem durante décadas dado a cobertura política "de esquerda" de que o capitalismo sempre precisou para seduzir os povos da Europa com uma União de liberdade, fraternidade e amizade quando na verdade ia impondo uma União de exploração e acumulação.

A derrota do Governo grego nas negociações com a União e o Eurogrupo não é uma derrota da união europeia (a que agora essa "esquerda" chama "Europa"), antes uma vitória dessa estrutura anti-democrática. A derrota do Governo grego é o triunfo dessa União Europeia, não é o triunfo da Alemanha, não é o triunfo da França, nem de qualquer outro país: é o do capitalismo.

Vir agora chorar pela "Europa" cumpre apenas o ritual da defesa da estrutura de direita que, passo a passo, vai fazendo marchar o capitalismo sobre os povos.

Dizer que a "Europa" perdeu, ou que a "Alemanha destruiu o sonho europeu" iliba o Governo grego ante as cedências que aceitou em prol dessa "Europa";

Limpa o passado dos partidos "de esquerda" que sempre foram "europeístas" (ou seja, pró-capitalistas) porque ao invés de reconhecer que este é o projecto que sempre defenderam, afirmam estar derrotado esse "projecto" humanista e internacionalista que - como se vê - nunca existiu. Ou seja, não foram o BE, a SYRIZA, o PS, o PASOK e os seus semelhantes que andaram a mentir aos povos sobre a União Europeia, mas foi a União Europeia que, como se de repente, se converteu num feudo do grande capital;

Oculta igualmente o verdadeiro papel da União, colocando o problema no comportamento de um país ou de um ou outro líder, fazendo crer que o problema não é estrutural, mas conjuntural. Como se a União Europeia não fosse precisamente isto e como se não fosse precisamente para isto que foi criada: assegurar o aprofundamento da exploração do trabalho pelo capital, independentemente da geografia que lhe sirva de quartel-general.

Por todo o mundo - e aqui em Portugal não se vê excepção - os comentadores e fazedores de opinião, os dirigentes da "esquerda moderna", da "esquerda livre", da "esquerda de confiança", da "esquerda democrática", da "esquerda moderada", se desdobram em desculpas esfarrapadas sobre uma tal "Europa" destroçada para não assumirem as responsabilidades de terem desde o início defendido afinal uma "união europeia de regressão, opressora, sem transparência, anti-democrática e absoluta e ferozmente neo-liberal". Em nada moderna, livre, de confiança, democrática ou moderada.

Nem mesmo perante o colapso da mentira, a burguesia reconhece o falhanço do capitalismo, seja burguesia de "esquerda", seja de "direita".

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  1. Análise extremamente lúcida. Mais que parabéns, OBRIGADO! por este magnífico texto tão real que até dói.

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  2. Anónimo14/7/15

    chamar os bois pelos nomes.
    força!

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  3. Excelente texto. Totalmente da acordo.
    Agora é necessário passar aos actos para desamarrar Portugal deste suicidio.

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  4. Mário14/7/15

    Muito bom!

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  5. maria14/7/15

    Execelente texto! Obrigada.
    A luta continua!

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  6. Anónimo14/7/15

    É isso mesmo.

    Em Portugal, o melhor partido (o mais sério e honesto nas suas convicções) é invisível.

    Uma manifestação de cem mil pessoas na avenida da liberdade tornou-se invisível.

    Na Grécia, um partido defendeu o voto nulo, porque achou que a austeridade continuaria, a seguir ao referendo. Esse partido acertou nas previsões, porque é um partido sério e honesto.

    No entanto, os esquerdistas do «BE»; os trotskistas chamam a esse partido de oportunista, ou seja, defendem posições trocadas e baralhadas que em nada melhoram uma democracia.

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  7. Não deixa de ser interessante que se vejam forçados a um tal refúgio argumentativo. Sem o mencionarem, reconhecem que os valores que agora dizem suportar são os que calam fundo nas pessoas.

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  8. Anónimo15/7/15

    Um bom texto, clarificador do que está verdadeiramente em causa e que desmonta os oportunismos.

    A.Silva

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  9. Bom post!
    No início, faz lembrar Geraldo Vandré com o seu 'Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores'...
    Abraço.

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  10. Miguel Tiago, lembro-me bem da forma como foste atacado por teres escrito "Se, como parece, a burguesia grega tiver de facto reagrupado no SYPIZA, lá terá o capitalismo mais um balão de oxigénio, quando só mesmo a sua morte nos libertaria o caminho". Tiveste razão quando poucos foram capazes de reconhecer o óbvio. Hoje o governo SYRIZA-ANEL sobrevive com o apoio da ND-PASOK e garante através das suas monstruosas concessões à UE a continuação do esbulho e a perpetuação dos sacrifícios impostos aos trabalhadores gregos. A quem interessa a actuação do SYRIZA? À Grécia - aos trabalhadores gregos - não é com certeza.

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    1. Anónimo15/7/15

      Se isso acontecer, Alex Tsirpas será um novo Françoise Hollande. Outro traidor no circuito do esquerdismo europeu.

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  11. O Exilado16/7/15

    Ser de esquerda ou de direita, são conceitos, para mim, fluidos. Podes ser de esquerda,e portanto progressista, em relação à questão A, e ser de direita e portanto ter uma visão mais conservadora em relação à questão B. É assim que vejo a sociedade em rede em que vivemos e que não esta necessariamente alinhada com esta perspectiva piramidal da esquerda suprema e pura e propriedade exclusiva do PCP. Quanto as criticas sobre a falta de estruturas da Europa não poderia estar mais de acordo. Como se pode ter querido construir uma união monetaria sem construir um estado social único, um sistema fiscal único e órgãos democraticamente eleitos para alem do esteril PE? Mas movimentos nacionalistas, de direita e de esquerda nas suas formas mais puras e inflexiveis, conseguiram derrotar o projecto de constituição, conseguiram impedir as estruturas de protecção social, e como resultado criou-se esta união que hoje nao e' mais do que um animal ferido de morte na boca dos abutres e das hienas de sempre

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    1. Hã? Mas algum dia o «projecto de constituição» previa «um estado social único, um sistema fiscal único e órgãos democraticamente eleitos para alem do esteril PE»?

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    2. Anónimo16/7/15

      O que escreve pode existir nos partidos oportunistas de direita, como é o caso do PS, PSD e CDS-PP.
      Esquece-se que há um partido com convicções fortes e que não cede aos seus princípios.
      Pode até comparar este caso a uma pessoa honesta e outra que é falsa e não tem razão.
      Se reparar, há um partido que não cede aos seus princípios de honestidade e razão.
      Não lhe vou dizer qual é o partido, mas na história da nossa democracia, os exemplos são brutais.
      Enquanto uns mentiram e fizeram aquilo que descreve no início do seu texto, outro foi sempre aquilo que disse ser.
      Portanto, não há melhor maneira para explicar as diferenças entre uns (que são falsos) e outro (que é honesto).

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  12. Anónimo23/7/15

    Muito bom. Apenas acho que a frase: "Dessa metade de privilegiados" ficaria melhor se fosse: Dessa metade do mundo privilegiado.

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  13. Os profetas da "harmonização fiscal europeia" deviam era explicar como seria tal possível de articular com "sócios" que roubam por sistema a "sociedade" pela sua natureza de paraísos fiscais.

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