Resposta às perguntas do Canal de História

15.6.15

«Será isto uma prova da existência de uma raça pré-histórica de gigantes?» corte para animação em 3d «E terão esses gigantes construído... as pirâmides do Egipto?!» imagens de arquivo de pirâmide sob efeitos de pós-produção de filme barato de terror «E será que os lendários gigantes não eram seres humanos deformados, mas extra-terrestres vindos do espaço?» sequência rápida de fotografias de obras de arte antiga, de várias civilizações...

Tantas perguntas, tão poucas respostas, diria Brecht. Acabo de assistir a isto no National Geographic Channel. Podia ser só má televisão, mas é muito mais do isso, é a liberdade de fazer as mais absurdas e perigosas perguntas, a despeito de milhares de anos de respostas dadas, pensadas e trabalhadas, intoxicando as futuras gerações com fumos digitais da formidável nova idade das trevas.

Os canais de televisão estado-unidenses que antes passavam documentários, hoje passam reality shows. Onde antes se podia ouvir historiadores, agora apre(e)nde-se sobre camiões, armas e outras curiosidades. Alguns exemplos revestem-se de óbvia transcendência cultural, dizendo mais sobre a sociedade em que vivemos, que volumes de sociologia: apenas sobre prisões, temos, actualmente, a liberdade de escolher entre «Mulheres atrás das grades», «Presos no estrangeiro», «Prisões americanas», «Fugas da prisão», «Prisões de alta segurança» e «Prisões: bastidores». Mas, ponto de ordem à mesa, se eventualmente parecer trocista esta singela ideia, de ter a liberdade de escolher o programa sobre prisões, desenganemo-nos... que os tipos que mandam nisto têm mais inteligência que sentido de humor.

Afinal que sociedade livre é esta, que vive obcecada por estar presa? Entretanto, nestes mesmos canais, são zero os programas sobre literatura. É que dá-se que o formato do reality show evadiu-se, já há mais de uma década, dos matadouros de inteligência onde eram guardados, assaltando de supetão toda a televisão e a internet das massas. E como as consequências desta transformação vão muito além do óbvio, debrucemo-nos sobre alguns exemplos vívidos. O reality show não se compadece de método, nem estudos nem tampouco pode aguardar por conclusões científicas: exige permanentemente mais acção e novas descobertas, sempre e agora. Em virtude desta pressa, os programas sobre a vida selvagem que antigamente nos mostravam o resultado, longamente arquitectado de semanas de estudo e trabalho de campo, reclamam agora uma violação, violenta e imprevisível, da ordem das coisas: onde estava o documentário onde se observava a vida de uma serpente, insuspeita da presença das câmaras, agora assiste-se (sim, assiste-se) a um marialva que perturba a serpente no seu habitat natural, forçando-a a engoli-lo vivo, num fato especial produzido para o efeito, para gáudio ou náusea do público. A ciência dá lugar à aventura e o cientista cede passagem ao explorador, normalmente um labrego simpático com indisfarçáveis matizes jingoistas.

O reality show, por outro lado, não tem quaisquer pretensões históricas ou científicas, embora fale de história e de ciência. É apenas entretenimento, esgrime num sorriso amarelo. E isso dá-lhe o direito de mentir, deturpar, confundir e alienar-nos a todos. Vejamos outro exemplo: quem experimentar, a qualquer hora do dia, passar a correr entre o National Geographic, o Canal de História ou o Discovery Channel, entre outros possíveis, encontrará certamente pelo menos um programa sobre compras e vendas. Num, compram-se antiguidades que são, depois, vendidas em segunda mão, noutro, seguimos o quotidiano de uma família que opera uma loja de penhores, noutro ainda, acompanhamos o trabalho das pessoas que compram armazéns repletos de coisas perdidas ou abandonadas. À superfície, pode parecer que isto terá pouco de ideológico, para além do claro endeusamento do dinheiro e do insinuado fetiche com o comércio, mas, novamente, é muito mais do que isso. É que, surpresa das surpresas, os protagonistas destes reality shows comentam as coisas que compram e vendem, dão apontamentos históricos, tecem comentários políticos e procuram resumir tudo, de Darwin à revolução francesa passando pela URSS, em burlescas aulas de quatro a dez segundos.

À medida que o capitalismo retira ao ensino público todas as faculdades democráticas e culturais dispensáveis à produção, são, progressivamente, estes veículos os principais formadores ideológicos, filosóficos e históricos das massas. Que defesas tem um adolescente que, ligando o CANAL DE HISTÓRIA, escute um «autor» a dizer-lhe que Hitler teve contacto com extra-terrestres? Que contraditório tem o documentário que explica que o holocausto aconteceu por uma qualquer mania, crença ou desgosto pessoal de Hitler? Que televisão protege a História que o Canal de História destrói?

E desiludam-se os que acham que este efeito «dica da semana» só se debruça politicamente sobre a História recente. Voltemos ao exemplo anterior: o National Geographic dá palco a dois «investigadores» dos EUA, por sinal de origem portuguesa, que «investigam», sempre num registo «em directo», a possibilidade de uma fabulosa raça de gigantes ter construído algumas estruturas em pedra com muitas centenas de anos. A premissa é simples (e semelhante à das pirâmides terem sido construídas por extra-terrestres): os povos não-europeus e não-brancos nunca poderiam ter construído semelhante coisa, não tinham os conhecimentos nem a inteligência que, nesse tempo, só os brancos europeus detinham. E assim, a partir da falsificação de História tão longínqua quanto o Antigo Egipto, reforça-se e legitima-se o poder da classe dominante.

Reality shows sobre prospectores de ouro, pescadores de atum e motoristas de pesados, documentários sobre extra-terrestres, nazis em bases lunares e monstros mitológicos escondidos nos esgotos: é este o conhecimento que o capitalismo quer para as massas; é com esta História que os donos dos meios de produção nos querem esmaecer; é nesta nova era medieval que nos querem cegar. Destruir o capitalismo, até à sua última estrutura, não é apenas o interesse dos trabalhadores de todos os países, é o interesse vital do nosso milenar património de ciência conhecimento e da própria inteligência humana.

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  1. Anónimo15/6/15

    O capitalismo é destruição de cultura, é alienação, é a apologia da violência e da desumanidade!

    A.Silva

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  2. Nem uma ditadura poderia alterar esta deriva para o fantástico.
    A de direita criaria provavelmente um qualquer mito nacionalista, a de esquerda reintroduziria o 'bom selvagem' ou outro disparate instrumental dele derivado.
    A questão é que o fantástico, que era tradicionalmente religioso, ora é exacerbado (não faltam canais sobre o tema) ora está a ser substituído por um fantástico pseudo-científico, para não falar em zombies e fins-do-mundo sortidos.
    Pendurar tudo no capitalismo é a aplicação do tradicional funil ideológico, tão só um mito como outro qualquer.

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    1. Anónimo15/6/15

      A questão não está nesta afirmação celestial da "deriva para o fantástico" . Tal deriva tem causas, tem motivações, não nasce do nada e tem objectivos concretos.

      O post é claro. Muito claro. Demasiado claro. Tanto que obriga o das 10 e 38 a fazer uma manobra de pantomina e a vir defender o seu capitalismo desta forma que se assemelha tanto ao "são todos iguais" replicado até ao néscio pelos interessados na manutenção deste tipo de sociedade.

      Acresce a este panorama a guerra aberta, declarada contra a escola-pública e contra o ensino das ciências. A impressionante retoma do "criacionismo" no ensino não só nos EUA, mas espante-se na própria Europa, é apenas uma das pontas do Iceberg a que nos conduz este tipo de sociedade. Um número não negligenciável de escolas privadas norte-americanas ensinam criacionismo, à boleia com os cheques-ensino
      http://www.msnbc.com/melissa-harris-perry/creationism-spreading-schools-thanks-v

      Eis o capitalismo puro e duro. Para desespero dos vendilhões de tretas, que teimam em desmentir a realidade.

      De

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    2. Anónimo15/6/15

      (Alguns exemplos das verdadeiras posições do referido tipo das 10 e 38, citando-o ipsis verbis ( eu sei. É um incómodo). Isto anda tudo ligado:

      Sobre os cientistas:
      "Impressionado ficaria eu se os cientistas se dedicassem a revelar como criar empregos, com meios que não sejam a fantasia de que ...se tudo fosse diferente, diferente seria..
      Ainda que muito bem caracterizem um mal, não fazem nenhum bem por isso, limitam-se a bem documentar a inutilidade da sua ocupação."

      A propósito duma notícia sobre a comunidade científica e os investigadores que tão maltratados o são por este capital terrorista e sem escrúpulos.
      "Notícia alarmante!
      Está potencialmente em risco o subsídio para o congresso sobre "A vida sexual da lagartixa".

      Sobre a defesa do obscurantismo à Torquemada na promoção abjecta do dever da tortura
      "a tortura que visa obter a verdade sobre acções que ameaçam quem o torturador tem o dever de defender."

      Não..não são mitos...é apenas o levantar do pano

      De

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  3. Anónimo15/6/15

    " que o capitalismo que para as massas" não te falta um r no segundo que? abraço.

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  4. Anónimo15/6/15

    É um canal feito por americanos, para ser divulgado a europeus. Ou seja, é um canal produzido por quem não tem história, a ser divulgado a quem tem história.

    Os americanos já nos habituaram à sua mentalidade infantil de ver a história. Há os maus e os bons, ou seja, os americanos são os bons; os russos, os chineses, os árabes são os maus.

    Só um verdadeiro idiota pode levar com atenção qualquer programa produzido pelo canal História.

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