Fuzilados pela madrugada, a pena de morte nos EUA*

15.5.15

Num pedaço de papel amarrotado, Joe Hill escreve à pressa o último poema «O meu testamento é fácil de decidir / porque não há nada a dividir. / O meu povo não precisa de choro nem lamento / que o musgo não cresce numa pedra em movimento». Os primeiros raios de uma luz implacável já iluminam a cela quando vieram buscar o sindicalista. Aos guardas prisionais do Utah cabe encenar o tétrico protocolo: «Joe Hill, operário, 36 anos, conhecido revolucionista e agitador», lê o polícia, «o Estado do Utah condena-o a morrer por fuzilamento. Deseja pedir uma última refeição?». Haverá mais burilado requinte de crueldade que convidar alguém a escolher a última refeição?

«Preparados!». De pé, mãos e pés atados, pano negro sobre a cara, Joe Hill respira pela última vez o ar glacial da manhã de 1915. «Apontar!». Cinco espingardas fazem mira a um papel branco, colado ao peito de um homem inocente. Uma das armas está carregada com uma bala de borracha; as outras quatro, com balas de chumbo. Assim, nenhum dos guardas saberá se terá sido ele a matar, quando apertar o gatilho com essa mesma intenção. «Disparar!». O estrondo assusta os pássaros que esvoaçam contra o sol e um fio de sangue rubro abre arroios na poeira como mercúrio derramado.

Cem anos volvidos, o Estado do Utah reintroduz o pelotão de fuzilamento. E não se trata de um caso isolado: este ano também o Wyoming aprovou o mesmo método de execução e, em Março, a cadeira eléctrica regressou ao Alabama. Mais recentemente, em Abril, o membro da Câmara dos Representantes do Oklahoma, Mike Christian, congratulou-se com a aprovação da câmara de gás: «Não quero saber se é injecção letal, cadeira eléctrica, fuzilamento, enforcamento, guilhotina ou atirá-los aos leões», explicou aos jornalistas. É a própria civilização humana que parece recuar nos EUA: de costa a costa, floresce o racismo colonialista, a exploração esclavagista e a mentalidade feudal, numa tendência também escoltada pelos métodos de pena capital. Actualmente, a pena de morte nos EUA faz-se por injecção letal, enforcamento, cadeira eléctrica, fuzilamento e câmara de gás.

Pena de morte em tempos de austeridade
No entanto, há uma explicação prática para o regresso à barbárie. Com a maior população prisional do mundo e os corredores da morte cheios, os 32 Estados que mantêm a pena capital não têm conseguido abastecer-se dos químicos usados na composição da injecção usual. O Texas, por exemplo, que ostenta uma média de duas execuções por mês, só tem mais duas doses até ao fim do ano. Confrontados com a falta de cooperação da indústria farmacêutica europeia e com o custo de produção da droga, estes Estados voltam-se para métodos antigos e também para outros novos.

A chamada «três-drogas», uma mistura de venenos baratos, é hoje em dia o principal e o mais cruel de todos os métodos de pena de morte nos EUA. Pode demorar horas a matar a vítima e provoca espasmos, contorções musculares e dores intensas. Michael Lee Wilson, executado em Janeiro, descreveu a sensação como tendo «todo o corpo em chamas».

Apesar de alguns progressos, como a abolição da pena de morte por seis Estados nos últimos oito anos ou a proibição federal, em 2005, de executar menores de 16 anos, o único balanço possível é que a sociedade dos EUA está doente. A sua ideologia é a expansão e a morte, a mesma ideologia da célula cancerígena e a sentença que há-de perseguir a humanidade inteira até se curar a enfermidade que a aflige, o capitalismo.

*Originalmente publicado no Jornal da Voz do Operário

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  1. Anónimo15/5/15

    Muito bom!

    De

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  2. As execuções públicas do Hamas são forma bem mais humanizada de liquidação da vida humana, garantindo um ambiente de convivialidade que contrasta com uma solitária última refeição.
    Mas em qualquer dos casos subsiste o saber-se se dar a morte por reprovação, vingança e exemplo tem justificação possível. Ouçamos as almas iluminadas.

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    1. Anónimo20/5/15

      Quem iluminou/eleminou mais de um milhão de Iraquianos, foi por reprovação, vingança, existe exemplo de justificação possivel, impossivel ?
      É aconselhavel abrir as cabeças cheias de caca, para serem desinfetadas de forma a despoluir o ambiente.

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    2. Anónimo20/5/15

      E as decapitações ao estilo folclorico dos tempos medievais praticadas todas as sextas feiras na praça publica com multidões euforicas a aplaudir, na Arábia Saudita destinam-se a preservar os bons costumes?

      Lá é assim. deus e o monarca não se discutem.

      Antes de vir para aqui escrever aconselho-o a descarregar os gases, senão começam-lhe a subir por a espinha acima atingem-lhe o cerebro e acaba por só escreve porcarias.

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  3. Anónimo16/5/15

    Há até quem defenda a tortura, como jose.

    Mas não deixa de ser caricato ver como o defensor encartado do imperialismo não tem mais nada a dizer do que esta "coisa" a roçar a boçalidade. A comparação com o Hamas também demonstra até onde vai o despudor ou a mediocridade argumentativa

    "A sua ideologia é a expansão e a morte, a mesma ideologia da célula cancerígena e a sentença que há-de perseguir a humanidade inteira até se curar a enfermidade que a aflige, o capitalismo."

    De

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  4. Anónimo17/5/15

    Pena de morte é um regresso da humanidade, todos sabem que a pena de morte nunca resolverá os problemas do governo. Os países árabes são um belo exemplo, executam várias pessoas que se recusam a aceitar a religião ou seguir as leis do país, muito triste saber que em pleno século 21 as pessoas acharem que isso vá resolver o problema da humanidade!!!

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    1. Anónimo20/5/15

      O pior exemplo da aplicação da pena de morte vem da América do Norte.

      Cariz social, racial e ideologico, lá sempre foi assim sem nunca incomodar as pessoas "bem " pensantes.

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