Quando a banca esmaga os seus trabalhadores e o Estado assina a sua execução

17.3.15

"Já não aguento mais, não consigo. Tornei-me numa pessoa execrável, nem me reconheço. Acordo a meio da noite a chorar, tenho ataques de pânico, não durmo sem comprimidos! Nem sei como o meu marido me atura assim. Há dois anos. Acordo, levanto-me da cama e estatelo-me no chão.

Todos os dias entro ali, sorrio. De cada vez que o telefone toca acho que vai ser nesse momento. De cada vez que o meu director olha para mim, acho que me vai despedir. De cada vez que chama um de nós acho que vai ser despedido.

Não aguento. Estou sempre a pensar que me vão fazer alguma.

Por 832 euros por mês estou nisto há dois anos. Sem aumentos há 7.

Perdi tanta coisa. Há um ano perdi um filho. Tenho 44 anos e estou reduzida a isto. Nunca mais vou conseguir engravidar. Perdi o meu filho por estar assim e cheia de medicação. Não posso continuar. Não posso. Não aguento."

Esta não foi a primeira vez que ouvi tudo isto. E não será a última, certamente. Assim é a banca: espreme, quebra, destrói.

A banca que se divide em múltiplas empresas, todas do mesmo grupo mas todas sem ter nada a ver umas com as outras. Que detém empresas de contratação (Como o BES detém a Multipessoal mas os trabalhadores do BES contratados pela Multipessoal são trabalhadores da Multipessoal e não do BES) para não contratar trabalhadores com direitos. Que paga salários de 700 euros a licenciados. Que despede, despede, despede, sempre com «acordos de reestruturação» com o alto patrocínio do Governo que lhes dá as quotas para que seja a Segurança Social a pagar os subsídios de desemprego enquanto milhares vão para as ruas.

Rescinde, pagamos mais do que diz a lei. Rescinde, o Governo vai dar-nos as quotas.

A determinada altura nem se sabe quem é o administrador da banca e quem é o ministro, o despedimento, afinal, tem o aval dos dois.

E é assim que se vai passando, enquanto seres humanos já nem se reconhecem, a lei molda-se ao sistema para o beneficiar, os ministros assinam todas as portarias necessárias e vamos assistindo a isto. «Não posso continuar. Não posso. Não aguento».

Que haja depois disto uma resistência maior do que a que C. já teve. Porque o seu acto último de resistência foi ficar sozinha na empresa que tem o mesmo nome do banco mas que não é banco. Resistiu. E pode estar de cabeça erguida quando olhar para trás. Num futuro que esperamos que seja diferente, porque contaremos com ela para o construir.

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  1. Deixemos de lado a questão da medicação que, pelos sintomas, é típica da criminosa «assistência' psicológica» fundada em drogas que asseguram um único efeito: a incapacidade de lidar com a realidade.
    E esse é o problema - a realidade.
    Fugir à realidade eram as reformas antecipadas qye destruíram o sistema de pensões; fugir à realidade era garantir emprego para a vida; fugir à realidade é pensar que os saberes que garantiram um emprego, são quanto basta para todos os empregos que possam vir; fugir à realidade é pensar que há direitos que garantem o emprego.

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    1. Anónimo18/3/15

      Um comentário néscio

      Deixemos para trás a referência à criminosa "assistência psicológica", reveladora da ignorância do que é esta. Também utrapassemos a autêntica bacorada que constitui alguém dizer que algo , qualquer que seja esse algo tem apenas um "único efeito". Parece aquela realidade virtual dos vendedores de banha da cobra a apregoar em versos medíocres as suas certezas da treta.

      De

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    2. Anónimo18/3/15

      A "realidade é o problema" , diz o jose, num esforço mais uma vez para esconder a miséria desta sociedade podre e sem remissão.

      E apresenta-nos a sua " realidade ", feita dos lugares-comuns próprios de quem acha que a realidade é a sua e que acha que tem o direito de negar aos outros a sua dignidade de vida. Ofende desta forma a condiçao humana , mercê da sua apologia da miséria do quotidiano, da exploração desenfreada, que defende e quer preservar..

      E faz silêncio. Um silêncio também miserável sobre os que se apropriam da riqueza gerada pelos que trabalham.

      Um exemplo concreto,que no fundo tem a mesquinhez própria do jose. A destruição do sistema de segurança social passa pelo primeiro-ministro na sua actividade como "trabalhador" É um dos que foge à lei (curioso é que este tipo seja qualificado como de "desgraçado" pelo mesmo jose , num dos seus acessos de ternura pela canalha em exercício).

      E o silencio continua sobre a realidade das PPP e dos Swaps e dos juros duma dívida que afinal é deles e do saque à riqueza nacional de que as privatizações são um modelo

      De

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    3. Anónimo18/3/15

      A realidade para o jose é portanto esta. É assumir a condição da imutabilidade dim mundo em que os exploradores e a exploraçao se perpetuam É retirar a humanidade da equaçao da condiçao humana. Jose que defende a concentraçao do capital em cada vez menor número de mãos , jose que festeja que 85 pessoas detenham tanto como a metade mais pobre do planeta, dirá também que a realidade da concentração da riqueza deve também ser imutável

      Eis a luta de classes e jose a labutar pela sua

      (Pobre jose.este é o mesmo discurso que os esclavagistas tinham sobre a sua realidade factual e as suas inevitabiidades).

      Jose defende os seus. A dos gestores do BES. A do funcionamento do capital . O silencio que faz pairar sobre a trampa do funcionamento dos mercados vive paredes meias com o apelo à submissão da realidade mostrada pelo jose

      Os defensores do capitalismo já chegaram aqui. Já não têm mais nada a oferecer que "isto". Desemprego e fome.Miséria e falta de acesso à saude. Velhice desprotegida e condições de sobreviência sem dignidade.

      Para quase todos.

      (porque para os "desgraçados" dos seus, esse terão direito à "remuneraçao justa" e ao "justo retorno". Ao saque. À perpetuaçao do status quo e ao direito do mais forte à liberdade.
      A esses sim, o "direito".Todo

      Simplesmente abjecto

      De

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  2. Anónimo18/3/15

    Mais um certeiro e grande texto da Lucia.

    A.Silva

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