De Mossul à Babilónia: o triunfo da ignorância e da barbárie.

7.3.15

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Totalitarismo e ignorância andam quase sempre de mãos dadas. Quando a estes se junta o mais completo e absoluto desprezo pela história de outros povos e de outras territórios  que não são compreendidos para lá dos recursos naturais que guardam, a coisa torna-se dramática, quando não criminosa.

Do Iraque chegam notícias da destruição de estátuas e peças arqueológicas de grande valor por parte de elementos do chamado "Estado Islâmico". A antiga cidade assíria de Nimrud, situada no norte do Iraque, junto à actual Mossul, encontra-se em acelerado processo de destruição às mãos do grupo. Qualquer semelhança com os tristes acontecimentos do vale de Bamyian, no Afeganistão, não são mera coincidência. As semelhanças em todo o caso não se limitam ao âmbito exclusivo do fundamentalismo islâmico de inspiração saudita. O Iraque tem a lamentar a acção directa das tropas norte-americanas sobre locais históricos e arqueológicos de grande importância...

Após a invasão norte-americana do Iraque, em 2003, foi criada em cima de locais arqueológicos da antiga Babilónia uma enorme base militar ianque, o chamado "Camp Alpha". A permanência de dezoito meses das tropas do império por cima dos restos do antigo Palácio de Nabucodonosor ajudaram a destruir os frágeis vestígios de uma civilização há muito desaparecida. Pavimentos com 2600 anos foram destruídos pelos pesados pneus dos veículos militares norte-americanos.

Relatórios da UNESCO, citados por fontes tão insuspeitas com o The Washington Post, referem a terraplanagem e a cobertura com gravilha de colinas pertencentes ao perímetro do antigo Palácio, com o objectivo de ali serem montados parques de estacionamento, alojamentos para as tropas e heliportos. Também referem que a montagem de cercas em torno do campo danificou de forma séria vestígios arqueológicos relevantes, como o antigo portão de Ishtar.

Outra fonte insuspeita - o nova-iorquino The New York Times - referia em 2006 que a UNESCO procurava recuperar artefactos roubados através do site de vendas eBay. Recordo histórias semelhantes a propósito da pilhagem de monumentos, museu e locais de interesse arqueológico na Síria, em 2013.

As origens da destruição que Estado Islâmico e Estados Unidos promoveram e promovem no Iraque são no fundamental as mesmas: desejo de domínio sobre o território iraquiano e sobre os seus recursos; desprezo total pela história e por culturas que não compreendem nem desejam compreender.

O que me intriga (ou então não me intriga nada, já nem sei) é a forma escandalizada como alguma imprensa reage à destruição promovida pelo "Estado Islâmico" quando na verdade a terraplanagem dos vestígios arqueológicos da antiga Babilónia teve como "banda sonora" o silêncio quase total por parte de órgãos de comunicação social fortemente empenhados no esforço de guerra da "coligação" liderada por George W. Bush e os seus parceiros amestrados.

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  1. Anónimo7/3/15

    Continuo à espera das armas de destruição maciça. E já agora ao pedido de desculpas dos EUA por terem matado salvador Allende.

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  2. Anónimo7/3/15

    O apontar das semelhanças entre os Estados Unidos e o Estado islâmico..." O desprezo total pela história e por culturas que não compreendem nem desejam compreender."

    "O General Wesley Clark tornou-se famoso como comandante supremo da NATO na sua guerra contra a Jugoslávia. Reavivou a fama em 2007, quando em entrevista ao programa Democracy Now da Rádio Pública Nacional dos EUA (2.3.07) revelou que, poucos dias após os atentados de 11 de Setembro, já estava tomada a decisão de que «iríamos limpar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e para terminar o Irão». Agora, Clark informa-nos sobre as origens do famigerado bando de assassinos que dá pela sigla ISIS. Disse Clark à CNN (18.2.15): «o ISIS foi criado através do financiamento dos nossos amigos e aliados, porque como as pessoas da região lhe dirão, ’se queremos alguém que combata até à morte contra o Hezbollah, não se afixam avisos de recrutamento a dizer para se juntarem a nós, a fim de construir um mundo melhor’. Procuram-se os fanáticos e arregimentam-se os fundamentalistas religiosos – é assim que se combate o Hezbollah. É uma espécie de Frankenstein». Quando ouvirmos falar dos crimes e atrocidades do ISIS, lembremo-nos que – nas palavras do general norte-americano – estamos perante um monstro criado pelos «amigos e aliados» dos EUA.

    Já em 20.9.14, o New York Times titulava: «No Iraque há profundas suspeitas de que a CIA e o Estado Islâmico estão unidos». E segundo a agência noticiosa iraniana FNA (23.2.15), «o exército iraquiano derrubou dois aviões britânicos que transportavam armas para o ISIS», informação confirmada pela Comissão de Segurança Nacional e Defesa do Parlamento iraquiano. O presidente da comissão disse que «o governo de Bagdade recebe relatórios diários de pessoas e forças de segurança na província de al-Anbar, sobre numerosos voos de aviões da coligação chefiada pelos EUA que lançam armas e mantimentos nas zonas sob controlo dos terroristas do ISIL».

    Dum texto de Jorge Cadima no Avante!” nº2053, 5.03.2015

    De

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  3. Li esse artigo no Avante!

    O Estado Islâmico foi concebido, parido e amamentado por o imperialismo.

    Como tal o dito Estado Islâmico é filho legitimo do imperialismo.

    O que nós temos que começar a recear já é que tipo de monstro o imperialismo vai parir para disciplinar este .

    Primeiro, criaram os Mujahidin para combater os Soviéticos, depois criaram os Talibans para acabar com os primeiros, que por sua vez deram origem à Al-Qaeda, na Síria rebatizaram-na com o nome de Al-Nusra, que se metamorfoseou em Estado Islâmico.

    Isto faz lembrar as alpercatas, que passaram a ser chamadas de sapatilhas, que por sua vez mudaram o nome para ténis, no entanto não deixam de ser alpercatas.

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