Quarenta mil milhões de razões para alimentar a guerra.

19.2.15

Os acontecimentos de Minsk e Debaltseve dominaram a abordagem mediática à situação da Ucrânia, num momento em que passa precisamente um ano sobre os dias finais do golpe da Praça Maidan, em Kiev. Pouco se fala, pouco se tem falado, da diminuição brutal da actividade económica no país, com uma queda do PIB bem superior àquela verificada em Portugal durante todo o período do "ajustamento" (só em 2014 a queda do PIB foi superior a 7%). Pouco se tem falado da entrada em grande do FMI neste processo de acelerado desmembramento do estado ucraniano saído do processo de auto-dissolução da URSS, no início dos anos 90 do século passado.

Na passada quinta-feira foi anunciado um plano de "ajuda" à economia ucraniana no valor de 40 mil milhões de dólares, soma dividida por várias entidades que obedecem ao mesmo centro de comando. O FMI, a UE, os EUA, o Banco Mundial e "outras instituições financeiras" não especificadas. Boa parte desta quantia astronómica servirá para alimentar bancos falidos, oito em particular de acordo com o Financial Times. Um "filme" que já vimos noutras partes. A produzí-lo estarão os ucranianos comuns, do ocidente e do leste do país.

Outra parte significativa do empréstimo ao estado ucraniano destina-se a financiar gastos militares já que é objectivo da Junta de Kiev e do presidente Poroshenko (que há anos atrás era designado em documentos norte-americanos entretanto divulgados pelo Wikileaks como "our Ukraine insider" [1]) aumentar significativamente o seu investimento em material bélico. Outro "filme" que já vimos noutras partes, e que voltará a ser produzido pelo ucraniano comum, bem mais interessado em recuperar o acesso à saúde, à educação e à segurança social desde há muito perdidos. As grandes corporações da indústria militar esfregam as mãos de contentamento.

Yatseniuk, outro evidente "insider" da equipa da senhora Nuland, faz uso do seu já habitual humor negro quando refere que o empréstimo se destina a restabelecer o crescimento económico no país, mas não explica como pretende fazê-lo quando se prepara para implementar um programa de austeridade que, em alguns aspectos, vai muito além dos indignos programas de austeridade implementados em Portugal e Grécia.

O "ajustamento" ucraniano far-se-á com a receita do costume: redução de funções sociais do estado, diminuição do número de funcionários públicos, reduções salariais, corte nos apoios sociais, eliminação de direitos laborais e, claro está, privatizações. Muitas. A Ucrânia é rica em recursos naturais, dos agrícolas aos energéticos. É também um mercado de enorme potencial para a gula da plutocracia europeia e norte-americana, que apontando um dedo à Rússia deixa outras três na sua própria direcção.

A guerra - que vive neste momento uma trégua frágil, cujo significado está ainda por compreender de forma plena - desempenha em todo este processo num papel chave. Ela é, em larga medida, um sorvedouro de dinheiro que alimenta a dependência ucraniana dos "aliados" ocidentais. Recordo, sobre esta matéria, uma cena célebre do filme "The International" (2009), de Tom Tykwer.




Qualquer semelhança entre o conflito ucraniano e o diálogo desta cena não é pura semelhança.


Notas:
[1] "During an April 28 meeting with Ambassador, Our Ukraine (OU) insider Petro Poroshenko emphatically denied he was using his influence with the Prosecutor General to put pressure on Tymoshenko lieutenant Oleksandr Turchynov (refs A and B)." - fonte.

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  1. Anónimo20/2/15

    Sou de opinião que temos quarente mil milhões de razões para estarmos muito optimistas sobre o desenrolar dos acontecimentos na ex-Ucrânia.

    A catástrofe de Debaltsevo vai alterar a aparente união que existia nos grupos pró-NATO. Porque se tivesse havido uma vitória mesmo insignificante, eles esqueciam as divergências e dedicavam-se a partilhar "amigavelmente os êxitos" .


    Tratando-se de uma derrota humilhante desta envergadura já começaram a acusar-se mutuamente.

    Tanto assim que Porochenko se apressou a ir receber e condecorar os militares que fugiram em debandada desordenada sem armas do local dos confrontos.

    A flor do exercito de Kiev foi esmagada em Debaltsevo.

    Agora falta só cair Moriúpol para a economia da ex-Ucrânia levar a estocada final.

    Carlos Carapeto

    Se isso vier a acontecer os belicistas da NATO vão lamber as feridas por muito tempo.

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  2. Fiquem-se os russo com a suas vitórias sobre os seus satélites que deixaram na miséria e por muitos anos governados por cliques corruptas.
    Que fiquem para lá de uma qualquer cortina que no isole de um nacionalismo imperialista e pestilento.

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    1. Anónimo22/2/15

      Deixaram na miséria?

      Mas a miséria aí está em todo o seu explendor com a retoma do capitalismo a tais estados.

      E jose/ JgMenos sabe tal

      Cliques corruptas?; Mas são as cliques instaladas pelo capital , que tomaram conta dos ditos países.. os quais fazem negócio com os " empreendedroess" que jose admira e a quem entoa hinos e versozinhos de pé quebrado.

      E jose sabe tal

      Então o que sobra para aém deste esforço de jose de defender o imperialismo pestilento e nauseabundo?

      Um arengar ( não às massas, mas à massa) a tentar esconjurar os seus "amigos" de peito, que apoiou até à histeria celebrando os novos "democratas" dos países "libertados" do socialismo. Assemelha-se à sua posição de servilismo face aos banqueiros e aos comparsas até cairem em desgraça, que o tem obrigado a exercícios dignos dum acrobata circense.

      "Para compreender a situação é necessário ter presente duas dinâmicas. Uma que se inicia em Novembro de 2013 com a recusa da Ucrânia em assinar o acordo de associação com a União Europeia. A partir daí desenvolveu-se uma imparável escalada de ingerências externas e subversão, a reabilitação e apoio a forças fascistas e a perseguição dos comunistas, a imposição em Kiev de um governo títere ao serviço das grandes potências imperialistas, a brutal repressão no Sudeste do país da generalizada rejeição popular do governo golpista provocando milhares de vítimas, um dramático fluxo de deslocados e refugiados, e crimes terroristas como o assalto de 2 de Maio à Casa dos Sindicatos de Odessa. A outra, a cavalgada do imperialismo para Leste na sequência da desagregação da URSS e das derrotas do socialismo, cavalgada em que UE, NATO e EUA cooperam (e rivalizam) para liquidar até aos alicerces tudo o que décadas de socialismo haviam conquistado, destruir o potencial económico e assenhorear-se dos mercados destes países, avançar os dispositivos da NATO até às fronteiras da Rússia cujo poderio económico e militar, nomeadamente nuclear, os EUA procuram por todos os meios destruir. Da anexação da RDA à destruição da Jugoslávia, feitos em que a Alemanha foi o principal protagonista, tudo tem sido feito para afastar qualquer resistência. A Ucrânia é o mais recente exemplo disso.

      É aqui que mergulham as raízes de um foco de guerra tanto mais perigoso quanto se desenvolve no quadro da mais profunda e prolongada crise capitalista e em que é visível a tentação dos sectores mais reaccionários e agressivos do grande capital para voltarem a recorrer ao fascismo e à guerra para dirimir as suas contradições e, à custa de colossais destruições materiais e humanas, restaurar as condições de reprodução do capital como aconteceu com a 2.ª Guerra Mundial cujo 70.º aniversário do seu fim este ano assinalaremos. Combatendo o fascismo, o imperialismo e a guerra. Unindo forças pela paz."

      De

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