Uma questão de rigor.

28.1.15

Bartoon.
Acho interessante e até justo que se lembre a República Federal da Alemanha, de forma tão regular quanto necessário, que após a II Grande Guerra aquele país beneficiou de um importante perdão relativo à colossal soma de dinheiro que, nos termos dos Acordos de Potsdam, era devida a alguns dos países "aliados".

É todavia importa notar - ter presente quando se aborda o tema - que a RFA era, nesse momento histórico, apenas uma parte da Alemanha. E que a RDA não beneficiou do mesmo tipo de perdão acabando por pagar à URSS - de muito longe o mais devastado e martirizado país da Guerra -, nos termos de Potsdam, a quase totalidade das reparações devidas.

No livro "A outra Alemanha: a RDA", que é a transcrição de uma longa conversa entre Luís Corválan (ex-secretário geral do PC do Chile) e Margot Honecker (comunista alemã que foi casada com Erich Honecker e desempenhou funções de governo na RDA) pode ler-se que segundo algumas estivativas, a RDA terá assumido 98% dos custos associados aos Acordos de Potsdam, o que aliás explica em parte a incapacidade da Alemanha "Oriental" para se reerguer tão facilmente como a RFA no período de grandes privações vivido pelos trabalhadores alemães - dos dois lados da fronteira - após 1945.

A "Alemanha" conheceu um perdão de dívidas após 1945? Se nos referimos à República Federal Alemã sim. Mas apenas esta.

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  1. Sanssouci28/1/15

    Uma questão de rigor, a Versailles de Berlim é Potsdam e não Postdam. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Potsdam)

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  2. O Plano Marshall e os perdões à RFA tinham um objectivo: que a Europa "capitalista" se subordinasse aos EUA e que a RFA fosse um tampão face à Europa "socialista"

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  3. Ora aqui está um coisa que muito boa gente não gosta que lhe lembrem!

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  4. E não foi apenas o perdão da divida, foi também a quase obrigatoriedade da abertura dos outros países aos produtos Alemães imposta por os Americanos.

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  5. Argala29/1/15


    Saudações,

    Volto a colocar aqui o texto de Ana Saldanha, Da dominação ideológica através dos conceitos aos graus transitórios de um processo revolucionário. Dois excertos que não substituem a leitura integral. Segue:

    "A assunção da perspectiva reformista impõe-se, na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, de forma a justificar a participação institucional de Partidos Comunistas em governos dominados pela classe dominante (que aqueles, aliás, teoricamente pretendiam substituir no poder). Paulatinamente, Partidos Comunistas com uma histórica e heróica trajectória de luta e de resistência, vão defendendo a possibilidade de uma via pacífica e institucional como possibilidade de construção do socialismo. Esta visão predominará no seio do PCF e do PCI pós-guerra, ajudando-nos a compreender quer o fim destes partidos como vanguarda da classe operária, quer a sua completa submissão à classe dominante, antagónica daquela, numa tentativa de conciliar interesses de classe que permitissem gerir o capitalismo, e não superá-lo.
    É assim que, na Itália, Togliatti defende a “democracia progressiva”, enquanto o PCF aprova, em 1968, o Manifesto de Champigny - “Por uma Democracia Avançada, por uma França Socialista”. Nele, a “democracia avançada” surge como uma etapa intermédia necessária para a construção do socialismo, não se caracterizando a natureza de classe do Estado dessa “democracia avançada”, e, portanto, omitindo de que forma a luta entre as classes antagónicas permitiria a superação das relações de produção capitalistas.

    (...)


    A política de alianças constitui, desta forma, uma estratégia, visando alcançar o objetivo revolucionário que guia a acção daqueles que por ele lutam: a construção do socialismo - etapa necessária para a construção de uma sociedade sem classes, o comunismo. Ora, este objetivo apenas pode ser alcançado sob a condução de um partido revolucionário, organizado e disciplinado, cuja “tarefa (…) não consiste em proclamar impossível a renúncia a quaisquer compromissos” mas, sobretudo, “em saber permanecer fiel, através de todos os compromissos, na medida em que eles são inevitáveis, aos seus princípios, à sua classe, à sua missão revolucionária, à sua tarefa de preparação da revolução e de educação das massas do povo para a vitória da revolução” (Lénine, 1917, Sobre os Compromissos). Esses compromissos devem, por isso, ser vistos como uma mera táctica revolucionária, combinando quer formas legais (como a participação num parlamento burguês), quer formas ilegais de luta."

    Cumprimentos

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  6. Argala29/1/15


    Saudações,

    Hoje na saga 'um texto de Lénine por dia, não sabe o bem que lhe fazia', vamos ler precisamente esse excerto, mais completo, citado por Ana Saldanha, 'Sobre os compromissos', reflexão sobre o equilíbrio dos compromissos e a luta revolucionária. Um desses compromissos é a participação no parlamento. Compromisso subordinado às possibilidades de fazer a revolução. Segue:

    "Engels tinha razão quando, na sua crítica ao manifesto dos blanquistas-comunistas (1873), ridicularizava a sua declaração: «Nenhuns compromissos!»[N122]. Isto é uma frase, dizia ele, pois é frequente que as circunstâncias imponham inevitavelmente compromissos a um partido em luta, e é absurdo renunciar de uma vez para sempre a «receber o pagamento da dívida por partes»[N123]. A tarefa de um partido verdadeiramente revolucionário não consiste em proclamar impossível a renúncia a quaisquer compromissos, mas em saber permanecer fiel, através de todos os compromissos, na medida em que eles são inevitáveis, aos seus princípios, à sua classe, à sua missão revolucionária, à sua tarefa de preparação da revolução e de educação das massas do povo para a vitória da revolução.

    Um exemplo. Participar na III e IV Dumas foi um compromisso, uma renúncia temporária às reivindicações revolucionárias. Mas isto foi um compromisso absolutamente forçoso, pois a correlação de forcas excluía para nós, por um certo tempo, a luta revolucionária de massas, e para a sua prolongada preparação era necessário saber trabalhar também de dentro de semelhante «pocilga». A história demonstrou que os bolcheviques tinham inteiramente razão, como partido, em tal colocação da questão.

    Agora a questão é não a de um compromisso forçoso, mas voluntário."

    De Lénine, ler também Ilusões Constitucionalistas, O Programa Militar da Revolução Proletária, A Guerra de Guerrilhas, As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado, Partido Ilegal e Trabalho Legal, e A Insurreição Armada e a Nossa Tática de José Estaline.

    Cumprimentos

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  7. Anónimo29/1/15

    Acho que o Rui Silva tem uma muito boa bagagem de conhecimentos sobre a segunda grande guerra e os acontecimentos em torno desta

    É bom lê-lo. É bom que ele vá transmitindo algo do enorme repositório histórico e humano que ele paulatinamente vai acumulando

    De

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  8. Chamar Acordo ao que resultou de uma rendição incondicional em final da guerra é uma das preciosidades dialécticas que presumo que deve equiparar-se à adesão da Grécia à UE ou ao resgate com a troika.

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  9. Anónimo29/1/15

    Preciosidade dialéctica?

    Qdo a ignorância assume estas formas, fica-se sem saber se se fica por aqui ou se a irritação obnubila por completo o discernimento, como acontece com o confrade do jose:

    Vá aprender aí na infopedia
    http://www.infopedia.pt/$conferencia-de-potsdam

    Deve equiparar-se concretamente a quê?

    De

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  10. Anónimo30/1/15

    Depois da imbecial, sectária e infantilmente esquerdista afirmação de um deputado com responsabilidades, Miguel Tiago, na noite pós-eleitoral grega, um curtido qualquer num blogue recheadinho de militantes do PCP lembra-se de explicar que a URSS não perdoou um tostão da dívida dos seus aliados alemães.

    Que informação mais útil para a justa luta dos povos do Sul, quando o PCP exige a reestruturação ou renegociação da dívida portuguesa lembrar que antigas contrapartes internacionais see stiveram borrifando para os problemas dos seus aliados.

    Um pacto de (in)úteis cretinos políticos, dando tiros nos próprios pés e na cabeça dos que defendem em tantas outras ocasiões. Espero que não me metam Miguel Tiago ou Rui Silva na lista de deputados aqui pelo círculo onde desde 1995 voto CDU. Tendo sérias dúvidas quanto à inteligência e oportunidade política do par.

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    1. Argala30/1/15


      Olá anónimo,

      Na minha saga 'um texto de Lénine por dia dá saúde e alegria' ainda não citei o famoso 'Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo'. Já o devia ter feito, porque pelos vistos, o facto de muitos militantes não saberem o que significa "esquerdismo", não os impede de cuspir sobre os outros a palavra, a tordo e a direito. Que a cuspam para cima de mim.. vá.. é errado mas não é completamente desgarrado. Agora neste caso chegámos ao cúmulo da parvoíce.

      Como dizia, chamar "esquerdista" a uma pessoa que por acaso é deputado (ou como diz o MIguel Tiago "está deputado") é o cúmulo da parvoíce. É nem entender o b-a-bá da coisa. O termo "esquerdista" foi utilizado por Lénine para criticar precisamente aqueles que se recusavam a trabalhar nos parlamentos burgueses, sindicatos legais e armavam cisões por causa disso. Ora o Miguel Tiago está lá no parlamento burguês, enfiado naquele amontoado de leis e decretos-lei, a aturar aquelas enfadonhas comissões de inquérito, a ser convidado para aqueles programas de televisão onde só se pode discutir dentro do formato.. o que deve tirar qualquer comunista do sério (deve ser por isso que ele me apaga os comentários). Por isso caro anónimo, faça um favor a si próprio e vá ler o texto.

      O PCP defende a renegociação, sim. Mas na Grécia o KKE defende o não pagamento, ou seja, uma posição mais avançada. E o que é justo é apoiar a posição mais avançada de forma a que as forças possam chocar. A função de um Partido Comunista não é navegar na consciência média das posições que estão na moda, é imprimir dinâmica revolucionária.

      Em relação a essa ameaça de não votar CDU, se ela surtisse efeito estávamos em muito maus lençóis. Leve o voto até à luta!

      Cumprimentos

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    2. Anónimo31/1/15

      Mais um comentário não relacionado com o texto.
      Argala, por favor, trate-se.

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