O ANEL do SYRIZA

26.1.15

Não sou grego nem vivo na Grécia, logo não consigo analisar a realidade grega como um grego ou alguém que viva na Grécia. Não fico contente com vitórias de partidos políticos, nem em Portugal, nem na Grécia, nem em lado nenhum, fico contente quando vejo políticas progressistas a serem aplicadas. O SYRIZA ganhou, ainda bem, no seu programa apresenta um grande número de políticas progressistas, umas mais avançadas, outras mais recuadas, todas baseadas na realidade de uma Grécia inserida na União Europeia e na realidade interna da organização social e política grega. Ficarei então contente quando e se a vida de quem trabalha na Grécia melhorar.

O SYRIZA não obteve maioria absoluta, parece estar quase a assinar um acordo com o ANEL - Gregos Independentes -, partido conservador, nacionalista, eurocéptico e anti-austeridade. Por agora ainda não é certo que este seja um acordo de governo ou apenas um acordo parlamentar. Tudo aponta para que seja mesmo de governo e para que o ANEL fique com as pastas da Defesa e da Administração Interna, pior. O ANEL não é amigo da multiculturalidade e a sua matriz ideológica tende a privilegiar políticas securitárias. Espero que não tenhamos um SYRIZA forçado a rever o Tratado de Schengen por pressão da coligação.

O SYRIZA tinha as seguintes opções: Nova Democracia, PASOK, Aurora Dourada, KKE, To Potami, ANEL. Aurora Dourada excluída desde logo por razões óbvias, é um partido fascista que se encontra nos antípodas humanos do SYRIZA. Nova Democracia e PASOK querem a continuação da austeridade e o cumprimento do memorando com a Troika, também excluídos. O KKE defende uma ruptura completa com a União Europeia e com a Moeda Única, o SYRIZA não, dificilmente se forma um governo que não concorde em algo tão decisivo, ainda assim, o KKE já deixou claro que votará favoravelmente a todas as políticas sociais e laborais progressistas que o SYRIZA apresentar. O To Potami é constituído por um conjunto de hipsters-populistas que também não rejeitam a Troika e, tendencialmente, têm uma postura de classe, da sua, a burguesia.

Sobrava o ANEL e o SYRIZA escolheu o ANEL. É possível elaborar dezenas de teorias sobre o porquê e o para quê. Pessoalmente e muito a quente, julgo que o SYRIZA cedeu à "realpolitik" na esperança de conseguir um apoio efectivo anti-austeritário. Resta esperar para ver, resta estar atento e vigilante às contradições que possam surgir neste governo, resta ver em que medida as pressões externas podem ou não impedir que a Grécia altere o seu rumo. Se essa alteração acontecer e for visível e inegável, podem as outras forças progressistas europeias ganhar novo fôlego e forçar de vez à mudança de políticas na União Europeia.

Não sou grego, não tenho a certeza disto, nem quero ter. Vejo as constantes comparações e analogias partidárias como exercícios que servem para, aqui dentro das nossas paredes, aumentar tensão e as acusações, baseadas em realidades totalmente distintas. Por exemplo, quando estive em Atenas percebi bem o peso que uma brutal guerra civil ainda tem nos ombros dos gregos, percebi o que é ser vigiado e escoltado em manifestações por polícias armados com metralhadoras e em número incomparavelmente superior ao que vemos nas nossas ruas, etc.

As realidades gregas e portuguesas são mesmo tão diferentes que ninguém acredita que os partidos que por cá representam estes campos ideológicos, na conjuntura actual, pudessem sequer ponderar uma coligação de governo. Isso deixa-me descansado, porque os compromissos não devem comprometer as ideias, e este passo do SYRIZA é arriscado e difícil de aceitar. Veremos.

E por serem realidades diferentes é que não faz sentido uma tentativa de colagem a vitórias alheias. A estória não acaba aqui e o seu desfecho pode ser uma derrota, nessa altura será difícil e pouco legítima a descolagem.
Não são o ontem ou o hoje que importam nestas eleições, é mesmo o amanhã e o resultado do amanhã precisa de tempo para aparecer.

 A Grécia vai ter um novo governo, espera-se que com políticas diferentes. Às eleições de ontem concorreram partidos políticos e não clubes de futebol. Só com calma e distanciamento será possível fazer a melhor análise possível deste novo governo. Como dizia o outro, "a prática é o critério da verdade". Depois é aprender com os erros e com as virtudes.

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  1. Anónimo26/1/15

    KKE aumentou 60.000 votos e mais 3 deputados.

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  2. Anónimo26/1/15

    Esperemos para ver se o Syriza vai manter o seu programa eleitoral, estou convencido que sim, para bem dos Gregos e de toda a Esquerda Europeia,

    Mas lembrei.me agora de uma aliança com mais de 70 anos, com as devidas diferenças o Pacto-Germano Soviético.

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  3. Argala26/1/15


    Eu teria votado no KKE, mas a vitória do Syriza é um avanço face à situação anterior. A diferença é que agora as contradições começam de dentro do Syriza para fora, e mesmo o mais ténue reformismo levará a choques e cedências: do Syriza para fora (com a troika e UE), e dentro do próprio Syriza entre dirigentes e base militante - perante as cedências que já estão a acontecer (por exemplo em relação à NATO).

    O processo grego entra agora numa nova fase, e será uma enorme escola de aprendizagem e radicalização das massas trabalhadoras.

    A este propósito aproveito para complementar os textos de Lénine que já aqui deixei - guerra de guerrilhas e o programa militar da revolução proletária-, e postar mais uma reflexão de Lénine, 'As Eleições para a Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado'. Infelizmente em inglês, não encontrei a tradução portuguesa online. Segue:

    "In mockery of the teachings of Marx, those gentlemen, the opportunists, including the Kautskyites, “teach” the people that the proletariat must first win a majority by means of universal suffrage, then obtain state power, by the vote of that majority, and only after that, on the basis of “consistent” (some call it “pure”) democracy, organise socialism.

    But we say on the basis of the teachings of Marx and the experience of the Russian revolution:

    the proletariat must first overthrow the bourgeoisie and win for itself state power, and then use that state power, that is, the dictatorship of the proletariat, as an instrument of its class for the purpose of winning the sympathy of the majority of the working people."

    Abraços revolucionários

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  4. Entregar a administração interna e a defesa a conservadores num processo que se quer progressista é, no mínimo, falta de juízo.

    Se realmente enveredarem por um caminho progressista, não demorarão as tentativas de sabotagem e com o exército e as polícias controladas por conservadores racistas, estou para ver o que se vai dar...

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  5. O Siriza já ofereceu a primeira dose de cicuta ao povo Grego e ainda não começou a governar.

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  6. Anónimo26/1/15

    Estou com o Dias Ferreira.
    Se apostarem em políticas progressistas, temos aí o mundo da direita das sabotagens, dos bloqueios, da falta de abastecimento nos mercados, como se está a passar na Venezuela.
    É preciso ter coragem para avançar com uma política verdadeuramente socialista (não confundir com o socialismo do PS e essa gente doida que ontem cantou a «Grândola» em homenagem a José Sócrates).

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  7. Vejo com alguma preocupação a possibilidade da entrega da pasta da Defesa aos Gregos Independentes. De igual modo, a utilização de algum argumentário alusivo à II Guerra Mundial, assim como de uma narrativa sobre uma «chantagem alemã», não me parece de bom tom, pois pode tomar conta de algumas cabeças. O Partido Comunista da Grécia, indiscutivelmente a força que mais lutou e sofreu durante o período, é de uma opinião semelhante. A falta de aval do PCG a um governo Syriza há muito que era conhecida e o apoio eleitoral cresceu também por causa disso. Se o Syriza é, de facto, da esquerda democrática como diz ser e pretendia um governo de maioria absoluta, que não aceitasse ser governo, forçasse uma segunda ronda eleitoral e esclarecesse e mobilizasse o eleitorado. Leitura complementar: http://inter.kke.gr/en/articles/SYRIZA-the-left-reserve-force-of-capitalism/

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  8. Anónimo27/1/15

    Entre a provocação (?) do pacto germano-soviético e a tentativa da aula um pouco escolástica a fazer lembrar os apóstolos na conversão dos infiéis , eis um texto em português que resume e bem parece-me a situçao na Grécia:

    "Os resultados já conhecidos das eleições na Grécia apontam para uma expressiva vitória do Syriza. A votação alcançada por este partido e o facto de a lei eleitoral grega favorecer a força mais votada com um bónus de 50 deputados abre a perspectiva de uma significativa maioria parlamentar.

    Este resultado, conjugado com a derrota da Nova Democracia e o afundamento do PASOK, tem o inequívoco sentido da rejeição das políticas austeritárias e antipopulares impostas pela troika FMI/BCE/UE e pelo grande capital grego, que empurraram a Grécia para a grave crise económica e social em que se encontra. Crise que é também democrática, como ilustram tanto a votação alcançada pelos fascistas da “Aurora Dourada” como a aberta ingerência estrangeira no processo eleitoral.

    A rejeição das políticas que geraram enorme desemprego, empobrecimento, destruição de direitos, brutal acréscimo da exploração, retrocesso económico e social é clara. Falta saber se um futuro governo com o Syriza como base estará em condições de dar expressão política à alternativa assim exigida e de resistir às pressões que a UE irá certamente prosseguir e intensificar no sentido de que, com retoques ou sem eles, não haja efectiva ruptura com as políticas até agora impostas.

    Embora os media dominantes tenham dado grande destaque a essa palavra, o Syriza não é uma formação “radical”. Quanto mais não seja pelo simples facto de não pretender atingir a verdadeira raiz dos problemas com que o seu país e a UE se defrontam. Problemas que na sua essência não são apenas os da austeridade mas os de uma UE construída e dirigida de acordo com os interesses do grande capital monopolista no quadro de uma crise geral do sistema capitalista.

    O povo grego rejeitou e condenou a política que lhe vem sendo imposta. Está nas suas mãos a tarefa de tornar tal rejeição em alternativa real. O voto – se bem usado - é apenas uma parte desse duro e prolongado combate."
    Os Editores de odiario.info

    Alguém escrevia isto nas vésperas das eleições:
    "A tarefa de um futuro governo grego, se vinculado com os interesses, as necessidades e as aspirações do povo grego, se decidido a afirmar de forma soberana os interesses do país, será imensa. Imensos serão os escolhos no seu caminho. Ultrapassá-los exige a coragem e a determinação de assumir confrontos e rupturas.
    Nenhum obstáculo será inultrapassável se enfrentado por um povo decidido a tomar nas suas mãos o seu destino. Uma coisa é certa, independentemente do resultado das eleições de domingo: o futuro da Grécia está nas mãos do seu povo e da sua luta."
    Era o João Ferreira .

    E acho que estava (está) certo. E acho que também quem diz que é preciso muita coragem

    De

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  9. Argala27/1/15


    Confrade De,

    Bons olhos o leiam. Obrigado pelas simpáticas referências.
    As reflexões de Lénine continuarão a aparecer na caixa de comentários de quando em vez.

    Cumprimentos

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  10. Anónimo27/1/15

    Ao senhor Palhaço Aragala...

    Vir aqui citar Lenine e depois escrever artigos, onde se declara que não socialismo em Cuba, é uma hipocrisia sem limites.

    Por favor, deixe de ser oportunista.

    Lenine não lhe deve nada!

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    1. Argala27/1/15


      Palhaço também é artista meu caro. Não se enerve. Veja se não tem aí farmácia ao domicílio.

      É de facto verdade que Lénine nada me deve, mas a questão deve ser colocada ao contrário. A questão é se devemos algo a Lénine. E eu acho que sim, uma vez que muitas das suas contribuições teóricas mantém hoje toda a validade.

      A luta que Lénine trava dentro do partido contra as taras legalistas e liquidacionistas - na defesa de um estructura híbrida, semi-clandestina, a sua luta contra o "cretinismo parlamentar" e a sua defesa dos princípios do marxismo, a defesa das reformas subordinadas à estratégia revolucionária, a defesa dos seus camaradas que praticam a luta armada, a aplicação prática da resolução do III Congresso sobre esta matéria, e um longo et-cétera.

      Os que não lutam para que o movimento comunista recupere estes princípios e volte a trabalhar para fazer revoluções, é que não podem dizer que lhe devem alguma coisa, sem serem.. lá está.. oportunistas.

      Cumprimentos

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    2. Anónimo28/1/15

      Há malucos para tudo... até para evocar o nome de Lenine em vão, como faz o Sr. Argala.

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