O que não querem que se saiba acerca da corrupção

27.11.14

Há quem duvide de que não há um só banqueiro ou administrador de um grande grupo económico que não tenha o contacto de autarcas, deputados, ministros, primeiro-ministros e chefes-de-Estado nas agendas dos seus telemóveis? Há quem duvide de que a maioria dos escritórios de advogados em que trabalha uma parte dos deputados que exerce essa profissão não sobreviveria sem as empreitadas que os principais bancos e empresas lhes oferecem a troco de determinadas decisões políticas? Num Estado democrático, não pode ser normal que um ministro das Obras Públicas acabe como administrador da maior empresa de construção do país e também não pode ser normal que um administrador de uma companhia de seguros de saúde acabe como ministro da Saúde.

Entre o absurdo da cobertura noticiosa da detenção de José Sócrates, sobraram poucos artigos lúcidos sobre a corrupção. Em geral, procura-se individualizar o caso, lançando o ónus da prova sobre o ex-primeiro-ministro e, sobretudo, tenta-se excluir do debate a corrupção enquanto fenómeno do sistema político e económico em que vivemos. Há, inclusive, quem se atreva a garantir que a justiça portuguesa deve ser felicitada porque dá mostras de ser efectiva na luta contra a corrupção. No fundo, José Sócrates seria uma espécie de maçã podre numa árvore saudável e robusta. Mas não é assim. A corrupção não é uma simples doença que possa ser curada pelos tribunais. A corrupção é sistémica. É uma praga intrínseca ao sistema económico em que vivemos e alastra-se pelos corredores dos luxuosos escritórios bancários, empresariais e partidários. Também se arrasta pelas redacções, importante ferramenta de controlo mediático.

Não nos cabe dizer se Passos Coelho devia estar preso pela sua relação com a Tecnoforma, se Paulo Portas devia estar preso pela venda dos submarinos ou se Cavaco Silva devia estar preso pelas suas ligações ao BPN. A tragédia que vivemos há mais de três décadas tem culpados e sobre as cinzas da nossa pobreza decidiram construir o sistema em que vivemos. Independentemente de lhes poderem ser imputados crimes, Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva, e os seus antecessores no poder, fossem do PS, PSD ou CDS-PP, são responsáveis pelo sequestro da política pelos grandes grupos económicos e financeiros. Se os escândalos de corrupção nos entram à bruta pelos ecrãs é também por culpa deles. O que eles queriam mas não podem seria fazê-lo às claras. Queriam fazê-lo como nos Estados Unidos em que o lobby é legal e o patrocínio de bancos e empresas a campanhas eleitorais é algo perfeitamente natural. Não há qualquer limite para as contribuições das grandes multinacionais que enchem os bolsos dos Democratas e Republicanos.

A crise do sistema capitalista não só aprofundou a pobreza mas também agudizou as contradições entre os próprios capitalistas e os seus representantes políticos. Esta guerra que se desatou contra os trabalhadores e os povos é a tradução de uma necessidade cada vez maior de acumular riqueza por parte de uma minoria da população. Aqueles que nos acusam de termos vivido acima das nossas possibilidades foram os que instigaram a especulação e o jogo financeiro. A explosão financeira, recordemo-lo uma vez mais, tem raízes em operações à margem das leis que os seus próprios deputados aprovaram. As limitações legais à corrupção são fruto da cedência dos capitalistas na batalha política em que a dialéctica expõe os avanços e recuos de exploradores e explorados. Agora, mais do que nunca, as relações entre o poder económico e o poder político são não só mais visíveis mas também as suas consequências. Curiosamente, era este mesmo ambiente que se vivia durante a grande crise capitalista dos anos 20. O ambiente das máfias, da corrupção, do tráfico de influências, da lavagem de dinheiro, do despudor absoluto entre oligarcas e políticos.

Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, foi acusado de beneficiar empresas através de um acordo secreto que permitiu a centenas de multinacionais não pagar milhões de euros em impostos, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy foi acusado de receber milhões da marca L'Oreal para financiar a sua campanha eleitoral, no Estado espanhol, dezenas de membros do PP e da Casa Real caíram nas malhas da justiça acusados de todo o tipo de crimes. Atentemos bem, de uma vez por todas, os fenómenos de corrupção a que assistimos não são um acidente de percurso, obra da falta de moral de uma pessoa, são consequência directa da relação entre os grandes grupos económicos e financeiros e os políticos que os representam. Só a luta por uma alternativa política e uma política alternativa podem resgatar o poder político das mãos dos que nos lixam a vida há demasiado tempo.

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  1. Anónimo27/11/14

    Não há qualquer diferença "entre o absurdo da cobertura noticiosa da detenção de José Sócrates", e o absurdo de teres escolhido a dedo esta foto para enfeitares o teu texto. Face ao timming, e face à causa da luta contra a corrupção, faria muito mais sentido uma foto do Sócrates. É difícil prender um corrupto, e quando detêm um presumível corrupto deste calibre, preferes lançares dúvidas sobre a detenção de Sócrates mas teres muitas certezas quanto a outros casos. É por estas e por outras que os corruptos proliferam. Não estás a prestar um bom serviço à causa que dizes defender. A tua causa é evidentemente outra, por isso deverias era dedicar-te à pesca pois és tão corrupto como todos os que indicas neste post e na foto.

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  2. Pois a mim parece-me que a foto ilustra que ao "arco da governação"(?!?) corresponde o arco da corrupção (sem aspas).

    só um àparte: será que cavaco e portas estão nos emirados para vender a tap???
    quanto lhes renderá ....

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  3. Anónimo27/11/14

    Estes senhores são uns SANTO!!!! Devem ser lugar no céu... Tenham paciência...

    Publico em anónimo por causa da PIDE.

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  4. Anónimo27/11/14

    Estes senhores são uns SANTOS!!!! Devem ter lugar no céu... Tenham paciência...

    Publico em anónimo por causa da PIDE.

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  5. Tens toda a razão, esta corrupção é sistémica. E há uma leitura, mais ou menos óbvia, para a entrada em cena ontem do M.Soares, este espécime peso-pesado do "arco da governança/lambança": ir garantir ao Sócrates que este caso, como tantos outros, vai ficar em águas de bacalhau, na condição deste último ficar caladinho sobre o muito que saberá. Ao mesmo tempo, um recado aos cúmplices do PSD e do CDS para arrepiarem caminho, sob pena de se sairem mal todos juntos, na foto da "famiglia"... Quem supõe que este caso é uma caixa de Pandora, é decerto quem ainda anda iludido com as patranhas que nos são impingidas diariamente e a toda a hora, do "Estado de direito", da "separação de poderes", da "Justiça independente", da "democracia ocidental e consolidada", etc, etc...

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  6. Anónimo27/11/14

    Com a detenção do Sócrates, ficamos todos esquecidos da votação do orçamento de Estado, como do caso dos vistos «gold» e do escândalo do BES. A alguns interessa este dito «absurdo» que nada ilustra do que há de mais corrupto neste país e que, neste momento, detém o poder.

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  7. Anónimo27/11/14

    Um muito bom post do Bruno.

    Quanto a um anónimo de 27 de Novembro às 12 e 59 vê-se que o o texto lhe provocou comichões. E a fotografia lhe provocou espasmos de solidariedade.

    Maria já deu uma resposta, completada por outros comentários.

    Mas a verdadeira resposta está paradoxalmente no texto do Bruno que o referido anónimo deveria ler com mais atenção.
    Para não fazer estas tristes figuras de figurante absurdo dos absurdos mediáticos paridos pelos amiguinhos dos amiguinhos da foto

    De

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  8. Anónimo28/11/14

    «A tua causa é evidentemente outra, por isso deverias era dedicar-te à pesca pois és tão corrupto como todos os que indicas neste post e na foto.»

    Chamar de corrupto ao Bruno é um exagero, como até absurdo. Se o anónimo das 12:59 queria ser sério, não conseguiu. O que conseguiu, sim, foi ser anedótico.

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  9. A corrupção tem uma única base fundadora - a mentira: servir-se quando diz servir.
    E assim, sem dúvida este é um regime corrupto até ao osso, obsceno na sua impante adesão à mentira que julga branquear com uma suposta legitimidade da luta política.
    E todo o discurso é organizado para obscurecer o que não serve os interesses próprios e promover a verdade conveniente em cada momento.
    São bandeiras da corrupção e espantam-se que tenham seguidores.

    Um exemplo: quem promoveu que os bancos fossem penhoristas de um modo nunca visto antes? A quem a lei das rendas e a grande armadilha da 'casa própria'?
    A lei foi imposta pelos bancos ou pelos mentirosos que votaram leis e subsídios,que conduziram à desordem urbanística, à sanha especulativa e ao abandono do edificado?

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  10. Anónimo29/11/14

    Custa ler tanto disparate condensado ,

    Como é que se pode levar a sério alguém que fala em "única base fundadora" e em "servir-se quando diz servir" e noutras tretas do género,ainda por cima escritas num tom pernóstico deplorável?

    "Mentira".?" Julga branquear"? Suposta legitimidade?
    Mas que processo de argumentação é este que se refugia em axiomas ,paridos lá no reino ideológico onde se acantona ?

    "espantam-se que tenha seguidores?"
    Mas quem se espanta?

    Isto parece um discurso da treta dum medíocre "auditor" ao fazer o seu relatório inspirado nos mandamentos que lhe inculcaram de acordo com os seus interesses de classe".

    Que tristeza confrangedora esta tentativa de inocentar os bancos desta forma tão patusca....

    " há que fazer um esforço no sentido de olhar a montante, ao patamar da origem do problema, e de um modo geral não apenas por convicção mas também por constatação, que é a corrupção e a sucessão de casos de crimes de natureza essencialmente económica e financeira que desde o agudizar da crise vieram à tona no nosso país. Há que perceber o que é que verdadeiramente liga, potencia, permite os vários casos de corrupção – uns confirmados, outros por confirmar – e o que contribui para a degradação da política e da democracia. Dê lá por onde der este ou aquele caso em particular, o problema não é e nunca será só «aquele ministro», «aquele ex-ministro» ou «aquele banqueiro». São anos, décadas, de maus governos e maus governantes. São anos de leis ideologicamente concebidas, de políticas a preceito de uma determinada lógica de promiscuidade e favorecimento entre poder político e poder financeiro. São legislaturas inteiras pautadas pela submissão das regras da democracia às regras da finança. É todo um sistema poderoso e corporativista, manhoso, oculto, esperto, promíscuo, que perpassa, resiste, conspira e patrocina a alternância entre PS, PSD e CDS, não lhe importando, não lhe fazendo mossa, que o líder se chame Sócrates, Passos Coelho, António Costa ou Paulo Portas. E enquanto não se cortar o mal pela raiz, enquanto o país não perceber que tem de correr de uma vez por todas com os partidos que nos têm governado, o problema vai continuar lá, com repercussões no presente e no futuro de todos os portugueses."
    Ivo Rafael Silva

    A estória da carocinha sobre "bases únicas fundadoras" e sobre os branqueamentos e sobre as leis impostas pelos mentirosos que votaram leis e subsídios , cai assim por terra sem honra e sem proveito.

    "A crise do sistema capitalista não só aprofundou a pobreza mas também agudizou as contradições entre os próprios capitalistas e os seus representantes políticos. Esta guerra que se desatou contra os trabalhadores e os povos é a tradução de uma necessidade cada vez maior de acumular riqueza por parte de uma minoria da população. Aqueles que nos acusam de termos vivido acima das nossas possibilidades foram os que instigaram a especulação e o jogo financeiro. A explosão financeira, recordemo-lo uma vez mais, tem raízes em operações à margem das leis que os seus próprios deputados aprovaram. As limitações legais à corrupção são fruto da cedência dos capitalistas na batalha política em que a dialéctica expõe os avanços e recuos de exploradores e explorados. Agora, mais do que nunca, as relações entre o poder económico e o poder político são não só mais visíveis mas também as suas consequências. Curiosamente, era este mesmo ambiente que se vivia durante a grande crise capitalista dos anos 20. O ambiente das máfias, da corrupção, do tráfico de influências, da lavagem de dinheiro, do despudor absoluto entre oligarcas e políticos."

    "Atentemos bem, de uma vez por todas, os fenómenos de corrupção a que assistimos não são um acidente de percurso, obra da falta de moral de uma pessoa, são consequência directa da relação entre os grandes grupos económicos e financeiros e os políticos que os representam"

    A base fundadora mistura-se com um ácido e gera um banco à medida dos interesses do Capital.

    De


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  11. DE, afoba-se se lhe discutem o direito à mentira.
    Sem surpresa.

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  12. Anónimo29/11/14

    Jose, volte para a barraca de "A Chispa"!

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  13. Anónimo30/11/14

    O direito à mentira e a afobação.
    Sério? Discutir o quê?
    Hum

    Um "bom" pretexto de fuga para alguém que de facto não quer que se saiba sobre o que se passa com a corrupção

    Mas demasiado medíocre para ser levado a sério.

    Que jose invente outra. Esta é demasiado pueril mesmo para um profissional do ramo

    De

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