Visite Lisboa, o maior parque temático do país. *Com o gentil patrocínio da Sonae

5.7.14

Certamente não passaria pela cabeça de ninguém privatizar uma cidade. Cidade enquanto espaço de pessoas, de trabalho, de habitação, de convivência intergeracional. Claro que há espaços privatizados mas o conceito de transformação da cidade como um espaço, ele próprio, privado, aberto apenas a alguns, eventualmente com reserva de direito de admissão é uma ideia estranha.

Assemelhada aos tempos medievais em que a muralha defendia e isolava a povoação, com a vantagem dos portões não serem, necessariamente, uma bilheteira.

Contudo, o espaço público tem vindo, pouco a pouco, a transformar-se num espaço privado. E elitista. Já nem me detendo nas praias ou espaços naturais selvagens vendidos à construção de luxo, já é «normal» o encerramento de praças, vias públicas, jardins públicos para a realização de eventos mais ou menos «abertos ao público» para a promoção de um produto ou uma marca.

O encerramento das ruas, na capital do país. Lisboa, de repente, transforma-se paulatinamente num circo multicolor patrocinado por marcas preferencialmente geridas por Belmiro de Azevedo. As avenidas principais encerram para a realização de feiras campestres que promovem os produtos Continente. A praça do Município cerca-se de um cordão policial para garantir que só alguns assistem à apresentação de uma grande operação de marketing de uma operadora de comunicações. Todos os largos na baixa da cidade são rebaptizados com o mesmo nome – NOS – para a realização de vários concertos. O jardim da Praça das Flores é encerrado e erguem-se tapumes negros e altos para a exposição de carros. Os bancos da Avenida da Liberdade perdem a sua tradicional cor vermelha para se pintarem com o logo de uma qualquer marca que ninguém percebe bem o que é. A mesma Avenida, a da Liberdade, fecha-se à circulação de pessoas e de carros vários dias para a realização de corridas automóveis onde só entram convidados e os que podem pagar bilhete.

Também podemos falar de Monsanto ou Bela-Vista, esta última condicionada repetidamente, sem que se conheçam propriamente quaisquer contrapartidas dos contratos milionários que são celebrados com o Município Lisboeta.

Tudo isto sob a atenta batuta de José Sá Fernandes, que dispõe do espaço público como de espaço seu se tratasse. Os passeios passam a ser das lojas, os muros apenas podem ser pintados com anúncios a marcas de tintas ou se for um concurso devidamente autorizado pela Câmara, a cidade deixa de ser cidade.

Em contrapartida, as brigadas correm a cidade para a expurgar de elementos políticos, particularmente nas chamadas «zonas nobres» e rapidamente se tapam as palavras de luta com que as pessoas marcam o espaço público. A própria cultura urbana é transformada em peça vendável e os graffitis e picotagens passam a ser exposições com altos patrocínios.

Na verdade, de cada vez que se passa uma portagem à entrada de Lisboa, quase que se compra um bilhete para um conjunto grande de diversões. Viver na cidade torna-se proibido. Gentrificam-se os lugares, fecham-se os hospitais urbanos para dar lugar a locais de elite ou de turismo, os prédios nos bairros vendem-se ou arrendam-se e o património degrada-se.

Já não há cinemas de rua, espaços comuns de convivência popular, mesas de damas e de cartadas, campos onde se joga à bola. Não. Sá Fernandes transformou a cidade de Lisboa num local de entretenimento que abre e encerra consoante a programação de Belmiro e a afluência turística. Qualquer dia, todos os que ainda conseguirem viver na cidade serão obrigados a pintar as casas com logotipos dos patrocinadores de Lisboa e a cidade dos corvos e das pessoas passará a ser mais um gigantesco centro comercial onde tudo está à venda. Com o gentil mecenato da Sonae. Disse-se um dia que o zé fazia falta. E que Lisboa era gente.

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  1. Anónimo5/7/14

    Porque as pessoas, no uso quotidiano das suas vidas para um ganha-pão cada vez mais difícil e amargo, muitas vezes são ofuscadas pelo barulho das luzes e deixam passar esta apropriação do seu espaço, do seu mundo, do seu tempo, do seu modo de ser.

    Porque há necessidade não só de se exigir a cidadania,mas também o uso da razão e da inteligência, da reflexão e da acção, do confronto e da discussão.

    Textos que nos convoquem para parar e pensar ( para mudar também) são etapas fundamentais para a tomada de consciência do mundo em que vivemos.

    (Daí também a necessidade dos velhos gaiteiros transformados em cartazes de propaganda dos belmiros, ou dos continentes -como já foram dos ricardo salgados e dos soares dos santos -saírem à cidade e agitarem cartazes,numa grotesca encenação de mistificação do fundamental e do abordado.

    Ainda por cima "esquecendo" que nem as pessoas são votos, nem o uso aparlemado da contabilidade dos votos (são poucas as pessoas, pelos vistos) chegam para tapar o cheiro putrefacto que vai invadindo estes tempos e as nossas cidades.)

    De

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  2. João5/7/14

    Uma das características do sistema capitalista, é o da sua eterna e insaciável voracidade. As pessoas, os espaços onde se cruzam, conversam, inter-agem, tudo, mas tudo, deve ser privatrizado, convertido em lucro e apropriação individual para benefício de alguns. E nesta fase de agonia histórica - em que o Mundo é pequeno para a besta - mais se acentuam os seus traços mais desumanos.

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  3. Anónimo7/7/14

    A cidade é um chão de palavras pisadas

    A cidade é um chão de palavras pisadas
    a palavra criança a palavra segredo.
    A cidade é um céu de palavras paradas
    a palavra distância e a palavra medo.

    A cidade é um saco um pulmão que respira
    pela palavra água pela palavra brisa
    A cidade é um poro um corpo que transpira
    pela palavra sangue pela palavra ira.

    A cidade tem praças de palavras abertas
    como estátuas mandadas apear.
    A cidade tem ruas de palavras desertas
    como jardins mandados arrancar.

    A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
    A palavra silêncio é uma rosa chá.
    Não há céu de palavras que a cidade não cubra
    não há rua de sons que a palavra não corra
    à procura da sombra de uma luz que não há.

    José Carlos Ary dos Santos

    A.Silva


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