À esquerda, as mulheres são mais bonitas

15.2.14

A mulher mais bonita é a que acredita mesmo (e di-lo com tanta força que não podia estar a mentir) que um mundo melhor é possível. Porque os ideais embelezam os corpos, um cartão vermelho a espreitar de uma carteira aberta pode ser mais sensual que unhas vermelhas a fechá-la. E porque o socialismo é entre todos o ideal mais belo, a consciência política pode ser mais sexy que uma mini-saia, saltos altos e meias de vidro.

As mulheres revolucionárias são mais bonitas porque são mais humanas e sentem como suas as dores de parto da humanidade sofrida. As mulheres revolucionárias sentem mais fundo, indignam-se mais vezes, gritam mais alto e desejam com mais força. As mulheres revolucionárias cheiram a pólvora, beijam com a ansiedade de saber que só temos estes anos e entregam-se mais porque não têm nada a perder. As mulheres à esquerda são mais perigosas: não respondem aos aborrecidos ditames da conveniência conjugal nem à opressora liturgia do lar, lêem bons livros e vêem bons filmes de que nunca ouviste falar. Não são subalternas de nada, vão à luta e lideram os homens. Acreditam na fruição do amor pleno e riem-se do cumprimento de contractos. Gabriel García Márquez dizia que o amor tem mais quartos que uma casa de putas. Mas há casas de putas e casas de putas... O coração da mulher revolucionária não é um T0, onde só cabes tu e depois se fecha ao mundo como um ouriço-cacheiro. As mulheres de esquerda conseguem amar a humanidade inteira. O coração da mulher revolucionária é maior que o hotel Marriott e tem mais capacidade que o parque de campismo exterior da Festa do «Avante!».

As mulheres de esquerda não são senhoras nem usam casacos de peles: são edifícios elegantes que quando falam te ensinam coisas. As mulheres revolucionárias são mais femininas que a ilusão do espelho e que a estética senil das revistas de moda: vestem uma t-shirt e uns calções e vão construir a festa, para se sujarem se for preciso. Voltam tisnadas de óleo e sujas de terra e ainda mais bonitas. As mulheres de esquerda são femininas porque o são. Mas de uma feminilidade diferente, da sua própria lavra.

As mulheres revolucionárias são mais bonitas porque compreendem que também a beleza obedece às leis dialéticas que regem a história do mundo. A beleza feminina é dialética pura, embora alguns homens só se apercebam disso durante momentos fugazes: aquelas palavras que não se tiveram de dizer, a ameaça de um sorriso nos cantinhos dos lábios, a alça descaída do sutiã, uma nova e insondável profundidade na aguarela de um olhar, que é diferente porque vê mais longe, até ao horizonte sempre mais longínquo e que há-de resgatar-nos da barbárie. Os olhos das mulheres de esquerda são como os da Blimunda Sete-Luas e vêem sempre o que os homens são no fundo. Às vezes, o cabelo das mulheres de esquerda é como o dia está a ser. E também por isso, cada reflexo que brilha em solução de cobalto é mais verdadeiro, cada jeito rebelde é mais puro e cada ponta espigada e insurgente é mais autêntica.

As mulheres revolucionárias são bonitas quando estão cansadas, porque trabalharam oito horas. São bonitas quando estão tristes, porque estão desempregadas. São bonitas quando, como dizia a Maria Velho da Costa, acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas. E, sobretudo, as mulheres revolucionárias amam melhor, porque sabem que o amor verdadeiro é só uma espécie invulgar de camaradagem.

Relacionados

  1. Anónimo15/2/14

    "As mulheres revolucionárias são bonitas quando estão cansadas, porque trabalharam oito horas" - ...tivesse a burguesia tal preconceito legalista relativamente ao horário de trabalho.

    ResponderEliminar
  2. Tem "momentos" muito bonitos!
    Vai-se a ver… é um texto de esquerda… :-)

    ResponderEliminar
  3. Tão certo quanto uma religião qualquer!

    ResponderEliminar
  4. Tinha que vir a cassete bafienta da "religião"...

    ResponderEliminar
  5. Francisco Canelas15/2/14

    José, esse é um comentário tão básico que passa facilmente por anedota. Um texto que nos diz que a verdadeira beleza da mulher não é tão física mas uma mulher culta, interessante com ideais e profundidades tem muito maior magnetismo e atração que uma mulher maquilhada e arranjada mas completamente superficial, só o José para comparar esta crítica ao ideal de beleza da mulher vigente na atual sociedade capitalista e fazer uma comparação com uma qualquer religião.
    Francisco Canelas

    ResponderEliminar
  6. Anónimo15/2/14

    :)


    A. Silva

    ResponderEliminar
  7. Anónimo16/2/14

    Foda-se... A descrição que fazes das mulheres de esquerda é tão sexy como um tanque da roupa com merda até às orelhas.

    ResponderEliminar
  8. Caro anónimo, são gostos. No entanto, recomendo-lhe o novo clip da miley cyrus.

    ResponderEliminar
  9. Andreia cunha17/2/14

    Está provado que o sexismo pode ser poético

    ResponderEliminar
  10. ó andreia, que parte do texto é sexista?

    ResponderEliminar
  11. João17/2/14

    eu diria que não dá para separar em parte alguma. parece-me sexista no seu todo. muito, aliás.

    ResponderEliminar
  12. A minha mulher é revolucionária, mas gosta de maquilhagem, saltos altos e de uma boa roupa interior, será que é menos revolucionária por isso?!

    ResponderEliminar
  13. eu não sou um objecto de embelezamento na tua (porque assim é mesmo só tua) revolução, ou como disse outra companheira de lutas, ó antónio, vai fazer odes ao teu tio

    ResponderEliminar
  14. Só para clarificar: eu não me manifesto contra as unhas vermelhas nem saltos altos... não sei onde foram buscar essa ideia. Digo apenas que outras coisas são às vezes mais bonitas.

    Mas obrigado pelas críticas, são úteis todas elas.

    ResponderEliminar
  15. Que raio de preconceito têm algumas mulheres que acham que as estão a diminuir quando alguém se fala de beleza feminina! Achar que as mulheres revolucionárias são mais bonitas não as torna um objecto de embelezamento da revolução, nem o António refere que ser bonitas é o seu papel no mundo. Também Lénine disse que o comunismo é a juventude do mundo, no entanto os comunistas não são apenas os portadores da jovialidade. Eu também acho os homens e as mulheres revolucionárias mais bonitas e não as considero objectos. O juízo estético é sempre ideológico e a atracção também. Quanto à poesia, deixo aqui as palavras de Vinicius n'O operário em construção. Expressam o que o António diz de uma outra forma. Desafio a que encontrem aí algum vestígio de sexismo:
    "Naquela casa vazia
    Que ele mesmo levantara
    Um mundo novo nascia
    De que sequer suspeitava.
    O operário emocionado
    Olhou sua própria mão
    Sua rude mão de operário
    De operário em construção
    E olhando bem para ela
    Teve um segundo a impressão
    De que não havia no mundo
    Coisa que fosse mais bela."

    ResponderEliminar
  16. Anónimo17/2/14

    Chapeau Irene

    De

    ResponderEliminar
  17. Anónimo17/2/14

    Muito bem, Irene! Há esquerdistas que quando se fala em mulheres bonitas têm logo comichão no feminismo.

    ResponderEliminar
  18. a verdadeira beleza da mulher não é tão física
    as dores de parto da humanidade sofrida
    a áspera mão...
    A esquerda é tão sexy...

    ResponderEliminar
  19. Anónimo17/2/14

    Um texto muito bonito. Como mulher e comunista senti-me elogiada e como a irene sá não compreendo a acusação de sexismo. Não compreendi a t-shirt e os calções.

    ResponderEliminar
  20. Pois é José, também há os que acham as bonecas de borracha mais sexys, há os procuram parceiros e parceiras que se pareçam com as pessoas de papel nas revistas "photoshopadas", há quem se sinta mais atraído pelo cheiro das carteiras e pelo erotismo do poder, também há quem se excite com o carrasco e adore o desprezo, há os que fazem amor com o espelho, há os que veneram a animalidade, esquecendo que da nossa natureza faz parte a memória e a capacidade de julgar e há os arrogantes frustrados incapazes de encontrar beleza seja no que for.

    ResponderEliminar
  21. João18/2/14

    Irene, as mulheres são pressionadas todos os dias e a toda a hora pelas questões da beleza. E o "eu não as considero objetos" é meramente uma análise individual. No limite, na individualidade, ninguém as objetifica. No coletivo, é muito mais do que isto, ou estou enganado? E julgo que é disso que falamos aqui neste sexismo do texto - de um coletivo extremamente oprimido, também nas amarras da beleza feminina.

    ResponderEliminar
  22. Anónimo18/2/14

    João então para ti sempre que se elogia a beleza de uma mulher, estamos a oprimi-la com "as amarras da beleza feminina"?!?!?

    desculpa, mas reclamar contra o elogio da beleza não é feminista é parvo.

    Rita Lopes

    ResponderEliminar
  23. Anónimo18/2/14

    De qualquer forma toda a mulher transporta em si sempre algum traço de beleza.

    Mas quando é guerrilheira, a beleza associada à coragem supera tudo de extraordinário que qualquer mulher possa ter.

    A Tanja Nijmeijer é o expoente máximo dessa realidade.


    http://www.youtube.com/watch?v=kQT0yUUgdaM


    http://www.youtube.com/watch?v=PU0Jy6-j04s


    Carlos Carapeto

    ResponderEliminar
  24. João, infelizmente não creio que no limite da individualidade ninguém objectifique (se é que este verbo existe) as mulheres. Muitas mulheres objectificam-se a si mesmas, as batalhas individuais para corresponder a um estereótipo físico e de comportamento é disso o exemplo mais massificado e assustador (e não estou a dizer com isto que procurar ser mais agradável para si mesma/mesmo e para os outros seja uma auto-objectificação). Estou de acordo contigo quando dizes que as mulheres têm estado presas nas amarras da beleza. Mas essas amarras de beleza são físicas e são estereótipos. Não é disso que fala o António, fala de uma beleza das ideias e da manifestação dessas ideias em tudo que uma mulher (e eu acrescento, um homem) pode ser, até na sua sexualidade.

    ResponderEliminar
  25. Anónimo18/2/14

    Grande texto. Gostei muito.

    Obrigada.

    ResponderEliminar
  26. Anónimo19/2/14

    O texto n tem nada de sexista. O problema é outro e bem mais grave: a estitização da exploração. Não, as mulheres (e os homens) da burguesia, as que não lutam pelo pão (o seu e dos outros), tem mais condições para serem mais bonitas (com as profundidades todas de que o texto fala e mais algumas).
    Pois elas tem o tempo e o dinheiro que roubam para isso, e o isso não é essencialmente as unhas pintadas ou o rimel, é o corpo nutrido, o sol de todas as horas, as noites bem dormidas, a ausência de preocupações que nos vão deformando a cara e o corpo, as viagens pelo mundo, o tempo para ler mais e para estudar, o tempo e dinheiro para ir a museus, etc etc etc
    Dizer o contrario é negar uma consequência da própria exploração, é desarmar os trabalhadores e tornar inútil a própria luta por uma outra sociedade onde aí sim os produtores serão sem dúvida os mais belos.

    DV

    ResponderEliminar
  27. Andreia Cunha21/2/14

    Eu cá não quero participar numa luta em que uma parte importante da minha identificação política - o meu género - seja visto nos termos deste post e de grandes partes deste comentários. Essa revolução não é a minha. Se é para ler "mulher" como "proletariado", então teriam escrito o texto com "proletariado" e não "mulher". Este texto torna as mulheres objectos de embelezamento e fá-lo com bastante superficialidade e preconceito (como já foi dito nos comentários) - tanto as revolucionárias como as ditas burguesas. Eu própria não sou grande adepta da categoria de género como primordial no agenciamento político. Outra coisa é aceitar que uma mulher, qualquer mulher, possa ser tratada nos moldes sexistas deste texto. Tratar do embelezamento é tratar da subalternidade no movimento revolucionário. Não estou para isso. Entendo, até, que a poética da beleza para a subalternidade bacoca, é coisa da reacção e o António Santos é a sua vanguarda.

    ResponderEliminar
  28. Anónimo21/2/14

    "Essa revolução não é a minha", "ditas burguesas", "Eu própria", "categoria de género" "agenciamento político": estamos conversados.

    Beijinhos muito grande para a Andreia (ela própria) e para os seus amigos da sua revolução,

    DV

    ResponderEliminar
  29. ó Andreia Cunha, obrigado pela crítica, a sério. Tentei compreendê-la e revejo-me nalguns aspectos. Mas não acha que está a exagerar um bocadinho quando diz que eu sou a vanguarda da reacção porque chamo bonitas às mulheres revolucionárias?

    Chamar bonita a uma mulher é sexista? Mesmo quando escrevo que lideram os homens e não são subalternas de nada? E achar uma mulher atraente é torná-la no "objecto" de alguma coisa?

    Mas por favor não se sinta tão incomodada, Andreia. Posso assegurá-la de que absolutamente nenhuma parte do meu texto lhe era dedicada.

    ResponderEliminar
  30. António, a hipérbole (da vanguarda da reacção como da beleza da revolucionária) é sempre um exagero.

    Quanto às prrguntas - Nestes termos, sim. Sim, mesmo nas lideranças. Quando sensualizo, objectivo. Quando verbalizo, reforço. Não te esqueças que ha um texto e um contexto e as questões de género têm uma história de milhares de anos. Um materialista dialéctico deveria ter esta lição.

    Ainda bem que não era para mim. Fico mais tranquila. Mais logo passa cá por casa para me fazeres um minete.

    ResponderEliminar
  31. poispois24/2/14

    socialista o caralho. a mulher sexy revolucionária tem as unhas vermelhas e é anarquista.

    ResponderEliminar
  32. Anónimo27/2/14

    Texto fascinante!! Bela descrição das guerreiras de esquerda
    Parabéns
    Sara Marques Costa

    ResponderEliminar
  33. Anónimo3/3/14

    :) que texto tão bonito... palavras que fazem falta.

    C. G.

    ResponderEliminar
  34. Mui fofo isto. Os homens de esquerda me enlouquecem (de prazer... sexual, intelectual, emocional!). Homens de esquerda são intensos, quentes, generosos, da família sem serem de família, caseiros sem serem da caserna, barbudos, cabeludos e perfumados. Sabem cozinhar e massagear os pés cansados da luta. Sabem receber amor, sabem dar amor. Sabem o que é Amor.

    ResponderEliminar
  35. É um texto muito interessante, que mostra que a questão estética é o de menos. Que a beleza não é só a exterior. Esse "mais bonita", tem amplos sentidos que suplantam a questão restritiva da plástica, para perscutar as questões da boniteza da alma.

    ResponderEliminar
  36. Depois de tanto comentário e da tentativa vã de desvirtualização de um texto tão bonito quando o que ele diz na sua essência é que a questão estética na caracterização da beleza da mulher é tão de menos importância, está tudo dito logo no início: "A mulher mais bonita é a que acredita mesmo (e di-lo com tanta força que não podia estar a mentir) que um mundo melhor é possível. Porque os ideais embelezam os corpos,(...)

    Lindo texto, sobre ele comecei a manhã a ouvir o seguinte "Amor és tu", isto vindo de um homem que sabe que adoro um salto alto, um bâton vermelho e uma lingerie de tirar a respiração. Mas que me vê desalinhada, despenteada de t-shirt e calças de ganga enquanto pinto faixas e mesmo assim me diz que sou bonita.
    Bonito mesmo é o sorriso que a luta nos trás, seja em que condição for, em que situação for, o sorriso da tal confiança num mundo melhor.

    ResponderEliminar
  37. Adorei o texto em si, principalmente toda a profundidade dada a ele respectivamente a respeito do sentido da verdadeira beleza, a intelectual humanista, toda ela fluindo do glorioso ideal comunista. Parabéns

    ResponderEliminar