Dia Mundial da Criança

Irene Sá 1.6.20
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América em chamas

Lúcia Gomes 31.5.20
Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, Walter Scott, Tamir Rice, Philando Castile, Samuel Dubose, Terrence Crutcher, Trayvon Martin, Eric Garner, Oscar Grant, George Floyd. São negros, americanos, executados, abatidos como animais. As suas mortes percorreram o mundo. Assistimos aos olhos de uma pessoa, com quatro três homens em cima dele, a fazer força com os joelhos no tronco e nas pernas e a sufocá-lo com o joelho depois de o espancarem brutalmente dentro e fora do carro da polícia. Uma mulher que dormia e foi perfurada por dezenas de balas porque a polícia procurava um suspeito já detido e ainda acusou o seu companheiro por ter disparado contra um polícia que foi baleado por outro polícia. Ser negro nos EUA significa que não se pode falar quando a polícia chega. As mãos ficam no volante. Ninguém se pode mexer. A primeira coisa se te mandam atirar ao chão é atirares-te ao chão e ficares calado porque estão doze polícias com uma arma no ar e a qualquer gesto matam-te. Não te prendem. Matam-te.
Nos protestos que vão enchendo todo o país uma miúda diz que não se senta, que já perdeu três irmãos e que não se vai esconder atrás da sua cor porque ela é a razão pela qual a matam, então que a matem.
Outra mulher negra diz que aprendeu a violência com os brancos.
Uma mulher baixa um joelho diante de um pelotão de bastões em riste.
Carros da polícia avançam sobre manifestantes.
São disparadas balas de borracha directamente às cabeças dos manifestantes pacíficos.
Dois polícias passam e um atira violentamente uma mulher parada ao chão.
Um polícia a cavalo passa sobre uma manifestante.
Tanques enchem as ruas de Minneapolis e disparam sobre as pessoas nas janelas e portas de suas casas.
Às 21:13 vários polícias partem as janelas de um carro e agridem com bastões e tasers um casal de negros que regressava a casa por violação de recolhimento obrigatório, imposto nesse dia, a partir das 21h00.
O presidente ordena que o exército entre a matar.
Nos comentários, uma testemunha da execução de Floyd diz que o polícia o queria matar, estava satisfeito.
8 minutos e 43 segundos, sendo que cerca de três minutos Floyd já estaria morto e o joelho continuava a fazer pressão sobre o seu pescoço enquanto o carrasco tinha as mãos nos bolsos.
Em LA a polícia faz barreira para que a manifestação se desvie para Fairfax e não passe para Beverly Hills. Usa bastões, balas de borracha, interfere com as comunicações.
Em Nova Iorque atiram gás pimenta para cara de crianças.
Jornalistas da CNN são presos porque são negros.
Está tudo documentado.
This is America.
Sempre foi. A América onde ser negro é motivo para morrer.
Kuku, Lbc, Timor, Celso, Cláudia, Rui, Miguel, Paulo, Jakilson e tantos outros cujo nome não sei.
São negros, se a polícia diz pára, têm que parar. Mas se param são culpados e podem ser agredidos. Se fogem são culpados e serão seguramente agredidos e detidos.
O Kuku foi executado aos 14 anos com um tiro na cabeça e o carrasco absolvido. Uma esquadra inteira agrediu e torturou jovens negros e não há penas efetivas e ainda não se conhecem expulsões da PSP. Ainda são agentes. Um cidadão ucraniano foi torturado e morto por autoridades e a diretora nacional do SEF ainda está em funções. O agressor de Cláudia Simões ainda está em funções. A 20 de maio passou um ano sobre o primeiro acórdão que condenou agentes da PSP por agressões e deixou cair o racismo porque preto filho da puta, pretoguês, quero a vossa raça extinta são coisas que o nosso país, as nossas instituições acham que podem ser ouvidas e ditas. E apesar de tudo foi o único processo a esta escala que avançou, com vítimas que resistiram, com uma decisão condenatória. Mas afinal ainda foi pouco. (será mesmo que foi?)
Durante os cinco anos que durou o processo até ao julgamento, resistiram sozinhos e aguentaram.
No último ano, aqueles dois dias por semana em Sintra, a viagem tinha uma banda sonora todas as manhãs. Repetia uma música chamada Doomed to live, da banda sonora da série Gomorra, realizada a partir do livro de Roberto Saviano, sobre a mafia napolitana. Por vezes na viagem cruzava-me com a carrinha da PSP que transportava os agressores, e não raras vezes a viagem era feita em lágrimas como se numa mistura de sentimento de impotência (quem derrota a polícia?), de incompreensão sem saber se valeria a pena que quem passou por tudo aquilo estivesse novamente a arriscar as suas vidas (sim, porque estiveram sempre em risco, não tenham ilusões) e se estariam para sempre condenados a viver assim. E no dia em que os agressores foram condenados, percebi que não e que há muito a fazer. E aqui, em Portugal, ainda não é tarde. É preciso organização, porque combatividade, resistência e luta há. Mas há demasiadas vítimas. E não podemos deixar que avance mais. Ser negro não pode ser motivo para ser agredido, detido ou executado. E nós temos que estar na linha da frente.

The great only appear great because we are on our knees. Let us rise. Big Jim Larkin
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Eu não sou racista, mas....

renata 30.5.20
eu não sou racista... mas
"A sério... eu até tenho um amigo preto/cigano/chinês/de leste/homosexual/trans (riscar o que interessa), mas..."
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Foi nos Estados Unidos mas podia ter sido na Amadora

Bruno Carvalho 28.5.20
Cresci num bairro operário da Amadora. O meu vizinho do lado era padeiro, o de baixo era mecânico e o do outro lado era carpinteiro. Nunca tive problemas com as autoridades. Quando era miúdo e passava pela rua que dava para a pastelaria Elvina, na Amadora, havia uma frase na parede que me intrigava: "Se a polícia nos protege, quem é nos protege da polícia? Mas aquilo não dizia nada à minha existência diária. Remetia-me antes para as realidades ficcionadas que vivia quando ficava a ler na marquise da minha avó. A repressão era algo que só existia nos livros do Zola ou do Emilio Salgari.

Nas ruas do meu bairro, não havia praticamente ciganos ou negros. A escola era o mundo onde todos nos cruzavamos. Eles chegavam dos seus guetos imersos em pobreza num país que aprendia a usar a mão-de-obra dos pais dos meus colegas a um preço mais barato. Eu não sabia nada de violência policial porque as autoridades só batiam nos meus vizinhos à porta das fábricas quando protestavam por melhores salários. A primeira vez que levei uma bastonada era praticamente adulto e todas as vezes em que fui identificado ou detido havia uma razão política por trás. Para os meus amigos ciganos e negros, bastava existirem.

Em 2015, o meu amigo LBC foi sequestrado pela polícia com outros jovens da Cova da Moura e espancado durante horas. Vários agentes foram condenados numa sentença inédita sem que ainda assim tenham sido despedidos da PSP. No ano passado, quando cheguei a casa de Claudia Simões para a entrevistar vi nela os olhos aterrados de George Floyd, minutos antes de ter sido assassinado por um polícia em Minneapolis. As imagens desta mulher da Amadora no chão enquanto um agente lhe faz um mata-leão são a prova de que para alguns a simples existência chega para serem alvo da violência policial. À frente da sua filha, foi detida de forma violenta antes de ser levada num carro-patrulha onde a esmurraram para depois dizerem aos bombeiros que tinha sido uma queda.

Há poucos dias, a jornalista Joana Gorjão Henriques deu a conhecer um estudo da Universidade de Coimbra que mostra que em dez anos nenhum polícia foi condenado por racismo. Há quem tenha a coragem, e bem, de dizer que se trata de violência estrutural quando se trata dos Estados Unidos mas que meta água na fervura quando falamos de Portugal. As mãos negras que nos constroem hospitais com baixos salários são bisnetas das mãos negras que viveram a barbárie da escravatura. As mulheres destes guetos são as que enchem os primeiros autocarros de madrugada para limparem escritórios.

É um facto que a polícia precisa de melhores condições dignas. Uma vez, detido numa esquadra de Lisboa, deu para ouvir o lamento de um agente sobre o estado das instalações. Suponho que seja sempre mais fácil conversar com um polícia quando se é branco e não se está num piquete de greve. Há falta de muitas coisas. Sobretudo, de formação. A extrema-direita cresce nas forças policiais porque apresenta um discurso que dá voz à sua revolta e porque aposta na construção de um inimigo fictício. Enquanto André Ventura se finge porta-voz das reivindicações da polícia, e depois faz o contrário na Assembleia da República, há quem não perceba dentro das forças de segurança que é ao lado dos trabalhadores, portugueses e imigrantes, independentemente da cor, que se constrói uma paz com justiça social.

O problema é que não se pode esperar que a formação resolva aquilo que os sucessivos governos nunca quiseram resolver. A polícia é a tropa de choque dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros. O racismo não é um filme do Spike Lee que só acontece quando estamos sentados no cinema. Há um apartheid e, como em todos os apartheids, se não o sentes na pele é porque não vives em guetos permanentemente assediados pela polícia. É porque a tua cor da pele te permite existir sem teres de acelerar o passo de cada vez que vês um polícia. É porque nunca tiveste de te questionar: a polícia protege-nos mas quem nos protege da polícia? Aconteceu nos Estados Unidos mas podia ter sido na Amadora.


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Eu quero falar com o meu pai

António Santos 25.5.20
Nos piores momentos, o meu pai, de 89 anos, ficava tão confuso que achava que estava no forte de Peniche. Eu tentava explicar-lhe que não estava preso, mas era em vão. Ele temia que quando as visitas terminassem houvesse outro interrogatório. Quando as funcionárias do lar passavam, suspeitava que a PIDE-DGS nos estivesse a escutar e eu, a chorar, garantia-lhe que não, papá, que já estás livre, porra, que fizeste o 25 de Abril.

Agora, eu próprio já não sei se o meu pai estava mesmo a alucinar, nem sei mais quem está mais demente, se o meu pai se os que se dizem sanos. É que a demência às vezes é cruel, mas a crueldade é sempre demente: quando o meu pai testou positivo para a COVID-19, o lar decidiu que a família não pode contactá-lo. Nem por telefone nem via internet. Nem quando o meu pai foi preso político, encarcerado por presidir ao Sindicato dos Jornalistas, esteve completamente incomunicado. Até os fascistas permitiam que os presos, de vez em quando, falassem com a família. A PIDE fez-lhe a estátua, mas não se lembrou desta tortura.

Não consigo imaginar o sofrimento dele: confuso, fechado sozinho num quarto, 24 horas por dia, sem poder falar com a mulher nem com os filhos. Somar 89 anos e um estado de saúde precário à COVID-19 não dá expectativas animadoras. Explicámos ao CBESQ, um lar para os lados de Queluz onde o meu pai está institucionalizado, que se nos privarem do direito a falar com ele enquanto estiver infectado, podemos nunca mais poder falar com ele. Insistimos que não há quaisquer razões sanitárias para não introduzir permanentemente um tablet no quarto dele, mas a direcção do lar não concorda. Parece que o CBESQ não segue só as recomendações da DGS - Direcção-Geral de Saúde, que naturalmente não diz nada sobre os infectados com COVID-19 não poderem usar telefones, mas também cumpre devotamente as recomendações da outra DGS, a velha Direcção Geral de Segurança.

Em Portugal ninguém pode ser privado no direito a contactar a família. Nem aos perpetradores dos crimes mais hediondos é negada essa chamada telefónica. Mas dentro de incontáveis lares de idosos deste país não impera a lei da república, mas a lei do mais forte. O que a direcção decide é lei: podem transformar recomendações em obrigações; podem virar do avesso direitos e chamar-lhes proibições; podem até mudar de opinião arbitrariamente e dizer o contrário e o seu oposto... Podem fazer quase tudo, que ninguém se atreve a protestar porque, afinal de contas, são eles que têm os nossos familiares como reféns.

O CBESQ não quer saber se a DGS, na informação n.º 016/2020, no ponto 5.2.1, diz que «a área de “isolamento” deve ter ventilação natural, ou sistema de ventilação mecânica, e possuir revestimentos lisos e laváveis (ex. não deve possuir tapetes, alcatifa ou cortinados). Esta área deverá estar equipada com: telefone». O CBESQ não quer saber se a DGS, na informação n.º 011/20, no ponto 7, diz que «As ERPI, UCCI da RNCCI e demais estabelecimentos de apoio social devem incentivar e garantir os meios para que os utentes possam comunicar com os familiares e amigos através de vídeo chamada ou telefone». O CBESQ não quer saber se a DGS através da orientação n.º 009/20 diz, no ponto 2, alínea A, que «as instituições devem garantir os meios para que os residentes possam comunicar com os familiares, nomeadamente videochamada ou telefone».

O Estado retirou-se das suas obrigações sociais com a terceira idade, lavou as mãos como Pilatos e passou a bola a milhares de pequenos tiranetes privados, que dão a cruz a beijar aos utentes com a mesma facilidade que proíbem os familiares de se aproximarem mais do que quatro metros sobre uma piscina de lixívia. E este não é um problema do meu pai, é um problema de milhares de idosos sequestrados em lares a que a COVID-19 veio partir a espinha. As faltas já lá estavam todas: de recursos humanos, de salários dignos, de formação, de licenciamento, de transparência, de higiene, de estímulo intelectual, de qualidade. A COVID só veio dar o golpe de misericórdia.

A Direcção do CBESQ tão rapidamente diz que não podemos contactar o meu pai por falta de recursos humanos como garante que é por razões sanitárias, para sua própria protecção. Vá se lá saber porquê. No lar do meu pai, faltam trabalhadores para garantir que todos os utentes comem e bebem água. O meu pai já esteve tão desidratado que precisou de soro para não morrer. Matam-nos de tristeza, matam-nos à fome e à sede e matam-nos de confusão. Mas de COVID, não.

Hoje participei à PSP que os direitos humanos do meu pai estão a ser atropelados. Citava ao agente que me atendeu o Artigo 72.º da Constituição que diz que «As pessoas idosas têm direito (…) a condições de habitação e convívio familiar que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social». O agente, educadíssimo, respondeu-me com bonomia que «agora estamos em Estado de Calamidade» e acrescentou: «o seu pai tem COVID...».

Há quem queira que pensemos que o Estado de Calamidade suspendeu a Constituição. Há quem queira aproveitar o ensejo para matar direitos. Há quem queira uma DGS (a da Segurança, não a da Saúde) em cada esquina. Há quem queira, à boleia da pandemia, fazer-nos voltar para o dia 24 de Abril de 1974. Há quem queira o medo. Há quem queira o obscurantismo. Há quem queira a tirania. Mas eu quero falar com o meu pai.
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