Lavar as mãos da Amazónia

Ricardo M Santos 23.8.19


Quando se fala no Fundo da Amazónia, patrocinado por países ricos, convém esclarecer quem contribui para esse fundo, no caso, Noruega e Alemanha, juntamente com a Petrobras. No caso da Noruega, ainda em 2018 uma empresa mineira cujo maior acionista é, espante-se, o governo da Noruega, esteve envolvida num caso de contaminação ambiental, que tentou esconder.
De resto, recuando até 2006, o governo do Reino Unido tentou tomar conta da Amazónia, considerando que é património mundial, iniciando assim o que é o movimento eco-imperialista. Os países ricos do Hemisfério Norte a decidirem o que é melhor para a Amazónia. Sem ter em conta, obviamente, o que são os interesses dos indígenas e dos trabalhadores. Já nem coloco aqui a evidente questão da soberania e o direito dos povos à auto-determinação.
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Eu suspiro pela ditadura do proletariado

António Santos 18.8.19
As t-shirts com bandeiras americanas colavam-se aos corpos, bonés vermelhos MAGA (Tornar a América Grandiosa Novamente) saltavam como tampas de cabeças inchadas para que os seus donos recolhessem o suor, várias mulheres abanavam leques ao ritmo de música country, procurando em vão refrescar as carnes brancas, cozidas em banho-maria num estádio de Panama City, na Florida, que, nessa tarde de 8 de Maio de 2019, indicava 34 graus. E estava a aquecer. Finalmente, anunciado por uma voz histriónica como um lutador de wrestling, Trump surgiu em palco, apoteótico, engravatado e fisicamente imune ao aquecimento local e global. O comício entrou em ebulição. Perante a visão do magnata, uma enorme massa humana, com as credenciais da classe laboriosa estampadas no rosto, levantou-se. Parecia ter-se esquecido momentaneamente do insuportável calor, pegajoso e húmido. A maioria gritava «Trump! Trump!», alguns pediam a construção do muro, já outros, desactualizados, entoavam consignas pela prisão de Hillary Clinton. Igual a si próprio, o presidente garantiu ser o melhor presidente de sempre em todas as áreas da actividade humana e ridicularizou os seus adversários democratas. O público ora ria, ora aplaudia efusivamente. «Eles não param de chegar» avisou, grave, o presidente, «estamos muito preocupados, são pessoas muito más» O comício emudeceu «Estamos a construir o muro e vamos tornar a América grandiosa novamente, mas não se esqueçam: não os deixamos [os guardas na fronteira] usar armas. Não os deixamos. Outros países deixam. Nós não. Como paramos esta gente?». Alguém no público gritou: «Matando-os!». Trump riu-se. A massa humana acompanhou-o no sentido de humor.

Fazendo eco das palavras e dos risos de Trump, no dia 3 de Agosto, um fascista abriu fogo num hipermercado de um bairro latino de El Paso, no Texas, matando 22 pessoas. Num manifesto publicado na internet, o terrorista fez saber que estava a combater a «invasão hispânica». Entre 31 de Agosto e 3 de Julho, em menos de quatro dias, três tiroteios indiscriminados em Gilroy, na Califórnia, em El Paso, no Texas e em Dayton, no Ohio mataram 34 pessoas e feriram pelo menos 60. Somam-se aos 256 tiroteios em massa que ocorreram só nos primeiros sete meses deste ano, uma média de 1,2 tiroteios em massa todos os dias.

Os tiroteios em massa e o fascismo são dois sintomas da mesma patologia social. A violência fermentou um século na sociedade estado-unidense e transborda agora em tiroteios e em fascismo. A violência foi ritualizada no cinema, entornada em guerra contra o mundo inteiro, tolerada no quotidiano da polícia, justificada pelo racismo e empunhada orgulhosamente pelos pais-fundadores para escrever as páginas da História. Mas a forma de violência mais prevalecente, e a mais insidiosa, é a desigualdade que premeia todos os aspectos da vida social e política nos EUA. O descontentamento social ou é revolucionário ou é patológico e nos EUA ele transforma-se em frustração e em alienação que intensificam todas as formas de psicopatia, racismo, homofobia e xenofobia. Em Nova Iorque, o barulho de uma mota foi confundido com tiros, e milhares de pessoas atropelaram-se em Times Square numa fuga descontrolada, fazendo dezenas de feridos. O clima de pânico permanente generaliza-se, alimenta-se de si próprio e, sobretudo, favorece Trump.

Os comentários racistas de Trump encorajam os atentados que por sua vez justificam a concentração de mais poderes securitários e o fortalecimento do aparelho repressivo do Estado. Trump não é apenas cúmplice dos atentados fascistas, é o seu autor. E foi como tal que foi recebido em El Paso onde foi deixar os cínicos «pensamentos e orações». Milhares de pessoas, incluindo os profissionais de saúde que cuidavam das vítimas, protestaram nas ruas contra a presença do Presidente.

No dia seguinte ao atentado fascista, no Mississipi, o ICE, a infame polícia migratória, deteve em plena jornada de trabalho 680 operários «imigrantes ilegais». Segundo a Newsweek, desde 2016, o número de detenções de «imigrantes ilegais» em pleno local de trabalho aumentou 650 por cento. A pressão sobre os salários é directa. Dos 11 milhões de imigrantes não documentados que, segundo o Instituto Pew, vivem nos EUA, 8 milhões são trabalhadores no activo, totalizando mais de cinco por cento de toda a força de trabalho daquele país.

Os imigrantes detidos no Mississípi foram transferidos para um campo de concentração e sumariamente deportados, deixando centenas de crianças sozinhas, a dormir em ginásios de escolas ou entregues aos cuidados de vizinhos e amigos. Multiplicam-se, como um déjà-vu que provoca calafrios, os relatos de filhos de imigrantes escondidos em sótãos e caves. Há mortos por identificar em El Paso porque os familiares têm medo de ser deportados e vários órgãos de comunicação social dão nota de feridos que se recusaram a entrar num hospital. E há 11 milhões de pessoas, tantas como os portugueses, marcadas como sub-humanos, que se pode explorar, escravizar, violentar e matar livremente.

«Livremente». Voltemos comício de Trump na Florida. «Eles podem ir-se embora livremente ou podem pagar o preço. Esta é a terra da liberdade!», ironizou Trump. O comício riu novamente. E é por isso que eu suspiro pela ditadura do proletariado.
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Lucas 18:24,25

Ivo Rafael Silva 17.8.19

Temos assistido, nas últimas horas, e sem surpresa, a uma vasta procissão de carpideiras direitistas e liberais. A coberto de uma comunicação social predominantemente alinhada, lá vão derramando lágrimas e loas sobre o féretro de Soares dos Santos, o “herói nacional” e também “cristão”. Há as que o fazem porque têm o “empresário” nos altares da sua ideologia; há as que fazem habitualmente de qualquer morte a purificação de vidas pouco santas; e há, por vezes, também as que são um misto das duas. Nenhuma destas carpideiras há-de, porém, verter uma lágrima que seja pelos milhares de explorados que efectivamente edificaram o império. Nenhum direitista chorará pelos milhares de precários que, por quererem «sobreviver», construíram com o lombo a “grandiloquente” Jerónimo Martins. Aliás, é para isso que essa «massa» serve; para fazer impérios e dotar de “alma” esses imperialistas a quem possam “beijar os pés” na vida e na hora da morte. Opções. De classe, naturalmente.

Não podemos ficar admirados com os títulos da imprensa. Sucedeu o mesmo com Belmiro de Azevedo ou Américo Amorim. A bajulação a Soares dos Santos não permitirá que neste ou nos próximos dias se fale nas sombras de uma vida, afinal, tão “reluzente”. Salvo honrosas excepções, ninguém falará de Soares dos Santos como um dos grandes fomentadores da precariedade nacional das últimas décadas; ninguém falará da “meritória” estratégia assente nos contratos a prazo e nos baixos salários – preferindo-se, aliás, citá-lo em frases contraditórias e sonsas –; ninguém falará da exploração dos pequenos fornecedores, dos preços ridiculamente pagos aos agricultores nacionais, que sob pena do “nada” se vêem forçados a vender “algum”; ninguém falará da descarada fuga aos impostos com a deslocação da sede do grupo Jerónimo Martins para a Holanda; ninguém falará das provocações insanas do 1.º de Maio, dos atropelos, empurrões e do consumismo terceiro-mundista explorado por campanhas abjectas e selváticas.

O branqueamento entrou em escalada e chegou até ao quase ponto da santidade, lembrando-se “ao mundo”, nesta alvura do momento, que Soares dos Santos era, afinal, “um cristão”. Nós não sabemos muito acerca do seu “pensamento” – que nunca ficou expresso em nenhum parágrafo seu digno de ser lido – mas seria curioso saber o que pensaria ele, no âmago do seu ser “cristão”, da passagem do Evangelho de Lucas que dá título a este artigo: «Disse Jesus: Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar o camelo pelo fundo duma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus».
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O tempo dos monstros*

António Santos 27.7.19
«A crise consiste no facto de que o velho morre e o novo não pode nascer: neste interregno verificam-se os mais variados sintomas mórbidos.» Da cela onde, há 80 anos, viria a morrer, Gramsci descrevia os nossos tempos com sibilina precisão.

Donald Trump, arrais do capitalismo mundial e pontífice das ocidentais democracias à sua imagem criadas, veio a terreiro mandar quatro congressistas democratas «para a terra delas». Literalmente. O mundo, já algo dessensibilizado para os tweets de Trump, lavrou a cita nos rodapés dos noticiários e mandou arquivar, para amnésia futura, sob «Trump a ser politicamente incorrecto».

Mas Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Rashida Tlaib e Ilhan Omar são, note-se, estado-unidenses: as primeiras três por nascimento, a última por cidadania adquirida em criança. E Trump sabia-o, como também sabia que Obama nascera nos EUA, o que tampouco o impediu de, até hoje, insinuar o contrário. A nacionalidade é a mais importante arma ideológica de Trump, que se declara, aliás, «nacionalista». Na mesma tirada de tweets, Trump descreveu as congressistas como «anti-América», nação que as acusou de «odiar» e prometeu-lhes que «A América nunca será comunista», pelo que «SE NÃO ESTÃO BEM AQUI, VÃO-SE EMBORA» [sic]. Ou seja, "a América" é um país tão profundamente racista que condenar o racismo pode ser visto como odiar a própria "América".

Trump não tem, no entanto, razões para se preocupar com a possibilidade de as quatro congressistas democratas trazerem o comunismo para os EUA. As quatro são, quando muito, social-democratas que vêem na Escandinávia um modelo de "socialismo democrático" e que nem por isso deixam de assinar de cruz todas as agressões imperialistas do seu país. Os Socialistas Democráticos da América, a organização de Ocasio-Cortez, mantém relações de grande amizade e solidariedade com terroristas de extrema-direita nicaraguense, com golpistas venezuelanos e com islamo-fascistas sírios. Ou seja, as quatro congressistas, malgrado variações de intensidade, defendem a política que está na origem do racismo que tanto denunciam: o imperialismo.

Mas para o magnata, ser «americano» é uma ideologia: rezar ao mesmo deus, odiar os mesmos inimigos, venerar os símbolos nacionais, amar as forças armadas, ter medo da diferença e pertencer à «raça branca». Este, podia tê-lo escrito Gramsci, é, efectivamente, o tempo dos monstros. A ideologia nacional de Trump não é nova. Foi sendo, durante o último século, visceralmente embutida na consciência popular. Theodore Roosevelt dizia que o «americanismo» é «uma questão de espírito, convicção e dever, e não uma questão de crença ou de nascimento», mas, e Trump percebeu-o, o conceito tão moldável que com ele também se pode dividir a classe trabalhadora, ganhar eleições e construir o fascismo.

Leia-se por este prisma a guerra declarada por Trump aos trabalhadores imigrantes. O Presidente dos EUA chama aos imigrantes «violadores» e «traficantes», refere-se publicamente às suas pátrias como «países de merda», encoraja a delação dos não-documentados e celebra, ufano, «as maiores rusgas de sempre». A Casa Branca, que esta semana declarou o fim do asilo, franqueou o trilho a milhares de actos de violência nas ruas, nas escolas e nos locais de trabalho de todo o país, alargando ainda o vasto sistema de campos de concentração ao longo da fronteira com o México onde crianças são enjauladas, abusadas e, por vezes, «suicidadas». Há metade de uma América, ideologicamente americana, com cicatrizes da guerra civil, que aceita tudo isto. E é assim que alguém um dia patrioticamente faz notar que nos campos de concentração não cabem só imigrantes.

*Versão integral de um texto originalmente publicado no jornal Avante! N.º 2381 de 18 de Julho de 2019
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ERC condena: TVI mentiu sobre o PCP

António Santos 25.7.19


Dois meses de notícias, quatro aberturas de jornal das 8 e três horas de emissão em horário nobre. Foram estas as armas da TVI para difamar o PCP e o seu secretário-geral. Agora, é a Entidade Reguladora para a Comunicação Social que vem condenar a campanha anti-comunista da TVI por «incumprimento cabal (…) dos deveres de precisão, clareza, completude, neutralidade e distanciamento». «Falta de rigor informativo», «enviesamento e falta de isenção», «desequilíbrio» e «descontextualização» são as palavras com que a ERC descreve «uma reportagem marcadamente sensacionalista». Infelizmente, perante o crime, a ERC fica-se por um raspanete. Mas nós não. Apelamos a todos para que visitem a página da TVI para dar-lhe a única punição que terão a mentira e a calúnia. Digamos à TVI que não tem o direito de mentir e difamar impunemente. Usa o hashtag #Afinalsabia e o #tvimentiu.

É que, condenado o crime, mesmo com esta espúria sentença, agora impunha-se que o PCP tivesse, em jeito de direito de resposta, parte igual do tempo de antena que foi dedicado à calúnia. O espectáculo degradande da Ana Leal, André Carvalho Ramos e companhia só estaria saldado se o PCP e o principal visado, Jerónimo de Sousa, tivessem também direito dois meses de notícias, quatro aberturas de jornal das 8 e três horas de emissão em horário nobre para repor o seu bom nome. De qualquer outra forma, o crime continuará a compensar à TVI e aos seus donos.

Ontem a vítima da campanha de perseguição foi Jerónimo de Sousa, amanhã podes ser tu. Respondamos por isso, à campanha difamatória da TVI com outra campanha, popular, de condenação da mentira. Usemos as redes sociais, os fóruns telefónicos e todas as plataformas para reestabelecer a verdade. O Manifesto74 estará atento e registará aqui todas as manifestações de desagrado transmitidas à TVI.

#Afinalsabia #tvimentiu
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Abaixo o caviar, viva o kebab

Bruno Carvalho 25.7.19
Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.
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