Outra vez arroz?

André Solha 24.1.20
Pá, eu queria dizer-te isto de mansinho, mas não dá. Não dá! Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta.

"Ai mAs TeMoS dE cOnHeCeR oS dOiS lAdOs Da HiStÓrIa..."

Não, não temos, pá. Não temos. O que temos de saber é que um facínora com a nossa bandeira ao ombro espancou uma mãe à frente duma filha. Esta merda não o envergonha só a ele, não envergonha só a polícia, envergonha o país inteiro. E acontece, e continua a acontecer, uma vez, e outra, e outra, e os facínoras que fazem isto sabem que podem continuar a fazê-lo e vão continuar a fazê-lo porque a maioria da opinião pública - OU SEJA, TU - tem um respeitinho sagrado à polícia, fruto duma mentalidade de merda de submissão à repressão da lei e da farda, que 48 anos de fascismo impuseram a todo um povo. Para que é que queres ouvir o outro lado da história do brutal espancamento que lhe deixou a cara num bolo? Também fazes questão de ouvir o lado nazi do Holocausto, o lado salazarista do Tarrafal? É essa mania de merda de querer ficar a meio, em cima do muro, armado em mediador imparcial do conflito, que lhes dá espaço de manobra para fazerem o que fazem.

"Ai AgOrA tAmBéM é TuDo RaCiSmO!"

Sempre foi racismo, pá. Não havia era telefones com câmara de filmar e redes sociais. Eu lembro-me de ser chavalo e saber que um negro se suicidou na esquadra do Miratejo às cabeçadas ao lavatório: é o que consta do relatório oficial. Lembro-me de um toxicodependente ter conseguido sair da cela e se ter mandado das escadas abaixo várias vezes. A diferença entre "antes" e "agora" é que as vítimas começaram a ter voz.

"lÁ eStÁs Tu A aTaCaR a PoLíCiA!"

Acho que já te respondi a essa treta da última vez que houve um caso de violência policial. E da outra, e da outra, e da outra... Mas tu insistes sempre nessa tecla. E eu até podia aqui entrar numa conversa mais teórica, e dizer que em termos históricos e materialistas, a polícia nasce e existe como um corpo repressivo ao serviço do Estado, e que "O Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes". Podia, mas isso é conversa para outro dia. Hoje, basta dizer que condenar a actuação individual de um polícia ou da direcção nacional da PSP não é o mesmo que atacar TODOS os profissionais da polícia. Quando eu condeno acontecimentos como este e exijo que sejam punidos com mão pesada, isso também é proteger os polícias decentes de serem confundidos com os facínoras que, com a mesma farda, mancham a imagem de todos.

"mAs nÃo DeViA tEr ReSiStIdO!"

Porquê? Mas vivemos numa ditadura, num estado policial? Ninguém tem de obedecer a um polícia só porque ele é polícia. Há uns anos numa manif a polícia mandou dispersar e o meu pai disse "a Constituição dá-me o direito de me manifestar!", e o polícia respondeu "Eu quero é que a constituição se foda" e desceu o cassetete. Tu é que és obedientezinho à polícia, e se o bófia te mandasse baixar as calças e te enrabasse tu deixavas e no fim ainda agradecias. Nunca na vida ofereceste resistência a nada, nunca lutaste, nunca te manifestaste, e só por isso é que achas que és muito livre.

O escravo que não se mexe também não sente o peso das correntes.
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Sinto uma coisa pior do que vergonha. Sinto repulsa de Rui Tavares

Lúcia Gomes 21.1.20
"Senti uma coisa pior do que isso, senti a vergonha alheia dos outros.” (DN)

Esta entrevista finalmente demonstra a total falta de carácter de alguém que não tem princípios, não tem ideologia, não conhece nada a não ser uma ambição desmesurada.

Rui Tavares é o exemplo acabado do homem branco bem nascido e privilegiado. Sempre rodeado dos seus amigos influentes, vivendo à custa da imagem publicamente criada sem que lhe seja conhecida densidade que construa essa imagem, na primeira hipótese que teve de se apropriar de dinheiros públicos para seguir a sua agenda pessoal assim o fez, sempre com a bênção dos seus amigos, essa elite bem pensante que escreve nos jornais e fala na televisão.

Rui Tavares agrada as pessoas do meu “estrato”: a burguesia licenciada, cultivada, que lê o público, que pensa a sociedade, que vive relativamente sem dificuldades. “Eu sei que tu não gostas dele”, repetem, e eu repito, não é uma questão de não gostar. Rui Tavares é perigoso, não é e nunca foi de esquerda. No Parlamento Europeu posicionou-se muitas vezes bem mais à direita do CDS.

É o epíteto do liberalismo.

Rui Tavares esteve calado até agora por um motivo muito simples: viu na mulher negra e gaga um lugar no parlamento e uma subvenção. Mais uma vez, o poder. Deixou que tudo avançasse sem nunca se envolver sabendo exactamente o que acontece aos voluntaristas, particularmente a quem nunca esteve no parlamento e não lhe conhece as regras e os meandros. Não é difícil de perceber que a campanha em Lisboa foi organizada e executada por um grupo de pessoas que muito provavelmente nunca tinha feito qualquer campanha e que não passava de um grupo de amigos ou de pessoas que acreditava numa candidata - de estrutura aquilo nada tinha (dica: quem inaugura um outdoor? Quem faz um vídeo de um hino com o nome de uma candidata e homens aos beijos? Quem na noite eleitoral deixa as paredes do palco cair? Continuo?)

A partir daí foi fácil. O inesperado aconteceu: a eleição.

Foi só tirar o tapete e deixar que a inexperiência - com a preciosa ajuda da maldade dos amigos jornalistas e comentadores de serviço empolassem todas as situações (muitas delas com explicações demasiado simples) -tomasse conta do assunto. Ninguém seria tão escrutinado. Era uma questão de tempo.

Agora, como bom patriarca, tem vergonha. Está incomodado. Enquanto seguramente em casa se regozija porque tudo correu exactamente como planeado (e este “em casa” não é inocente).

Amanhã será Fernanda Câncio horrorizada, depois virá um outro qualquer e ainda mais uma do expresso a comparar Joacine e Isabel dos Santos.

Enquanto isto, dinheiro público subvenciona Rui Tavares quer através do seu partido quer no canal público. Um indivíduo que defende guerras no médio oriente, que apoia a política belicista dos EUA. Um indivíduo que sobrevive de dar a sua opinião sobre o mundo e, como já se viu, de atraiçoar de forma abjecta tudo e todos em nome do poder.

Ele sente a vergonha dos outros. Eu sinto repulsa dele.
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Género só há um. O humano e mais nenhum!

miguel 16.1.20


Depois do artigo de António Santos num jornal online sobre a chamada política identitária e sobre a utilização de marcas identitárias por parte da classe dominante para a atomização das massas e para a limitação das suas convergência, sinto-me desafiado a deixar um contributo sobre uma não menos questão dos movimentos que, um pouco por todo o mundo, vão tomando o espaço de um feminismo de classe, ocultando as reais questões que dividem no contexto capitalista o homem e a mulher.
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A vaidade de Centeno: um insulto ao país

Ivo Rafael Silva 18.12.19
Ser o «bom aluno» da Europa, ter o rótulo de «cumpridor», receber elogios do Banco Central Europeu, é (quase) tudo para isto. Chamaram-lhe o «Cristiano Ronaldo das Finanças» e ele adorou. Centeno não cabe em si de vaidade, e na ânsia de uma ainda maior dose de alimento para o ego, já não olha a meios para agradar a «soberanos». É também isto explica que, sem qualquer tipo de necessidade acrescida, o Orçamento do Estado para o próximo ano consagre mais impostos, menos poder de compra, mais injustiça social, menos equilíbrio salarial, escasso investimento público e um continuado fechar de olhos à especulação ou à sobreacumulação de capitais. É vaidade e é também pura e dura ideologia. O PS fez hoje, como sempre, uma opção política. O PS não escolheu o país. O PS escolheu a UE. Sem nenhuma surpresa, o PS escolheu o capital.

Centeno quer «bons resultados» nas tabelinhas que seguem para Bruxelas, independentemente de o que tal possa representar na prática para a vida dos portugueses. O insuportável jargão do PS do país com «contas certas» - mas despesista no que toca a injectar liquidez na banca - oculta ou secundariza tudo aquilo que de grave e penoso o povo português precisou e precisa de suportar para que sejam atingidos determinados objectivos «contabilísticos», ou determinadas «metas percentuais» nascidas do cego burocratismo capitalista. Só que Centeno não tem qualquer problema em «vergar» o povo português à «exigência» da numerologia de Bruxelas, se é isso que o seu ego «pede». Ele próprio faz parte de uma «casta» de gente privilegiada que não tem a mínima noção do que é viver com a carga de impostos que a sua bitola determina, com o salário que a sua entourage exige, com as dotações orçamentais (ou falta delas) para os serviços públicos essenciais que deficientemente ele estipula. Centeno não faz a mais pequena ideia do que é viver em Portugal com um salário mínimo ou «médio» em Portugal, mas mesmo que faça, o que a sua atitude prova – a conferência de imprensa de apresentação do orçamento roça a arrogância mais extrema – é que mais do que inconsciência, o actual ministro das finanças entrou já numa espiral de vaidade incontrolável e com propósitos pessoais e políticos que talvez só o futuro venha a desvendar.

Na situação actual, apresentar «superavit» nas contas do país não é «disciplina» nem «rigor». É uma opção política absolutamente criminosa. É trair o povo e o país para agradar ao grande capital financeiro. É insultar quem vive do seu trabalho e sobrevive com a sua pensão. É desrespeitar quem usa o SNS, os transportes públicos, quem só pode recorrer ao que (ainda) é de todos nós. A luta impõe-se hoje como sempre! Este Orçamento não passa de um instrumento do capital contra quem trabalha! Este Orçamento traduz subserviência e vaidade! A todos os títulos inaceitável! A todos os títulos inconcebível!
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A Sonsa Sina de Ser-se Santos Silva

António Santos 9.12.19
Calma Augusto, que amanhã acordas cedo. Pensa na cascata, pá. Imagina a água fria a rir por entre as pedrinhas… um gajo imagina a cascata fica logo mais relaxado. Não penses mais na Bolívia, Augusto! Esquece o Chile! Que se lixe o Equador! O que é que tu tens a ver com a Palestina? Vá, dorme sossegado… visualiza a puta da cascata.

Se agora o Ministério dos Negócios Estrangeiros começasse a fazer comunicados por tudo… Em África todos os dias os gajos matam-se às centenas e nem dá um rodapé, mas se há um golpe de Estado na Bolívia toca a vir chatear o desgraçado do Santos Silva, a perguntar porque é que estou calado enquanto um governo ilegítimo tortura e assassina. Perguntem à EU, porra! Perguntem à NATO, caramba! Vão chatear o Trump! Porque é que só me perguntam a mim?

Um gajo faz o que lhe mandam e ainda tem de levar com a esquerda a fazer comparações absurdas, entre a repressão policial no Chile e na Venezuela… Qualquer dia querem comparar a França à China. Mas cabe na cabeça de alguém, o MNE andar a imiscuir-se nos assuntos de outros Estados? O que é que o Macron ia pensar?

E depois ainda vem o Pompeo e o Netanyahu, e lá tenho de ir eu outra vez armado em Durão Barroso a servir cafés, a sorrir feito imbecil para a fotografia, a fingir que não reparei pelo canto do olho na nódoa de sangue na manga, a disfarçar os arrepios que aqueles gajos me dão, a dar pontapés no inglês à frente das câmaras. E eu ali, a pensar que aquilo é tudo treta, e que se começássemos a julgar os regimes pelas intervenções policiais já tínhamos bombardeado Paris seis vezes, imposto sanções contra o Iraque, invadido a Bolívia e imposto uma zona de exclusão aérea na Arábia Saudita. E eu ali, com um papelinho na mão sobre as «relações de amizade» a apertar a mão a um criminoso de guerra condenado pela ONU, com milhares de civis mortos no cadastro. E só me lembrava de como éramos felizes e fortes quando o Maduro recorria à polícia ou o Assad ao exército… E entretanto o Pompeu, a dizer-me assim, à cara podre, à frente das câmaras, que vai mesmo ocupar ilegalmente as margens do Jordão, e eu a sorrir um sorriso amarelo, a dizer que pronto, temos ideias diferentes, não faz mal, concordamos em discordar, não é assim que agora se diz? E eu ainda a pensar que há três anos nos juntávamos todos, a malta da NATO toda, e bebíamos e comíamos à grande e no fim sacávamos fotos e dizíamos que "Basta de violações dos direitos humanos na Venezuela", como se a gente se importasse. Como se não fosse para o lado que dormíssemos melhor se no Haiti mataram 77 ou na Bolívia 25, no Equador 8 ou no Chile 26. E eu ali, feito imbecil, sem saber muito bem porque é que “o tempo do Maduro chegou ao fim”, mas o do Piñera, que anda pelas ruas de Santiago a arrancar olhos, não.

As voltas que a vida dá: um dia estás na Liga Comunista Internacionalista, a descer a Braamcamp de braço dado com o Louçã a mandar vir com a ditadura soviética, no dia seguinte estás em Paris a falar da ditadura na Venezuela ao lado de um ministro espanhol que no dia seguinte vai rebentar à porrada um referendo em Barcelona. Pronto Augusto, tu consegues. Conta os mortos do Chile até adormeceres. Pensa na Cascata. Raios partam! Mas afinal o que é que eles querem? Sair da NATO? Dizer que se dane a UE? Fazer um manguito ao Trump? Proibir o Netanyahu de entrar? E depois? Já não estás na Liga Comunista Internacionalista, Augusto. São malhas que o PS tece. Agora o teu internacionalismo é outro: o das bombas e dos dólares. És Ministro dos Negócios Estrangeiros ou és Ministros dos Princípios Estrangeiros? Lembra-te mas é de que tens amigos poderosos e vê se descansas porque amanhã te vão perguntar como é que consegues dormir à noite.
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Uma bala é uma bala

Bruno Carvalho 4.12.19
Eu tinha acabado de chegar à rádio quando a emissão foi interrompida por uma mensagem urgente de Hugo Chávez ao país. Os acontecimentos sucediam-se em catadupa e a sensação era de que a história não era apenas uma disciplina mas algo que caminhava em cima dos ombros daquela gente. Nos bairros chiques da parte oriental de Caracas, os ricos sabiam pela primeira vez o que era ter insónias e insinuavam que as empregadas domésticas eram agentes chavistas.

Foi na cidade da eterna Primavera que viajei no tempo pela primeira vez. Não era o assalto aos céus mas era uma noite tão escura que os galos desataram a cantar quando começámos a disparar dos telhados de Caracas. Era preciso barulho, muito barulho. Havia apenas um mês que Hugo Chávez expulsara o embaixador norte-americano da Venezuela ao grito de 'vayanse al carajo, yankis de mierda, que aqui hay un pueblo digno' e o perigo electrizante de um novo golpe de Estado reclamava uma resposta à altura. Ao nosso lado, ladrava um enorme cão tinhoso que me fazia lembrar o conto de Luís Bernardo Honwana e ouviam-se foguetes por toda a cidade.

Foi no dia seguinte que conheci o Sérgio. Apresentaram-mo na livraria Divulgación. Já estava doente mas eu não sabia. Quando não estava a fumar, estava a beber café. Quando não estava a beber café, estava a fumar. Parecia um marinheiro à deriva num mar de livros e beatas de cigarros. Tinha chegado a Caracas na década de 50 e já trazia a consciência política de quem conheceu de perto a realidade da classe trabalhadora, dos pescadores e das varinas de Espinho. Chegou a conviver com António Ferreira Soares, médico assassinado pela polícia fascista, e aterrou na Venezuela como exilado político. Depois, participou no movimento cívico-militar que derrubou o ditador Marcos Pérez Jiménez em 1958 e liderou ainda o estágio militar dos membros do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) que realizaram o primeiro sequestro político de um navio contra o fascismo de Salazar e Franco.

Mas a mais bonita das livrarias de Caracas apresentava no escaparate obras que em Portugal já só viviam no letargo dos alfarrabistas, prova de que algures no tempo também nós levámos a literatura a sério. Escreveu Bertolt Brecht, há 80 anos, que eram "maus tempos para a poesia". A poucos meses de rebentar a mais sanguinária das guerras, o comunista alemão sentia-se perdido entre uma massa que dava mais valor à forma do que ao conteúdo. "Os barcos verdes e as velas alegres do Sund/não os vejo/de todas as coisas/vejo só a enorme rede do pescador".

Quando o mundo volta a rugir e a velha serpente renasce do ovo, esquecemo-nos, como nos ensinaram estes dias os colombianos, que já chorávamos antes das granadas de gás lacrimogéneo. Talvez nos custe reaprender tudo o que nos fizeram esquecer e é provável que tenhamos de superar velhos debates. Com a desvalorização da ciência, regressam os idealismos, as velhas fórmulas mitológicas e a desmaterialização do real. A obsessão com o novo cega-nos de tal forma a experiência histórica acumulada numa vertigem constante de procurar algo diferente que não reparamos que muitas vezes é o outro lado da barricada que tem de nos mostrar que pouco mudou. Uma bala, esteja ou não no carregador, é sempre uma bala. Aqui, no Chile, na Bolívia ou na Colômbia.

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