Se Trump atacar a Coreia do Norte, de que lado estás?

domingo, 5 de março de 2017

Para quem ainda não tenha reparado nas gaivotas em terra, vivemos o início da mais profunda crise do capitalismo em um século. Não sei se será a última, mas será certamente a pior. Os sintomas mais óbvios são os sinais exteriores da nossa decadência moral, cultural e política. Não é preciso ser marxista para entender que há aqui algo novo.

Um exemplo pessoal: há poucos anos trabalhava na redacção de um jornal em que me pediam para publicar uma notícia a cada 20 minutos. Quando fiz notar ao meu director que esse tempo não bastava para conhecer a realidade, verificar a informação, contrastar fontes, ler, pensar e escrever uma peça com cabeça tronco e membros, ele, um jornalista conhecido das televisões com décadas de experiência, riu-se: «Essa merda era há cinquenta anos!». Afinal, o meu trabalho era roubar notícias às agências e às redes sociais, dar uma volta ao texto para que não se notasse a origem (citar a Lusa custa dinheiro) e inventar títulos provocadores de cliques. Não durei muito tempo no posto, mas percebi que aquele director, ao contrário de mim, entendia o espírito da época.

Off-Shores - a sangria contínua

quarta-feira, 1 de março de 2017

Já não recordo o dia, mas durante uma das audições da Comissão de Inquérito à gestão do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo, quando confrontado com perguntas sobre o recurso a advogados para operações de "engenharia fiscal" e uso de contas e empresas fictícias sedeadas em paraísos fiscais off-shore, o banqueiro que estava sentado como depoente responde à pergunta: "e são normais honorários desta ordem?" (julgo que tinham sido 5 milhões pagos à sociedade em que trabalhava Ana Bruno - advogada) - da seguinte forma: "se pagámos esses honorários à advogada é porque ela nos fez poupar muito mais em despesas fiscais." A citação é feita de memória, mas anda perto das palavras utilizadas.

Da Amnésia da JSD Lisboa

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Comecemos por fazer uma citação: “Quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego, a medida mais sensata que se pode tomar [sobre a subida do Salário Mínimo Nacional] é exactamente a oposta” - Pedro Passos Coelho, 6 de Março de 2013. Sim, esse mesmo Pedro Passos Coelho. O líder do partido que está no canto inferior direito do cartaz que se queixa… dos baixos salários. O governante que, nos últimos anos, mais atacou os salários dos portugueses, mais agravou os impostos sobre os rendimentos do trabalho, mais desprezou a situação social dos jovens do país, que mais os insultou e apoucou convidando-os a emigrar ou a aproveitar as “oportunidades” do desemprego!

Já nas bancas "E OS DIAS FELIZES"

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Veneno de Ferrão

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O eurodeputado e candidato à Câmara Municipal de Lisboa, João Ferreira, desafiou a SIC e o seu sub-director, Bernardo Ferrão, a encontrar nos arquivos um pedido de demissão de um ministro por parte do PCP. Foi depois do tom de gozo usado pelo jornalista, no Jornal da Noite da SIC, num comentário ao caso Centeno, ladeado pelo sempre informado, imparcial e isento José Gomes Ferreira, em que afirmava que, noutra altura qualquer, "o PCP já estaria a pedir a demissão do ministro". A resposta ao desafio de João Ferreira surgiu em forma de vídeo, onde são apontados casos em que o PCP pede não a demissão de um ministro, mas sim de um governo; ou de ministros que integraram governos cuja demissão era exigida pelo PCP.

Ora, se tal confusão seria, talvez, tolerável perante alguém que não possui todas as informações, mais ou menos como os profissionais das caixas de comentários do Facebook, não me parece que o seja quando consideramos alguém com a responsabilidade de Bernardo Ferrão. Ou talvez se explique devido ao sub-acompanhamento das iniciativas do PCP por parte da SIC, fazendo com que não esteja bem por dentro do que é a postura do PCP. Hoje mesmo, quando se discutia a contratação colectiva no parlamento, pudemos ouvir em directo, na SIC Notícias, uma curta passagem de uma intervenção do ministro Vieira da Silva. Mas também, quem quer saber a posição do partido que promove o debate?

Arrume a sua inteligência: o Observador tem um artigo para si

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Por que razão nos espanta ainda o Observador? Por que motivo nos abalançamos ainda, cheios de pasmo ou indignação, sobre “conteúdos” que nem sabemos muito bem se na verdade são escritos se vomitados? Lamento, mas não tenho resposta. Sei que me senti hoje particularmente “brindado” com a partilha ostensiva de um artigo que é meio textual e meio fotográfico e cujo título efectivamente promete: «Arrume os livros de História. Há 20 factos históricos que não nos ensinam na escola».

Lá prometer, promete, mas como diria um famoso sketch «vai-se a ver e aquilo é só estupidez». Ou pior. Ora, que factos históricos tão relevantes serão afinal esses que, na óptica do Observador, ou de quem escreveu tão reluzente pérola, nos obrigarão a «arrumar os livros de História»? Que nos terão escondido os professores e historiadores até hoje? Que novas descobertas científicas terão ocorrido entretanto? Que novos e reveladores documentos, inéditas teses, revolucionários ensaios nos estarão aqui escapar? Podemos desconfiar, podemos pensar até no crivo censório do antigo regime – causa maior da ignorância histórica actual – ou podemos mesmo não saber o que faltará de tão relevante ao nosso conhecimento sobre o passado e ao ponto de termos que deitar ao lixo, ou «arrumar», todos os nossos “livros de História”. Podemos não saber, mas o Observador sabe.