Santos Silva abriu a boca e não entrou mosca

Ivo Rafael Silva 10.4.19
O ministro português dos negócios estrangeiros voltou a abrir a boca. Sim, é Santos Silva, e todos sabemos o “desconto” que lhe deve estar associado, mas mesmo assim a sua queda para a imbecilidade nunca cessa de se manifestar e de atingir, a cada nova tirada, sempre novos e mais altaneiros patamares. A verdade é que Santos Silva tem sido muito mais que um ministro de negócios estrangeiros. Fazendo eco da sua rancorosa aversão a partidos, movimentos ou governos de esquerda, ele tem ocupado, pela via agravada da oficialidade do cargo, a linha da frente do propagandismo anti-venezuelano nacional e europeu. Santos Silva, usando e abusando do palco que tem por inerência de funções que vergonhosamente ainda exerce, faz constantes ataques, ora velados ora directos, a um governo e a um estado soberano e independente. Perante o silêncio condescendente de Costa e Marcelo, o que também não espanta.

Já vimos Santos Silva em toda a sua hipocrisia, sonsice e cinismo, apertando a mão, sorridente, a Maduro, ao mesmo tempo que procurava espetar-lhe uma faca nas costas. Já vimos, ouvimos e lemos as suas declarações patéticas e até histéricas sobre a Venezuela que quer “pintar”, para além daquela que verdadeiramente existe. Mas desta vez, Santos Silva chegou ao nível do grotesco e da perversão. Numas declarações quase inacreditáveis – afinal, é apenas e só Santos Silva – o MNE português chega ao ponto de dizer que “não há registo de óbitos” em relação directa com a situação de crise na Venezuela, mas“certamente que haverá entre os óbitos alguns que poderiam ter sido evitados se as condições de saúde fossem melhores”. Repito: seria inacreditável que um MNE dissesse uma irresponsabilidade e uma tirada de tamanha perversidade, se ela não viesse precisamente de quem veio. Santos Silva não se mede e não se topa. Já vale tudo, até trazer à liça hipotéticas mortes que ele sabe que não existem. Além do mais, rematando com uma frase que tanto podia ser dita na Venezuela como em Portugal: se as condições fossem melhores, evidentemente, também não havia tantos mortos no Portugal do governo do senhor Santos Silva ou noutro lado qualquer.

Mas convinha, de facto, continuar por aí. Se as condições fossem melhores, teríamos um governo a sério, com política externa soberana e independente, não um conjunto de burocratas vergados e obedientes a Bruxelas e a Donald Trump. Se as condições fossem melhores, por arrastamento, teríamos um Ministro dos Negócios Estrangeiros a sério, e não um provocador de meia tijela, não um lacaio do imperialismo, muito menos um direitista encapotado. Se as condições fossem melhores, Santos Silva não só já não era MNE, com não era ministro de nada nem de coisa nenhuma. É que, apesar de não termos registo da “morte política” de Santos Silva, “certamente que ela existirá” e que “poderia ter sido evitada se as condições fossem melhores”. Mas, por enquanto, não são. Até ver.