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Ser escritora no país da austeridade, por Ana Margarida de Carvalho

segunda-feira, 15 de junho de 2015

9 Série "Ser no país da austeridade"


Escrever em tempos de cóleras e outras pestilências

Parece que, na Grécia antiga, ir ao teatro era tão importante como um dever de cidadania. Por isso o estado atribuía subsídios para que ninguém faltasse. Dizia-se que os professores ensinam as crianças e os poetas os adultos.

Ser arquitecta no país da austeridade, por Joana Pereira

segunda-feira, 11 de maio de 2015

8 Série "Ser no país da austeridade"


É bom projectar a cidade, projectar o habitar, projectar cada espaço que serve o ser humano… para mim e para nós é uma função primordial, pois é presença constante em tudo no nosso quotidiano e que gera não só relações lógicas de vivência dos espaços, como também cria o património do amanhã.

É bom projectar, ser criativo e ter ideias para ajudar a solucionar problemas, as pessoas dizem; “oh arquitecto, como é que eu nunca me tinha lembrado disso antes?”, “oh arquitecto, era mesmo isto que eu queria”, “oh arquitecto precisava disto”, “oh arquitecto o que acha daquilo”. E é bom quando isso acontece, significa que de uma forma ou de outra o reconhecimento do nosso trabalho vai ganhando terreno. Mas infelizmente nem sempre isso acontece… e é então que me pergunto, porque continuamos nós sem uma tabela de honorários fixa e actualizada que possa defender estes arquitectos, que já vulneráveis às desculpas de uma suposta crise, não têm algo que os unifique e proteja… Desta forma, e desculpem a expressão, irão continuar a deitar-se muitas calças abaixo para que se consiga algum trabalho que coloque pão na mesa…

Ser técnico superior no país da austeridade, por Luís Capucha Pereira

segunda-feira, 4 de maio de 2015

7 Série "Ser no país da austeridade"


Sou o Luís, tenho 34 anos, e dizem que sou um privilegiado. É o que me fazem crer, e a realidade, muito sem eu querer, obriga-me a anuir – tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições. Nunca ganhei muito, mas o salário nunca atrasou.

No entanto, desde 2008 que não tenho aumentos. Um terço do meu salário esvai-se em impostos diretos. Já não era bom, mas tem piorado, fruto da sobretaxa de 3,5% em IRS, do aumento dos descontos para a ADSE, eu sei lá!, até tenho medo de olhar para o meu recibo de vencimento…
Como sou um privilegiado, impuseram que trabalhasse 40h semanais como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou um privilegiado, impuseram que tivesse 22 dias de férias, e não 25, como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou privilegiado, retiraram-me quatro feriados – um privilégio para todos os trabalhadores portugueses: esses privilegiados de grau diverso. (É preciso… pois!) Tenho a minha carreira congelada e, quando descongelar, sei que vou demorar 10 anos para progredir um pouquinho, para esperar mais dez anos para progredir mais outro pouquinho e, assim, de dez em dez anos, até à reforma cansada (com sorte e o colesterol controlado talvez dure além da esperança!).

Ser enfermeiro no país da austeridade, por Mário A. Macedo

segunda-feira, 27 de abril de 2015

6 Série "Ser no país da austeridade"


6H00. O despertador faz eco pelo quarto. Acordo num sobressalto, sem saber ao certo o que se passa. Faz já 3 semanas desde a última folga. O corpo já pede descanso, mas arrasto-me para fora da cama para mais um turno. Desde que a “crise” começou que somos cada vez menos, rara é a semana que não há notícia de mais um colega a fazer as malas e a emigrar para o Reino Unido, Irlanda, França, Suíça… Só no período 2010-2014 foram mais de 10.000 colegas a fugir de país que não oferece ordenado condigno, que não oferece carreira, que não oferece um trabalho... que não oferece um futuro! Destas dezenas de milhares de enfermeiros, apenas uma fracção foi substituída, cabe a quem fica trabalhar por 2 ou 3. Não deixa de ser incompreensível esta situação, uma vez que é na enfermagem onde encontramos uma das mais altas taxas de desemprego, superior a 50% entre os recém-licenciados!

Ser técnico de manutenção de aeronaves no país da austeridade, por João Silva

terça-feira, 7 de abril de 2015

5 Série "Ser no país da austeridade"


Nos hangares da TAP o ambiente é de apatia e descontentamento. Os trabalhadores cumprem as suas tarefas com o rigor de sempre (que ainda hoje garante que seja a terceira companhia aérea mais segura de toda a Europa), mas sem o empenho de outros tempos. À medida que a privatização paira sobre nós, a força e a união de todos aqueles que lutaram para defender esta empresa parece esbater-se, como se tudo o que foi feito ao longo destes anos tivesse sido em vão.

Entre os que trabalham connosco, mesmo entre os mais velhos, já não existem muitos que tenham vivido o 12 de Julho de 1973, quando a polícia de choque entrou pelos portões da empresa adentro: 5000 operários que se manifestavam pacificamente em prol dos seus direitos foram selvaticamente corridos à cacetada, num acto de desafio à ditadura, ainda 9 meses antes do 25 de Abril. Muitos há, no entanto, que se recordam do dia 29 de Outubro de 1993, quando trabalhadores da manutenção invadiram a pista do aeroporto na reivindicação de salários por pagar, sendo vulgarmente reprimidos pelos bastões da autoridade. Já não era Marcelo Caetano quem governava, mas sim Cavaco Silva, que quando entrevistado em Bruxelas sobre os acontecimentos defendeu a acção das forças policiais, preferindo “beber champanhe à união europeia” do que comentar em profundidade o sucedido.

Ser arquitecto no país da austeridade, por Tiago Mota Saraiva

quarta-feira, 18 de março de 2015

4 Série "Ser no país da austeridade"


 Fotografia de Cláudia Lima da Costa
Em Dezembro de 2015 passará vinte anos desde que comecei a trabalhar num atelier de arquitectura. Era estudante e nesse tempo eram poucos os estudantes que não acumulavam a escola com o início da profissão.
Terminado o curso, em 2000, decidi emigrar. Mas não foi um emigrar como os de agora, que mais parece um exílio. Como tantos outros colegas parti por uns anos na certeza de regressar no momento em que decidisse.

Preparado o portfolio enviei candidatura para oito ateliers de arquitectura e lancei-me num interrail pela Europa em que fui visitando amigos e fazendo entrevistas de trabalho.

Fiquei por Roma. Dois anos. Tive a minha dose de arquitecto-estrela. Projectávamos para todo o mundo com orçamentos galácticos. Fazíamos concursos de arquitectura como poucos, produzíamos como uma intensa fábrica de ideias, poucas eram as noites em que as luzes do atelier se apagavam – nunca mais consegui/quis fazer uma directa a trabalhar depois daqueles anos. Na fábrica vi passar muita gente. Quando anunciei o meu regresso a Portugal era o quinto arquitecto mais antigo da empresa (sim, tínhamos contratos!) e coordenava equipas de trabalho com gente com mais dez anos que eu. Estava com 25 anos.

Regressei para construir uma vida. Mas a tarefa não se afigurava fácil.

Ser músico no País da Austeridade, por Tiago Santos

segunda-feira, 16 de março de 2015

3 Série "Ser no país da austeridade"


Toda a gente sabe que os músicos são um empecilho para a sociedade, a não ser que alguém deles consiga fazer um bom dinheiro. São irreverentes, preguiçosos, e usam demasiados palavrões. Para muitos deles a vida só não é um cabaret porque são as suas próprias vidas que fazem mover o cabaret. Os risos, as palmas, o convívio, os ensaios, a dança, a orquestra que só respira quando toca ao vivo, a voz que só acorda para poder cantar.

Mas na música, para a maioria dos músicos o espectáculo fecha-se com a última luz. De trás do palco em diante, os acordes de canções, as palavras de amor e raiva, são substituídas pelo cansaço de uma vida de risco. Sim, sabemos que a crise e a precariedade sempre cá estiveram, mas que agora se agrava ainda mais com o desemprego e os cortes a assaltarem também as casas e as famílias, onde antes ainda se escondia alguma segurança.

Ser actriz no país da austeridade, por Luisa Ortigoso

quarta-feira, 11 de março de 2015

2 Série "Ser no país da austeridade"


COISAS DO GLAMOUR

Quando aos 12 anos, numa reunião de família, me perguntaram o que queria ser no futuro, respondi com a certeza da adolescência: “Actriz, vou ser actriz!”. Toda a gente se riu. E eu resolvi que nunca mais ia falar sobre o assunto. E não falei.

O cheiro do teatro colava-se a mim de uma forma que tornava o caminho inevitável.

Ser médico no país da austeridade, por Cristiano Ribeiro

segunda-feira, 9 de março de 2015

1Iniciamos hoje a série "Ser no país da austeridade"  
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.