As críticas ao Ventura

André Solha 20.5.19
André Ventura falta a um debate entre cabeças de lista às eleições europeias para participar num programa da bola e rimo-nos dele. André Ventura diz “Eu digo em voz alta o que as pessoas dizem nos cafés” e rimo-nos dele. De certeza que houve uns gajos na Alemanha dos anos 20 que também se riram daquele tipo enfezado e histriónico que liderava o NSDAP. Calculo que tenham perdido a vontade de rir quando bateram com os costados em Buchenwald.
Devia servir-nos de exemplo que limitarmo-nos a rir dos fascistas não é a melhor estratégia para os vencer. E atenção: eu também me rio do Ventura, mas tenho consciência de que isso pode ser contraproducente.

Mas adiante: o Ventura faltou ao debate das Europeias porque sabe que não ia lá ganhar votos. Mais; sabe que se lá fosse arriscava-se a que o seu discurso populista fosse exposto como um apanhado de ideias feitas sem programa ou projecto que o sustente. Mas no programa da bola ele expõe-se à vontade, sem o contraditório de um debate formal. Publicita-se. E para um populista isso basta; para um populista as eleições são um concurso de popularidade, e portanto basta que gostem dele, seja por dizer que é muito católico, que quer fazer a América grande de novo ou que quer acabar com a corrupção. Além de que comparecer ao programa da bola em que aparece regularmente lhe permite dizer que é uma pessoa que honra os seus compromissos e valoriza o seu ganha-pão. E isto dá-lhe crédito popular.

O Ventura diz que diz em voz alta o que é dito nos cafés porque isso lhe dá votos. Há anos que a cultura dominante incute no povo que a política é uma coisa de cúpulas, em que uns senhores com estudos decidem lá do alto o que é melhor para nós todos. E às tantas aparece um gajo (ou seja, a comunicação social decide que é hora desse gajo aparecer) que lhes diz que a sua opinião, aquela que até aqui estava circunscrita à mesa de café, é válida. E de novo: isto dá-lhe crédito social.


Como dizia o Ricardo M Santos há uns dias: quando falamos de André Ventura é bom recordar que foi o candidato apoiado por PSD e PP à Câmara Municipal de Loures, apoiado por Pedro Passos Coelho mesmo depois das declarações que fez sobre a comunidade cigana. Que foi candidato à liderança do PSD. Que além de comentador desportivo é (ou foi) professor auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa e professor convidado na Faculdade de Direito, que é doutorado, etc. A sua formação académica e os cargos que assume na academia não são negativos por si. Mas a sua consciência de classe acompanha a sua natureza, e ele fez uma opção clara pela burguesia. Pelo que o seu discurso populista é apenas um engodo e não uma adesão à defesa do interesses do povo e do país.

André Ventura diz que teve uma origem humilde, diz-se muito cristão, muito benfiquista e muito do povo. E dirá seja o que for desde que isso lhe traga votos.

E traz. Ouço com frequência pessoas a reagir ao Ventura como reagiram há uns anos ao Marinho e Pinto. Que é um gajo que “diz as coisas como elas são”, “umas boas verdades”. Em suma, que “é um gajo à séria, vou votar nele”. E se continuarmos a rir do Ventura, vão mesmo. Quando nos rimos da fachada popular do Ventura, há uma quantidade enorme de gente que se identifica com ele e sente que também é de si que nos estamos a rir.

O que o Ventura precisa de saber, e precisamos de ser nós a dizer-lho, é que nas mesas dos cafés há muito mais dignidade do que a que ele tem, e que as conversas são muito mais sérias do que o seu populismo de merda. Que se fala da bola, mas também se ouve aquela velhota a lamentar a pensão de miséria que recebe e que a obriga, no balcão da farmácia, a escolher quais os medicamentos que pode aviar. Que se queixa o pai que, cigano ou não, recebe o RSI e tem três filhos para alimentar, mas já ninguém dá emprego a um analfabeto. O trabalhador, indignado porque os seus impostos servem para salvar bancos e financiar os Berardos desta vida, mas não servem para meter mais dois ou três médicos no centro de saúde.

O que é urgente é dizer a toda a gente que o Ventura não passa de um balão de ar quente; que o seu discurso popular é uma farsa; que o fato que traz no pêlo custa mais do que um salário médio; que nos anos da troika ele esteve de pedra e cal com quem nos apertou o cinto; que ele só saiu do PSD porque, tal como Santana Lopes, não ganhou a corrida à liderança.

Mas que se tivesse ganho, o PSD continuaria, como sempre, ao serviço dos interesses do capital, e que agora com o seu BASTA/CHEGA, continua ao serviço dos mesmos interesses. É urgente dizer a toda a gente que vê no Ventura uma saída do mais-do-mesmo na política é que essa saída, a única saída, é aquela que é construída activamente pelos trabalhadores, pelo povo, pelos explorados; e que essa saída é o PCP e a CDU.

E é urgente que o façamos agora, antes que o Ventura – ou o cavalo em que o capital apostará caso o Ventura falhe – tenha o seu Buchenwald à nossa espera.

“Sou eu que vos pago o ordenado!”

André Solha 15.5.19
… e outras tiradas do mesmo calibre. É isto que os trabalhadores do Estado têm de aturar. Nem todos, claro. No país do respeitinho (que é muito bonito!) os polícias estão acima de suspeita ou crítica. Mas são os únicos. Todos os outros são “chulos” e andam a “mamar na teta do Estado”. É mais ou menos esta a opinião publicada, reforçada até à exaustão pelos órgãos de comunicação social e por sucessivos governos que usam a estratégia de semear discórdia entre trabalhadores de diversos sectores como forma de fugir à contestação social.

“Há dois salários mínimos, um no público e outro no privado!”

Não, não há. Salário Mínimo Nacional há um, que é apenas 600€ porque o governo decidiu despachar a discussão desse valor para a Concertação Social, onde se sentam dois representantes dos trabalhadores, dois lacaios e quatro patrões. Na função pública o que há é uma base de tabela salarial de 635,07€ para a carreira de Assistente Operacional. Não há nem tem de haver qualquer relação entre os dois valores: uma coisa é o valor que o Estado burguês deixa que os patrões paguem. Outra é aquilo que através da sua luta os trabalhadores arrancaram ao patrão-estado.

“Também quero ter ADSE!”

Pois. E eu também queria entrar para o pote de Euromilhões daquela malta cheia de sorte. Mas não dá, a ADSE é um subsistema de saúde criado pelos trabalhadores e financiado na totalidade pelo desconto de 3,5% do salário dos trabalhadores do Estado. É um subsistema criado pelos trabalhadores do sector e para os trabalhadores do sector, resultado da forte sindicalização e unidade na luta.

“Trabalham menos horas!”

Verdade. Mas já trabalhámos todos o mesmo tempo. 7 horas de trabalho mais 1 hora de refeição. Entretanto os patrões do privado decidiram fazer o entendimento que o horário de 8h era de 8h de trabalho, e a hora de refeição deixou de contar. Uma vez mais, quem se sente injustiçado deve dirigir a sua indignação não contra os trabalhadores do Estado, mas contra os seus patrões.

“Trabalham pouco e ganham muito!”

A média salarial nas carreiras gerais da função pública é inferior à média nacional. E dentro das carreiras gerais, os mais mal pagos são os assistentes operacionais. O que significa que os trabalhadores que pior recebem no Estado são os gajos que asseguram que toda a gente tem água potável em casa bastando para isso rodar uma torneira. São os trabalhadores da varredura e da recolha de resíduos sólidos urbanos, que constituem a primeira linha de defesa da saúde pública. São os calceteiros, os pedreiros, os serralheiros, etc. Parafraseando o Galeano, são os gajos que fazem o mundo - ou que pelo menos fazem dele um lugar habitável.

“Os professores ganham bem e ainda se queixam!”

É verdade que têm uma remuneração média acima da média nacional. Mas também é verdade que são o sector profissional mais qualificado, levam trabalho para casa – os testes não se preparam nem se corrigem sozinhos – e que têm nas mãos a responsabilidade enorme de formar as gerações futuras.

E assim voltamos ao início: “Sou eu que vos pago o ordenado”

Não, não és. O nosso ordenado quem no-lo paga é o nosso trabalho. E o nosso trabalho é assegurar os serviços públicos e as funções sociais do Estado. De nada.

Esta deformação da opinião pública tem autores e tem objectivos. Semeando a discórdia, a classe dominante consegue que os trabalhadores do Estado percam a solidariedade dos restantes sectores. E sem essa solidariedade, pode ser adiada ad aeternum a regulamentação do subsídio de insalubridade, penosidade e risco. Podem cortar-se subsídios de férias e Natal. Podem congelar-se admissões e progressões. Podem privatizar-se serviços. Podem ser mantidos com baixos salários os trabalhadores de um sector com uma elevada taxa de acidentes de trabalho e doenças profissionais.

E pôde-se, no passado dia 10 de Maio, mas que mais parecia 24 de Abril, cortar-se a passagem a uma manifestação da Frente Comum com duas carrinhas do corpo de intervenção, “por motivos de segurança”, sem que nada o justificasse. Os representantes eleitos por milhares de trabalhadores foram até impedidos de montar um palanque e discursaram de cima de uma escada. Tudo isto na mesma semana em que o descongelamento dos 9 anos, 4 meses e 2 dias dos professores foi novamente recusado pela direita, em que se perdoaram 116 milhões de euros de dívida a um milionário, em que o pulha do Berardo foi à Assembleia da República por a nu a natureza de classe do Estado burguês.



Chaplin: o cinema e a necessidade de transformar o mundo

Lúcia Gomes 20.4.19
charlie-chaplin
Charlie nasce a 16 de Abril de 1889 em Londres. Filho de um actor e de Hannah (conhecida nos palcos como Lili Harley), uma encantadora actriz e cantora, Charlie passa a sua infância na inenarrável pobreza londrina. A morte do pai e a doença mental da mãe deixaram-no com o seu irmão Sidney, de quem foi, aliás, separado, a lutar pela sobrevivência.

Nem uma União Europeia para os fascistas.

miguel 15.4.19
Na iniciativa de convívio com apoiantes da Coligação Democrática Unitária (CDU) realizada segunda-feira, dia 15 no Centro de Trabalho Vitória e que contou com largas dezenas de participantes, João Ferreira, primeiro candidato das listas para o Parlamento Europeu, dirigiu-se aos amigos presentes com um agradecimento, mas também com justas considerações sobre o papel dos comunistas e aliados no contexto actual.

Aliás, o candidato não se limitou a fazer um discurso de mobilização, mas também um discurso de alerta e de luta. A consideração fundamental do camarada assentou na valorização da política alternativa proposta pelo PCP e pela CDU mas avançou para uma questão ideológica sobre o fundo político da actual situação política.

Tavarish e o seu pequeno mundo

Ricardo M Santos 11.4.19

"Por acaso, foi uma ideia minha", dizia, em 2015, Passos Coelho sobre a utilização de fundos de pensões gregos para capitalizar a banca daquele país. Quatro anos depois, Rui Tavares, o Pequeno Gigante da Esquerda, revela, numa entrevista ao portal Notícias ao Minuto que, por acaso, "houve Geringonça porque fizemos muito trabalho para isso" e, numa entrevista à Lusa, no mês passado, considera-se mesmo pai espiritual da atual situação governativa: "Rui Tavares assinala, porém, que os dirigentes do Livre sempre foram conhecidos como “os pais espirituais da geringonça.

Obviamente, o país esperava pela ideia de Rui Tavares e já imagino, nas reuniões bilaterais entre os partidos, os suspiros e agradecimentos a Rui Tavares, virados para os céus pelo envio do novo messias, para ser possível inverter o ciclo de miséria que estava a ser traçado por PSD e CDS. Importa relembrar que Rui Tavares saiu de um partido para fundar um partido para unir os partidos.

Na mesma entrevista, Tavarish afirma que "todos os partidos instalados na política portuguesa têm esse medo [do Livre]". E é verdade. Há noites em que não se dorme, à espera que Tavarish volte a dar-nos, por exemplo, tarefas urgentes para antifascistas, porque andamos todos aqui à nora e isto é um fenómeno novo, nunca antes visto.
Tavarish vai mais longe e refere mesmo que "é verdade que outros que tentam empurrar o Livre para as boxes, que tentam que ele não seja ouvido, que tentam ele não possa falar ao grande público, têm muito medo disso". Tavarish é dono de um partido que teve em 2015, em coligação com o Tempo de Avançar, 0,73% dos votos (39.340).

Em 2014, nas Europeias, valeu 2,18% (71.602 votos). E queixa-se Tavarish de que está subrepresentado na imprensa. O Rui Tavares sozinho tem mais presença mediática do que todo o PCP junto. Vamos ao absurdo de o facto de uma dirigente do Livre abrir um restaurante ter sido notícia, com o seguinte título: "Safaa Dib. A dirigente do Livre abriu um restaurante libanês". Estão a imaginar o título "Manuel da Silva, o dirigente do PCP que abriu um restaurante", não estão?

À boleia da TSF e do programa "Uma questão de ADN", a mesma dirigente esteve, na passada semana, a falar sobre o seu projeto. Obviamente que o facto de ser candidata à Assembleia da República não tem nada a ver com este acompanhamento mediático e o seu lançamento. 

No entanto, Tavarish queixa-se e, mais grave, acha que mete medo seja a quem for, à esquerda. É esta bolha urbana de quem se move em determinados meios que não só prejudica a esquerda como, no caso, o meio da esquerda. Que acha que, mesmo com a presença mediática que tem, merece mais, porque é o Rui Tavares. É este o seu pequeno mundo, e os seus devaneios sobre uma espécie de federalismo europeu, que transpõe para aquilo que é a realidade que o rodeia. E só essa. Lá fora, o mundo é outro. Tavares segue e vai ao colo da imprensa sem perceber que não anda pelos próprios pés.

Santos Silva abriu a boca e não entrou mosca

Ivo Rafael Silva 10.4.19
O ministro português dos negócios estrangeiros voltou a abrir a boca. Sim, é Santos Silva, e todos sabemos o “desconto” que lhe deve estar associado, mas mesmo assim a sua queda para a imbecilidade nunca cessa de se manifestar e de atingir, a cada nova tirada, sempre novos e mais altaneiros patamares. A verdade é que Santos Silva tem sido muito mais que um ministro de negócios estrangeiros. Fazendo eco da sua rancorosa aversão a partidos, movimentos ou governos de esquerda, ele tem ocupado, pela via agravada da oficialidade do cargo, a linha da frente do propagandismo anti-venezuelano nacional e europeu. Santos Silva, usando e abusando do palco que tem por inerência de funções que vergonhosamente ainda exerce, faz constantes ataques, ora velados ora directos, a um governo e a um estado soberano e independente. Perante o silêncio condescendente de Costa e Marcelo, o que também não espanta.

Já vimos Santos Silva em toda a sua hipocrisia, sonsice e cinismo, apertando a mão, sorridente, a Maduro, ao mesmo tempo que procurava espetar-lhe uma faca nas costas. Já vimos, ouvimos e lemos as suas declarações patéticas e até histéricas sobre a Venezuela que quer “pintar”, para além daquela que verdadeiramente existe. Mas desta vez, Santos Silva chegou ao nível do grotesco e da perversão. Numas declarações quase inacreditáveis – afinal, é apenas e só Santos Silva – o MNE português chega ao ponto de dizer que “não há registo de óbitos” em relação directa com a situação de crise na Venezuela, mas“certamente que haverá entre os óbitos alguns que poderiam ter sido evitados se as condições de saúde fossem melhores”. Repito: seria inacreditável que um MNE dissesse uma irresponsabilidade e uma tirada de tamanha perversidade, se ela não viesse precisamente de quem veio. Santos Silva não se mede e não se topa. Já vale tudo, até trazer à liça hipotéticas mortes que ele sabe que não existem. Além do mais, rematando com uma frase que tanto podia ser dita na Venezuela como em Portugal: se as condições fossem melhores, evidentemente, também não havia tantos mortos no Portugal do governo do senhor Santos Silva ou noutro lado qualquer.

Mas convinha, de facto, continuar por aí. Se as condições fossem melhores, teríamos um governo a sério, com política externa soberana e independente, não um conjunto de burocratas vergados e obedientes a Bruxelas e a Donald Trump. Se as condições fossem melhores, por arrastamento, teríamos um Ministro dos Negócios Estrangeiros a sério, e não um provocador de meia tijela, não um lacaio do imperialismo, muito menos um direitista encapotado. Se as condições fossem melhores, Santos Silva não só já não era MNE, com não era ministro de nada nem de coisa nenhuma. É que, apesar de não termos registo da “morte política” de Santos Silva, “certamente que ela existirá” e que “poderia ter sido evitada se as condições fossem melhores”. Mas, por enquanto, não são. Até ver. 

Montepio: a importância de ser associado

Lúcia Gomes 25.3.19
Têm sido rios de tinta os que correm sobre a maior Associação Mutualista do país. Ao longo de anos, uma sombra abateu-se sobre a história, a memória e a ação de uma instituição que deveria ser um farol de solidariedade social, de complementaridade das funções sociais do Estado, de transparência de isenção.

O cozinheiro Kiko e as fake news

Ricardo M Santos 6.3.19
Hoje debate-se, no Parlamento, a desinformação. Há uns dias, a Agência Lusa organizou uma conferência sobre fake news. Do que ouvi, tirando o Paulo Pena, foi muito pouco relevante e continua a haver um discurso redondo dentro dos próprios profissionais da área da comunicação social: Os media têm de combater as fake news, mas não refletem no papel que desempenham na disseminação de fake news. Uma oradora usou mesmo, na sua apresentação, um print de uma notícia falsa publicada pelo Expresso, sobre uma suposta diretiva de Bruxelas (imagem daqui). Nicolau Santos, jornalista e administrador da Lusa, referia no evento que "o que se pratica nas redes sociais não é jornalismo, feito segundo os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados". Em 2004, no entanto, "os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados" permitiram ir para a neve às custas do BES, cuja lista de jornalistas avençados continua em segredo. Mais tarde, em 2012, o mesmo jornalista lançou para o estrelato Batista da Silva, um especialista da ONU, quando, afinal, Batista da Silva era ninguém. Há, assim, aqui vários pontos interessantes a considerar, que, creio são relevantes para atendermos ao estado dos media em Portugal.

Pluralismo
Não há jornalismo sem jornalistas e a concentração de órgãos de comunicação social como propriedade de meia dúzia de grupos económicos é um fator determinante para o fim da pluralidade. Os mesmos jornalistas escrevem para o grupo e não para o OCS, pelo que, obviamente, não são precisos tantos jornalistas. É a lógica do mercado. Menos jornalistas, o mesmo trabalho, mais receita. Associada a isto, vem a precariedade. Menos jornalistas nos quadros, mais receita, o mesmo trabalho. No entanto, o mesmo trabalho é pior do que seria se fosse feito por mais jornalistas. Por isso, é essencial que haja redações com jornalistas e jornalistas com direitos. Sem isso, não há jornalismo. Há a repetição acrítica de notícias - verdadeiras ou falsas com base em agências de agências de agências.

Tempo
O tempo do jornalismo não é o tempo das redes. Ou, então, o jornalismo deixa de ser jornalismo e passa a ser parte das redes com tudo o que têm de bom - a informação ao segundo - e de mau - a informação falsa ao segundo. Aqui segue um exemplo:















Na verdade, a ponte bloqueada por militares a que se referem todas estas notícias, nunca foi inaugurada nem esteve em funcionamento, como se verifica nesta peça do La Opinión.

No entanto, a notícia foi acriticamente replicada pelas redações dos principais órgãos de informação portugueses. Passou a ser verdade perante a opinião pública. Do mesmo modo, o Observador avançava com a seguinte notícia:


A imagem é verdadeira. O Observador nunca reconheceu o erro.


A TVI noticiava, falsamente, que o PCP atacava a greve dos enfermeiros quando, na verdade, se referia à chantagem dos privados sobre a ADSE. À hora a que escrevo, o post da TVI continuava online.


























Herrar é umano
Partindo dos exemplos anteriores, a reflexão continua a não ser feita pelos próprios em torno das notícias falsas que divulgam. Nas semanas recentes, são muitos os exemplos, nomeadamente em relação à Venezuela. Onde é que fica aqui a autocrítica? Qual deverá ser o seu papel quando erram? Porque é que custa admitir o erro? Quando foi feita a autocrítica e a reflexão em relação ao que (não) eram as armas de destruição massiva no Iraque, que nos foram dadas como verdadeiras? Dos Capacetes Brancos na Síria, que nos apresentavam como sendo os rebeldes moderados mas que, como foi dito tantas vezes por tanta gente, não eram mais do que elementos financiados pelos EUA através da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que estão agora a ser mobilizados para o Iémen? Que, de resto, ninguém se lembra.
Hoje mesmo, o site da revista Sábado revela a mirabolante história do cozinheiro Kiko, que seria autor do primeiro prato a ser cozinhado em Marte, vencedor de um concurso da NASA. A história apareceu na TVI, no 5 para a Meia Noite, no Observador e na inevitável Cristina. Para isso, o cozinheiro só precisou de escrever um comunicado que enviou às redações. Estas seguiram-no. Não investigaram, não questionaram. Já sabemos o papel das redes na desinformação. Talvez seja altura, como referi, de se discutir o papel da Comunicação Social na disseminação de desinformação.

Contrapoder
O jornalismo tem de ser contrapoder. A partir do momento em que passa a movimentar-se nos corredores do poder e tem como ambição lá chegar, acaba o jornalismo e começa outra coisa qualquer. Recordemos, por exemplo, o caso do Diário de Notícias, cuja lenta agonia há de levá-lo a desaparecer de vez e, paradoxalmente, talvez seja também este o motivo que o mantém vivo. No consulado do PSD-CDS, de Passos e Portas, o DN cedeu nada menos do que 10 jornalistas para integrarem assessorias no governo ou em organismos públicos. Licínio Lima, Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. Nenhum jornal digno desse nome pode dar-se ao luxo de perder 10 jornalistas. Nenhum jornalista digno desse nome faria o caminho que alguns destes nomes fizeram até chegarem, através dos jornais, e não do jornalismo, ao local que sempre desejaram. E, porque começo o texto falando em discurso redondo, talvez seja em casos como estes que se fecha o círculo da crise dos media, que tem agora nas redes e nas fake news a desculpa ideal para continuar a não olhar para dentro.

PCPorquê?

miguel 25.2.19
Para lá do campeonato das bandeirinhas entre quem conseguiu o quê nos orçamentos do estado e nos debates parlamentares e outras dimensões da vida institucional e política nacional, há todo um verdadeiro conjunto de motivos para apoiar o PCP e as estruturas eleitorais em que participa, como a CDU.

Mais do que apoiar o PCP por ter a bancada parlamentar mais interventiva, por ter o grupo parlamentar mais jovem, por ser o autor da esmagadora maioria das propostas que vão fazendo furor, desde o fim das taxas moderadoras ao fim das propinas, por ser o autor da exigência de renegociação da dívida, por ter sido o primeiro partido a propor a limitação da utilização de animais selvagens em circos, por ter sido o primeiro e propor o fim do abate de animais errantes e a sua esterilização, por ter sido o primeiro a propor a água pública, a revogação da lei das rendas, o controlo público da banca, mais do que apoiar o PCP por ter sido primeiro a exigir o aumento do orçamento da cultura para 1% do Orçamento do Estado, e o primeiro e único a propor a responsabilização do Estado pelo financiamento da produção cinematográfica, por ter sido o partido que defendeu desde o início o fim das provas globais e exames nacionais, a descriminalização do consumo de drogas, a redução de impostos para trabalhadores e o aumento de impostos para os grandes lucros, o único que ainda defende que a um posto de trabalho permanente deve corresponder um contrato de trabalho efectivo, sobram-me motivos.

É que nesta corrida pelo protagonismo que é o circo da democracia parlamentar, apesar de haver bons e fortes motivos para apoiar o PCP, a verdade é que a batalha está inquinada porque o campo está inclinado. Se nos limitamos à disputa de ver quem chegou primeiro aonde – e devemos travá-la – estamos à partida a travar o combate que nos é mais difícil. Não se trata de desvalorizar as conquistas e as propostas concretas do PCP, mas trata-se essencialmente de destacar esse partido do pântano que é o panorama partidário nacional. O PCP apresenta propostas e combate para a sua aprovação e concretização no actual contexto político, mas não é neste contexto político que propõe que essas propostas se consolidem e sejam verdadeira e plenamente concretizadas.

É verdade que apoio eleitoralmente o PCP porque o PCP não precisa fingir estar presente nas lutas dos trabalhadores, nem ir a correr atrás de uma greve para se apropriar das suas conquistas. O PCP já lá está, não precisa fingir. O PCP tem esse património tremendo, que todos os militantes conhecem, que é o de ser aquele a quem se dirigem os trabalhadores quando são ofendidos nos seus direitos. Quantas vezes, não estamos em tarefas do PCP, mesmo dentro dos centros de trabalho, e trabalhadores que nunca votaram PCP – quem sabe não lhe eram até avessos – vêm pedir informações ou apoio sobre ofensas a que foram sujeitos nos locais de trabalho?

É verdade que apoio o PCP e a CDU porque são titulares desse vasto capital de propostas pontuais e concretas, ao longo da história da democracia portuguesa. São incontáveis as propostas já copiadas e apropriadas por outros. Esse combate será sempre hostil ao PCP. A simpatia da comunicação social com que contam os restantes, jamais nos abençoará. Enquanto BE, PSD, CDS e PS apoiaram a ascensão e tomada do poder pelos nazis na Ucrânia, apoiaram os bombardeamentos na Líbia e mantiveram a postura de agressão à Síria e ninguém lhes pediu contas, fizeram-se constantes acusações ao PCP pelas suas posições sobre esses mesmos países. Acusações essas que nunca geraram um tempo de antena para explicações que representasse um milésimo do tempo de antena que as próprias acusações tiveram.

Isso é igualmente verdade para as diversas questões do dia-a-dia: ainda há bem pouco tempo, o BE propôs o fim das provas nacionais e foi notícia por todo o lado sem referir uma única vez que o PCP já tinha proposto isso há muito. O PS aventou o fim das propinas – apesar de sempre ter sido contra essa medida e de ser autor de grande parte da legislação que as aumenta e faz cobrar – e foi notícia durante dias sem que um único órgão de comunicação social tenha noticiado que essa é uma proposta de há muito do PCP.

Nessa disputa da afirmação das diferenças, não podemos descansar. Mas atermo-nos a ela é entrar na dança que nos condena. É que se a diferença do PCP para os restantes partidos é apenas ser autor moral de muitas propostas que hoje são moda, e ser pioneiro e ter razão antes do tempo, então essa diferença talvez não compense que se abdique de votar numa coisa da moda, bonitinha e simpática como o BE e o PS, cuja imagem é constantemente limpa e melhorada pelos próprios órgãos de comunicação social, detidos pelos mesmos interesses que controlam esses partidos. Se o BE acaba por propor o mesmo que o PCP, para quê votar num partido que é vendido como um partido envelhecido, retido na URSS, amigo da oligarquia angolana, próximo da dinastia norte-coreana, companheiro de ditadores latino-americanos?

É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para uma comunicação social que inventou as notícias falsas mas que agora se escandaliza com as “fake news”? É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para o bando de imbecis que discute comunismo apenas com um argumento chamado “gulag” mas que é o mesmo que discute Salazar como o homem “que morreu pobre” e que fala de nazismo para dizer “que nem tudo foi mau”?

Podemos enlear-nos nesse debate sem fim e disputar a autoria das propostas mais avançadas. E devemos. Mas não é por ganhar essa batalha que eu voto na CDU, para votar PCP.

É porque o PCP é o único que não sucumbe à ditadura do marketing televisivo (que para esse partido seria suicídio), que não define as suas posições em função da simpatia que receberão da comunicação social dos grandes grupos económicos, que não hesita em defender o que considera justo independentemente do acolhimento mediático e das redes sociais. Aquele que prefere empenhar-se em explicações atrás de explicações, para justificar um voto ou uma posição menos demagógica porque prefere perder votos a falar verdade do que ganhar votos a dizer mentiras. É o único partido que existe além das suas bancadas institucionais, que tem células, organizações de base, que não serve apenas para debates mas também para dinamizar, organizar e dirigir as lutas colectivas e não para satisfazer ambições políticas de indivíduos.

É o único partido que realiza reuniões pela noite adentro para debater as condições em que vivem os portugueses e como é possível ultrapassar as dificuldades e resolver os problemas em vez de passar reuniões a debater quem será o líder da concelhia, o presidente da distrital e o candidato a deputado, ou pior, a fazer jogos de bastidores para promover este ou aquele militante a chefe, falsificando eleições, pagando quotas em barda, ou prometendo favores.

Mas também é por mais do que isso. É porque o PCP é o único que apresenta as suas propostas com um fito de transformação, um projecto vasto e maior, que coloca o interesse dos trabalhadores acima do interesse dos grandes grupos económicos nacionais ou internacionais. É porque é o único que, independentemente de apresentar propostas que já são copiadas por outros, o faz integrando essas propostas num projecto de ruptura com a política actual, de degradação e afundamento nacional. É o único partido que é capaz de combater PSD e CDS e ao mesmo tempo afirmar que o rumo actual é um rumo de continuidade com a linha política desses partidos, que é capaz de afirmar sem medo que este rumo, do Governo minoritário do PS, é um rumo de desastre e de subordinação do interesse nacional. É o único partido capaz de afirmar, distante de deslumbramentos como os de todos os restantes federalistas convictos (apesar de se autodenominarem “europeístas”) que o próprio projecto da União Europeia é um projecto de estímulo à ascensão dos nacionalismos de extrema-direita e de concentração do poder político e económico. É o único capaz de continuar a afirmar que é urgente a recuperação da soberania monetária como instrumento para a recuperação de outras dimensões da soberania e é o único que coloca o confronto entre o trabalho e o capital no centro de todas as restantes questões políticas.

Apoiar o PCP não é apenas defender um partido que é pioneiro nas propostas que consideramos justos, porque isso, outros, mesmo que tardiamente, podem mostrar-se interessados em fazer e copiar, mas é apoiar e defender um partido que afirma orgulhosamente as suas marcas distintivas, que valoriza o trabalho colectivo, a solidariedade, a cooperação, que desmonta os fundamentos da ideologia dominante e das suas imposições e que se candidata a eleições para o parlamento europeu e para a assembleia da república, não apenas com a intenção de fazer uns brilharetes com propostas nas capas dos jornais (que mesmo quando merece, não tem), mas com a muito mais funda intenção de utilizar esses espaços para denunciar o esgotamento do modelo capitalista de democracia, para denunciar os interesses que se movem por detrás de cada grupo parlamentar, refém dos grupos económicos, contaminado pelas corrupções sistémicas, legais e ilegais. O PCP dignifica os parlamentos em que participa porque demonstra que não são do povo, mas sim dos grupos económicos. É por ser a excepção, contra todas as forças mais obscuras ou declaradas, que conto com o PCP.

O inimigo principal

Álvaro Figueiredo 14.2.19
Quais as razões da descabelada e acintosa ofensiva de deturpações, calúnias, mentiras e meias verdades contra o PCP?

Os deputados do PCP trabalham com afinco e responsabilidade. Sobre eles não há casos de moradas falsas, viagens fantasma, subsídios indevidos, marcações de presença por terceiros.
No entanto, as «investigações», para tentarem encontrar uma falta, sucedem-se.
Há alguns anos atrás chegou a noticiar-se uma viagem de avião em que os deputados iam em primeira e contrapunha-se isto às dificuldades do povo e dos outros utentes do avião. Na notícia era sublinhado que também um deputado do PCP, o deputado António Filipe, fazia parte do grupo. Apesar de ser perfeitamente legal e costume na Assembleia da República, azar dos azares, o único deputado que tinha prescindido da viagem em primeira era o deputado António Filipe.

O outro lado da cortiça

Lúcia Gomes 1.2.19
Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.

«A Cova da Moura é uma prisão de grades invisíveis»

Bruno Carvalho 22.1.19
No dia 5 de fevereiro de 2015, vários jovens, reconhecidos mediadores deste bairro da Amadora, membros da associação Moinho da Juventude, dirigiram-se à esquadra da PSP para saber da situação de Bruno Lopes, detido nessa tarde. Entre eles estava Flávio Almada, conhecido como ‘LBC’. Foram algemados, espancados e detidos. “Não sabem como odeio a vossa raça. Quero exterminar-vos a todos desta terra”, disse-lhes um dos agentes. É o que consta da acusação do Ministério Público contra 18 polícias que já foram afastados daquela divisão e que estão no banco dos réus acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial.

A ignorância de Bruno Caetano

Ricardo M Santos 4.1.19
Confesso que, até ontem, não sabia quem era Bruno Caetano. Continuo sem saber porque não acompanhei a TVI nem a TVI24 num dia que foi inteiramente dedicado à promoção do fascismo, com palco dado a um criminoso condenado, envolvido num homicídio resultante de crime de ódio. Fui, no entanto, acompanhando as redes sociais ao longo do dia. Hoje, deparo-me com um comunicado do Bruno Cateano, jornalista, ainda que, ao que parece, sem carteira profissional. O repórter do programa da manhã da TVI começa por afirmar, num comunicado, que apenas visava ouvir Mário Machado e as suas convicções sobre Salazar. Ora, caro Bruno, as convicções de Mário Machado são conhecidas de todos, há muitos anos. É um neo-nazi assumido. Deixa-me então ir, ponto por ponto, onde é que o teu comunicado é estúpido e ignorante. E, repara, faço isto partindo do princípio, benéfico para ti, que és de facto ignorante e não o fizeste de forma premeditada para agora vires fazer este papel tão ao mais triste do que aquele que fizeste ontem.

Manuel Goucha Salazar, para que saibas: o fascismo e o racismo não passarão

Lúcia Gomes 3.1.19
Não vi o programa, não vou ver. MM participou na execução de um negro - Alcindo Monteiro, (na foto, morto por causa da cor da sua pele, com 27 anos, em junho de 1995, espancado até à morte) - esteve detido por posse ilegal de armas, apela repetidamente ao ódio e ao racismo. De quando em vez, lá vem um órgão de comunicação social dar-lhe palco. Li uma vez uma entrevista sua e bastou-me. Bastou-me a suástica que enverga para imediatamente me reportar à célebre cena de American History X, em que um nazi (com uma estética bem parecida ao dito cujo) esmaga o crânio de um negro no lancil de um passeio. E vejam-na com atenção porque foi isto que se passou na TVI.

Depoimento exclusivo de um futuro colete amarelo português

Ivo Rafael Silva 17.12.18
A situação é muito grave e exige uma resposta que “PÁRE PORTUGAL”. É que tem mesmo de PARAR TUDO! Aquilo dos coletes em França foi giro e até “li na net” que o governo de lá “cedeu”. A tudo. Foi uma limpeza. Aqui a situação também é muito grave. Mas é muito grave porquê? Porque vou eu, afinal, levantar este rabinho do sofá e participar numa “manif” pela primeira vez na minha vida? Porque vou eu ser um futuro colete amarelo? Fácil. VAMOS LÁ, Portugal, vamos lá dizer isto a plenos pulmões!

A situação é muito grave porque acabaram de me CONGELAR SALÁRIOS a mim e PENSÕES aos meus “velhos”. A situação é grave porque acabaram de me ROUBAR FERIADOS, civis e religiosos. É grave porque me ROUBARAM O SUBSÍDIO de férias e de natal. É grave porque fizeram um AUMENTO BRUTAL DE IMPOSTOS e a seguir foram cantar a “Nini dos meus 15 anos”, com a família, para o coliseu. É grave porque tiveram a distinta lata de me dizer que eu, com um salário de 600 euros, VIVIA ACIMA DAS MINHAS POSSIBILIDADES. É grave porque tiveram o desplante de me dizer que se os sem-abrigo aguentam, EU TAMBÉM AGUENTO. É grave porque tiveram a desfaçatez de me dizer que perder o emprego é, afinal de contas, uma boa OPORTUNIDADE.

Red Light District: as montras da satisfação dos homens

Lúcia Gomes 5.12.18
São cerca das 22 horas. Todo o dia, desde que saí à rua, todos os caminhos iam dar a um sítio: Red Light District. Por mais que procurasse este ou aquele museu, esta ou aquela rua, as indicações sublevavam o ex libris da cidade, o tal de Red Light. Nas montras das lojas de recordações, objectos fálicos, todo o tipo de brinquedos sexuais i <3 Amsterdam e as afamadas montras. Montras de mulheres.

Silêncio

Ricardo M Santos 30.11.18
Calados, caladinhos, cabeça baixa, orelhas que tapem os ouvidos, que vão falar os comunistas. Os velhos e cansados, os que desde 1921 que vão acabar, os retrógrados e contra o progresso, mais o liberalismo que é o futuro, mais o feminismo urbano-burguês. Mudos, calados obedientes, que o pensamento é só um, só pode ser um, que é a natureza humana. Calem-se as ideologias estafadas da igualdade de oportunidades do trabalho com direitos e do direito ao trabalho. São millenials, querem T0 com 2 metros quadrados, querem Uber e Glovo, que se foda quem paga as motas e os carros. Isto salva-se com o Banco Alimentar, desde que não haja bifes, porque temos de deixar que nos roam os ossos. Não há uma app que mastigue por mim? É a vida, só há um caminho, é a natureza humana, que é fodida, porque o ser humano é egoísta quando nasce. Claro que há igualdade desde que não abane o défice, que o défice cai bem em qualquer mesa, não pode é haver muita chatice, diz que é pessoal lá em Bruxelas que diz que somos uns calões; calados e mudos. O quarto poder e tal, que anda um bocado mau, o senhor Presidente da República até falou sobre isso.

Mariposas, a eterna luta pela igualdade

Lúcia Gomes 26.11.18
Patria, Minerva, Maria Teresa, três das quatro irmãs Mirabal, que a 25 de novembro foram brutalmente assassinadas por Rafael Trujillo, ditador dominicano. Assumidamente antifascistas, lutaram contra a opressão e empobrecimento das camadas trabalhadoras e por isso foram presas e torturadas, repetidamente, até à sua bárbara execução. E é em honra a elas que se instituiu o Dia Internacional para a Erradicação da Violência sobre as Mulheres.

Eventualmente, precários - Um abraço de Leixões até Setúbal

Ricardo M Santos 22.11.18
Foto de Carlos Santos - Global Imagens
Hoje foi o dia, mais um dia, em que o Governo do PS alinhou num plano para furar a luta de cerca de 90 trabalhadores, que o são eventualmente, num plano orquestrado em conjunto Operestiva. O pretexto é, como não podia deixar de ser, a Autoeuropa. A empresa que é o alfa e o ómega do que são as nossas exportações e, por isso, tem de valer tudo. Não podemos pôr as pessoas à frente do PIB, não vá o PIB atropelá-las, o PIB que vai subindo a toda a velocidade, rumo nos píncaros de todos os PIB, nos Himalaias dos PIB. A Autoeuropa e os seus trabalhadores, que também são um exemplo de união e luta e eram os melhores do Mundo até dizerem não à administração. A partir daí, passaram a ser uns irresponsáveis que, citando Camilo Lourenço "mereciam salário zero".