Nem uma União Europeia para os fascistas.

miguel 15.4.19
Na iniciativa de convívio com apoiantes da Coligação Democrática Unitária (CDU) realizada segunda-feira, dia 15 no Centro de Trabalho Vitória e que contou com largas dezenas de participantes, João Ferreira, primeiro candidato das listas para o Parlamento Europeu, dirigiu-se aos amigos presentes com um agradecimento, mas também com justas considerações sobre o papel dos comunistas e aliados no contexto actual.

Aliás, o candidato não se limitou a fazer um discurso de mobilização, mas também um discurso de alerta e de luta. A consideração fundamental do camarada assentou na valorização da política alternativa proposta pelo PCP e pela CDU mas avançou para uma questão ideológica sobre o fundo político da actual situação política.

Fascistas, filhos da...

miguel 12.3.19
Da imprensa, filhos da imprensa. Que é como quem diz filhos do ventre podre do capitalismo que sempre os pare e os amamenta com o leite azedo do ódio em momentos de crise e falta de capacidade do próprio sistema económico. Incapaz de produzir as condições económicas para a satisfação das necessidades dos trabalhadores, confrontado com o crescente descrédito e descontentamento, por vezes falham os seus mecanismos de controlo ideológico de massas.

A educação viciada, a informação manipulada, o entretenimento degradante como cultura dominante, os presidentes palhaços, as falsas soluções reformistas, esbarram no limite imposto pelas condições materiais de vida dos trabalhadores. A história do capitalismo é a história do desenvolvimento dos meios de produção acompanhada pela concentração da riqueza. O empobrecimento relativo redunda, inevitavelmente, no empobrecimento absoluto. Portugal e muitos outros países ditos "democráticos", "ocidentais" ou "desenvolvidos" são um exemplo claro disso. Apesar de períodos de empobrecimento apenas relativo (aumento do fosso entre os mais pobres - que melhoram muito ligeira e gradualmente as suas condições de vida - e os mais ricos - que melhoram rápida e drasticamente as suas obscenas fortunas), o regime de acumulação capitalista acaba por impor aos trabalhadores o empobrecimento absoluto (perda de condições materiais), enquanto acentua o enriquecimento de uma minúscula elite.

Essa elite, contudo, domina os meios de comunicação social, a produção de conteúdos, o próprio Estado e os seus instrumentos. Ao ver-se incapaz de manter o contentamento nas massas trabalhadoras e nas camadas mais empobrecidas da pequena-burguesia, essa elite aposta no plano B: o da violência como forma de manutenção da sua ordem.

A conversão da social-democracia em fascismo é um processo, gradual, mas também com saltos qualitativos. Não é possível, porque existe uma realidade concreta de luta e de unidade entre os trabalhadores, impor a ditadura fascista de um momento para o outro. Mas é possível criar o caldo de cultura que se torna permissivo ou até fértil para o surgimento e ascensão do fascismo.

A aposta na criminalização da política, no descrédito das instituições democráticas - com o apoio dos seus próprios protagonistas -;

a aposta no sentimento de insegurança das populações - com jornais e canais de televisão concentrados explicitamente na divulgação do crime e na sua exaltação -;

a hostilização constante do movimento sindical e da luta dos trabalhadores, aliada ao silenciamento de importantes lutas, particularmente as de massas;

a substituição dos segmentos de notícias pelos de opinião, com opinadores escolhidos a dedo e que cacarejam as mesmas estafadas teses e ideias, um após outro após outro;

a contaminação de notícias com a falsificação, ou mesmo a invenção de notícias com vista a criar um determinado sentido de opinião pública;

o alinhamento total com os ditadores de extrema-direita e a promoção das suas opções políticas, apesar de um cínico desalinhamento com os comportamentos das personagens - como bem vemos no Brasil, nos Estados Unidos da América e até com as Filipinas, em que a boçalidade das figuras é criticada apenas como camuflagem mediática, enquanto que simultaneamente todas as suas opções são defendidas, como se os problemas desses tiranos fosse a forma e não o conteúdo;

a alimentação sistemática de abordagens racistas, por um lado, ou desacreditadoras das polícias e dos tribunais, por outro, assim criando a sensação de revolta contra as minorias que surgem como protegidas perante as polícias, quando a verdade demonstra que nem os polícias são intrinsecamente racistas, nem as minorias são intrinsecamente criminosas, mas iludindo a acção do sistema capitalista que, de facto, cria uma estrutura de poder racista e classista (independentemente das orientações dos seus agentes de campo) e económica e culturalmente segregadora perante os pobres e as minorias.

a atenção desproporcionada às aspirações da pequena-burguesia que se vê como progressista, mas que defende o entorpecimento das massas, a escravização das mulheres pelo proxenetismo, e que desvia lutas profundamente justas para movimentos inócuos e desligados da questão fundamental, que é política e de classe;

a busca incansável pelo ódio à representatividade popular - já debilitada e enviesada - com a promoção do fim da democracia como fonte de corrupção;

entre muitos outros mecanismos.

E não nos referimos aqui à vara que grunhe nos jornais assumidamente alt-right ou assumidos agentes mediáticos do neo-liberalismo mas fascizante e que visam pouco mais do que manter contente aquela fatia de fiéis seguidores que se vem de cada vez que um lemos esteves qualquer vomita o seu anticomunismo mais simplório.

Referimo-nos aos grandes jornais, ditos independentes, aos grandes canais de televisão ditos sérios, incluindo os públicos que, sendo ninho para sabujos e serventuários dos grandes grupos económicos, se dedicam afoitamente a mentir, deturpar, manipular e ocultar.

São os comentários aparentemente inocentes de pivots de telejornal, é a linguagem cunhada de ideologia em todas as colunas de jornal, é a competição constante entre quem consegue criar o mais degradante concurso de televisão, são as notícias que pintam terroristas como rebeldes libertadores e os trabalhadores que lutam como potenciais terroristas, são as notícias que criam personalidades onde antes não havia sequer um tumbleweed, são as promoções de visões dogmáticas e idealistas dos vários aspectos da vida, que retiram da esfera da reflexão e da ciência a opinião das massas e a colocam na esfera da crença, irracional e religiosa.

A comunicação social portuguesa, com a grande ajuda dos sucessivos governos PS, PSD e CDS, está a fazer o frete ao grande capital: cria o caldo de cultura que está apto a receber as sementes do fascismo e o desprezo pela democracia - ao invés de entender a insuficiência do regime "democrático" e a necessidade de o aprofundar, uma parte da população compreensivelmente desiludida é conduzida para abominar a pouca democracia que tem, guiada pelos pseudo-ideólogos da comunicação social e da academia. O caldo de cultura está a consolidar-se e só encontra travão na luta organizada dos trabalhadores e dos revolucionários.

Dirão que também os movimentos chamados identitários fazem esse trabalho. Direi que, acaso como já sucede em alguns casos, sejam desligados da luta mais vasta pela superação do capitalismo e pela organização férrea do proletariado, tornam-se enfeites, divisões, e até reaccionários. As lutas pelos justos motivos sexuais, emancipatórios, raciais, ambientais, e outros, se não for afluente do rio caudaloso da luta operária, torna-se numa barragem, numa drenagem desse grande rio pelo simples facto de alimentarem a ilusão de que o capitalismo precisa de ajustes e não de destruição. No momento da ascensão de uma força fascista apoiada pelo grande capital, tais movimentos sucumbirão se não forem parte da luta pelo fim do capitalismo, engolidos pela repressão da ditadura violenta dos monopólios.

A comunicação social está a fazer esse trabalho de sapa dos grupos monopolistas: cria primeiro o grande reservatório de massas tolerantes ao fascismo e mais tarde fará surgir a força política que os representa. Os portugueses têm resistido e, mesmo neste contexto adverso, têm derrotado os ensaios da comunicação social e desprezado os venturas e outros palhacitos que se acham capazes de ser homens fortes da demagogia fascista quando mais não são que fracos oportunistas. Essa realidade, como todas, não é estática. Os primeiros a serem abatidos e perseguidos quando uma força fascista se posiciona no poder, são os comunistas. Por maioria de razão, esses são os primeiros e os últimos a fazer-lhe frente. Mas nunca sozinhos.

PCPorquê?

miguel 25.2.19
Para lá do campeonato das bandeirinhas entre quem conseguiu o quê nos orçamentos do estado e nos debates parlamentares e outras dimensões da vida institucional e política nacional, há todo um verdadeiro conjunto de motivos para apoiar o PCP e as estruturas eleitorais em que participa, como a CDU.

Mais do que apoiar o PCP por ter a bancada parlamentar mais interventiva, por ter o grupo parlamentar mais jovem, por ser o autor da esmagadora maioria das propostas que vão fazendo furor, desde o fim das taxas moderadoras ao fim das propinas, por ser o autor da exigência de renegociação da dívida, por ter sido o primeiro partido a propor a limitação da utilização de animais selvagens em circos, por ter sido o primeiro e propor o fim do abate de animais errantes e a sua esterilização, por ter sido o primeiro a propor a água pública, a revogação da lei das rendas, o controlo público da banca, mais do que apoiar o PCP por ter sido primeiro a exigir o aumento do orçamento da cultura para 1% do Orçamento do Estado, e o primeiro e único a propor a responsabilização do Estado pelo financiamento da produção cinematográfica, por ter sido o partido que defendeu desde o início o fim das provas globais e exames nacionais, a descriminalização do consumo de drogas, a redução de impostos para trabalhadores e o aumento de impostos para os grandes lucros, o único que ainda defende que a um posto de trabalho permanente deve corresponder um contrato de trabalho efectivo, sobram-me motivos.

É que nesta corrida pelo protagonismo que é o circo da democracia parlamentar, apesar de haver bons e fortes motivos para apoiar o PCP, a verdade é que a batalha está inquinada porque o campo está inclinado. Se nos limitamos à disputa de ver quem chegou primeiro aonde – e devemos travá-la – estamos à partida a travar o combate que nos é mais difícil. Não se trata de desvalorizar as conquistas e as propostas concretas do PCP, mas trata-se essencialmente de destacar esse partido do pântano que é o panorama partidário nacional. O PCP apresenta propostas e combate para a sua aprovação e concretização no actual contexto político, mas não é neste contexto político que propõe que essas propostas se consolidem e sejam verdadeira e plenamente concretizadas.

É verdade que apoio eleitoralmente o PCP porque o PCP não precisa fingir estar presente nas lutas dos trabalhadores, nem ir a correr atrás de uma greve para se apropriar das suas conquistas. O PCP já lá está, não precisa fingir. O PCP tem esse património tremendo, que todos os militantes conhecem, que é o de ser aquele a quem se dirigem os trabalhadores quando são ofendidos nos seus direitos. Quantas vezes, não estamos em tarefas do PCP, mesmo dentro dos centros de trabalho, e trabalhadores que nunca votaram PCP – quem sabe não lhe eram até avessos – vêm pedir informações ou apoio sobre ofensas a que foram sujeitos nos locais de trabalho?

É verdade que apoio o PCP e a CDU porque são titulares desse vasto capital de propostas pontuais e concretas, ao longo da história da democracia portuguesa. São incontáveis as propostas já copiadas e apropriadas por outros. Esse combate será sempre hostil ao PCP. A simpatia da comunicação social com que contam os restantes, jamais nos abençoará. Enquanto BE, PSD, CDS e PS apoiaram a ascensão e tomada do poder pelos nazis na Ucrânia, apoiaram os bombardeamentos na Líbia e mantiveram a postura de agressão à Síria e ninguém lhes pediu contas, fizeram-se constantes acusações ao PCP pelas suas posições sobre esses mesmos países. Acusações essas que nunca geraram um tempo de antena para explicações que representasse um milésimo do tempo de antena que as próprias acusações tiveram.

Isso é igualmente verdade para as diversas questões do dia-a-dia: ainda há bem pouco tempo, o BE propôs o fim das provas nacionais e foi notícia por todo o lado sem referir uma única vez que o PCP já tinha proposto isso há muito. O PS aventou o fim das propinas – apesar de sempre ter sido contra essa medida e de ser autor de grande parte da legislação que as aumenta e faz cobrar – e foi notícia durante dias sem que um único órgão de comunicação social tenha noticiado que essa é uma proposta de há muito do PCP.

Nessa disputa da afirmação das diferenças, não podemos descansar. Mas atermo-nos a ela é entrar na dança que nos condena. É que se a diferença do PCP para os restantes partidos é apenas ser autor moral de muitas propostas que hoje são moda, e ser pioneiro e ter razão antes do tempo, então essa diferença talvez não compense que se abdique de votar numa coisa da moda, bonitinha e simpática como o BE e o PS, cuja imagem é constantemente limpa e melhorada pelos próprios órgãos de comunicação social, detidos pelos mesmos interesses que controlam esses partidos. Se o BE acaba por propor o mesmo que o PCP, para quê votar num partido que é vendido como um partido envelhecido, retido na URSS, amigo da oligarquia angolana, próximo da dinastia norte-coreana, companheiro de ditadores latino-americanos?

É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para uma comunicação social que inventou as notícias falsas mas que agora se escandaliza com as “fake news”? É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para o bando de imbecis que discute comunismo apenas com um argumento chamado “gulag” mas que é o mesmo que discute Salazar como o homem “que morreu pobre” e que fala de nazismo para dizer “que nem tudo foi mau”?

Podemos enlear-nos nesse debate sem fim e disputar a autoria das propostas mais avançadas. E devemos. Mas não é por ganhar essa batalha que eu voto na CDU, para votar PCP.

É porque o PCP é o único que não sucumbe à ditadura do marketing televisivo (que para esse partido seria suicídio), que não define as suas posições em função da simpatia que receberão da comunicação social dos grandes grupos económicos, que não hesita em defender o que considera justo independentemente do acolhimento mediático e das redes sociais. Aquele que prefere empenhar-se em explicações atrás de explicações, para justificar um voto ou uma posição menos demagógica porque prefere perder votos a falar verdade do que ganhar votos a dizer mentiras. É o único partido que existe além das suas bancadas institucionais, que tem células, organizações de base, que não serve apenas para debates mas também para dinamizar, organizar e dirigir as lutas colectivas e não para satisfazer ambições políticas de indivíduos.

É o único partido que realiza reuniões pela noite adentro para debater as condições em que vivem os portugueses e como é possível ultrapassar as dificuldades e resolver os problemas em vez de passar reuniões a debater quem será o líder da concelhia, o presidente da distrital e o candidato a deputado, ou pior, a fazer jogos de bastidores para promover este ou aquele militante a chefe, falsificando eleições, pagando quotas em barda, ou prometendo favores.

Mas também é por mais do que isso. É porque o PCP é o único que apresenta as suas propostas com um fito de transformação, um projecto vasto e maior, que coloca o interesse dos trabalhadores acima do interesse dos grandes grupos económicos nacionais ou internacionais. É porque é o único que, independentemente de apresentar propostas que já são copiadas por outros, o faz integrando essas propostas num projecto de ruptura com a política actual, de degradação e afundamento nacional. É o único partido que é capaz de combater PSD e CDS e ao mesmo tempo afirmar que o rumo actual é um rumo de continuidade com a linha política desses partidos, que é capaz de afirmar sem medo que este rumo, do Governo minoritário do PS, é um rumo de desastre e de subordinação do interesse nacional. É o único partido capaz de afirmar, distante de deslumbramentos como os de todos os restantes federalistas convictos (apesar de se autodenominarem “europeístas”) que o próprio projecto da União Europeia é um projecto de estímulo à ascensão dos nacionalismos de extrema-direita e de concentração do poder político e económico. É o único capaz de continuar a afirmar que é urgente a recuperação da soberania monetária como instrumento para a recuperação de outras dimensões da soberania e é o único que coloca o confronto entre o trabalho e o capital no centro de todas as restantes questões políticas.

Apoiar o PCP não é apenas defender um partido que é pioneiro nas propostas que consideramos justos, porque isso, outros, mesmo que tardiamente, podem mostrar-se interessados em fazer e copiar, mas é apoiar e defender um partido que afirma orgulhosamente as suas marcas distintivas, que valoriza o trabalho colectivo, a solidariedade, a cooperação, que desmonta os fundamentos da ideologia dominante e das suas imposições e que se candidata a eleições para o parlamento europeu e para a assembleia da república, não apenas com a intenção de fazer uns brilharetes com propostas nas capas dos jornais (que mesmo quando merece, não tem), mas com a muito mais funda intenção de utilizar esses espaços para denunciar o esgotamento do modelo capitalista de democracia, para denunciar os interesses que se movem por detrás de cada grupo parlamentar, refém dos grupos económicos, contaminado pelas corrupções sistémicas, legais e ilegais. O PCP dignifica os parlamentos em que participa porque demonstra que não são do povo, mas sim dos grupos económicos. É por ser a excepção, contra todas as forças mais obscuras ou declaradas, que conto com o PCP.