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A revolução tem voz de mulher

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.

Guerrilheiras farianas


São três da tarde. Dentro do jeep resiste-se à inclemência do calor e aos sobressaltos da estrada de terra batida. Ao longe, entre as montanhas de Santa Marta e a cordilheira andina, vê-se o primeiro de um número infindável de postos de controlo do exército. Só acabam um quilómetro antes do acampamento das FARC. Centenas de soldados depois e com gincana à mistura, surge a primeira mulher armada e não pertence às forças armadas colombianas. É guerrilheira.

Atrás do sorriso da combatente fariana, há uma autêntica cidade levantada à força dos braços de quem constrói a luta de todos os dias. É Tatu, outra «camarada», como se tratam todos aqui, que fica responsável por mostrar o acampamento. Caminhando pelas ruas dos que projectam o futuro de um mundo melhor, não se fica indiferente ao formigueiro humano que faz palpitar este pedaço de floresta. E também à quantidade de mulheres.

Se Trump atacar a Coreia do Norte, de que lado estás?

domingo, 5 de março de 2017

Para quem ainda não tenha reparado nas gaivotas em terra, vivemos o início da mais profunda crise do capitalismo em um século. Não sei se será a última, mas será certamente a pior. Os sintomas mais óbvios são os sinais exteriores da nossa decadência moral, cultural e política. Não é preciso ser marxista para entender que há aqui algo novo.

Um exemplo pessoal: há poucos anos trabalhava na redacção de um jornal em que me pediam para publicar uma notícia a cada 20 minutos. Quando fiz notar ao meu director que esse tempo não bastava para conhecer a realidade, verificar a informação, contrastar fontes, ler, pensar e escrever uma peça com cabeça tronco e membros, ele, um jornalista conhecido das televisões com décadas de experiência, riu-se: «Essa merda era há cinquenta anos!». Afinal, o meu trabalho era roubar notícias às agências e às redes sociais, dar uma volta ao texto para que não se notasse a origem (citar a Lusa custa dinheiro) e inventar títulos provocadores de cliques. Não durei muito tempo no posto, mas percebi que aquele director, ao contrário de mim, entendia o espírito da época.

Armas de intoxicação massiva

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016


Qual é a diferença entre um terrorista em Paris, um saqueador em Palmira ou um sanguinário em Aleppo? É que se ele estiver em Aleppo, na grande imprensa, não terá nenhum destes adjectivos e será apenas um "rebelde" ou um "insurgente", provavelmente acrescentarão ainda que é "moderado". É o que tem acontecido.

A grande comunicação social construiu uma gigantesca e sinistra distopia mediática em que um mercenário de guerra fanatizado é apresentado como um "rebelde moderado" que luta por liberdade e democracia  ao passo que simultaneamente um soldado sírio que arrisca a própria vida pela libertação de uma cidade do seu país se vê transformado num carniceiro contra o seu próprio povo capaz de bombardear o vigésimo-sétimo "último hospital para crianças" de Aleppo.