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Apocalipse: RTP

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (...) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. As conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Carta aberta - 1% salva mil cornucópias

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Carta aberta - 1% salva mil cornucópias

Desta vez foi anunciado o fim do Teatro da Cornucópia. Naturalmente, não somos indiferentes a esta decisão e notícia, mas também não ficamos surpreendidos. É cada vez mais frequente vermos estruturas e projectos a encerrar ou a prosseguir à custa da descaracterização profunda do seu projecto artístico. Quem seguiu o trajecto de desinvestimento público na criação artística sabia bem que os actos resultariam em empobrecedoras consequências, o encerramento da Cornucópia é uma das mais visíveis.

Entre muitas declarações públicas, ouvimos o Presidente da República, debaixo dos focos da comunicação social, indagar o Ministro da Cultura sobre possíveis soluções para um caso concreto. Preferíamos que o Presidente da República se tivesse indagado publicamente sobre como foi possível, décadas a fio, sucessivos governos desrespeitarem a Constituição e terem activamente contribuído para o definhamento do tecido social da criação artística em Portugal. O esvaziamento contínuo da criação artística conduz a um consequente empobrecimento da sociedade e da sua capacidade de expressão. Contrariar este esvaziamento é garantir-lhe a liberdade a que tem direito.

Catorze anos sem Joe Strummer

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Escrevi-o há quatro anos e creio que continua actual. Há 14 anos, um ataque cardíaco roubou-nos a mais emblemática figura do punk. Quando Joe Strummer foi encontrado sem vida, poucos meses depois de cumprir 50 anos, houve quem arriscasse que havia sido vítima de overdose. Para os que não seguem este género musical, ele é sinónimo daquele niilismo violento que tem a destruição da sociedade como meta. Por isso, a imagem de Joe Strummer derrotado pela dependência seria a consequência lógica de um adereço com que se gosta de vestir o punk. Contudo, o vocalista dos The Clash foi um dos protagonistas do resgate político que vários grupos encetaram para derrubar os muros que separavam os jovens punks da capacidade de sonhar. O mérito de Joe Strummer foi o de dar sentido à violência anti-sistema como resposta a problemas sociais e com a visão de um futuro melhor. Os palcos onde tocavam os The Clash não eram mais do que a continuação da revolta por outros meios. Isto nos tempos de Margaret Thatcher.

A revolução esquecida de 1383

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Neste dia, no ano de 1383, começava em Lisboa a primeira revolução burguesa do mundo. Revolução, pela mesma razão que ninguém ousaria chamar «interregno» à Revolução Francesa nem «crise» ao 25 de Abril. Burguesa, porque, ainda que pavorosa aos próprios netos, inaugurou definitivamente o poder dos «homens honrados pela fazenda». E, à semelhança da revolução francesa ou do 25 de Abril, a revolução portuguesa de 1383-1385 também foi condenada ao olvido e à mentira­­ – com a diferença, no entanto, de mais séculos de avanço.

Há 633 anos, a regente Leonor Teles, numa fuga desesperada para Alenquer, prometia esmagar a Revolução queimando Lisboa com «mau fogo», ará-la a carros de bois e encher tonéis com as línguas das mulheres revolucionárias. A redoma de silêncio que cobriu a Revolução quase faz crer que se cumpriu o vaticínio de Leonor. Porque se calaram as vozes de 1383? Quem mandou cortar as línguas dos sublevados de Lisboa?

Quando a única posse é o colectivo, a luta é o caminho

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

(Bruce Springsteen e Tom Morello - The ghost of Tom Joad)

"Se tu, que tens tudo o que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenine foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas isso é que tu não podes compreender, pois que a qualidade da posse te cristalizou para sempre na fórmula do «eu» e para sempre te há-de isolar do «nós»"

John Steinbeck in As Vinhas da Ira

Pop xunga

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Eu não gosto do que a Joana Vasconcelos (JV) produz actualmente. Mas isso não importa nada porque o gosto não pode ser um instrumento de apreciação e definição da política cultural.

A produção da artista standard é uma repetição em ciclo de uma receita estafada que começou por ser inovadora por pegar em tradições estéticas portuguesas e assumir a sua "piroseira" intrínseca numa abordagem construída com novos materiais, até com alguma audácia plástica. Hoje em dia, JV é uma empresária da arte, trabalha por encomenda numa espécie de produção em série em que a criatividade é apenas uma lembrança que jaz no seu historial.

Brevemente num cinema longe de si

quarta-feira, 2 de novembro de 2016


Trailer do documentário Banda Bassotti -A Brigada Internacional

O China era o gajo mais fodido do Pendão

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Os putos brancos ricos tinham medo dos putos brancos pobres. Os putos brancos pobres tinham medo dos putos pretos. Que invariavelmente eram pobres. Já os putos pretos só tinham medo da polícia. Que por sua vez tinha medo dos ciganos, invariavelmente mais pobres que os brancos pobres. E os ciganos, que não tinham medo de ninguém e se riam da morte, da polícia e da prisão, tremiam de medo do China, que era o gajo mais fodido do Pendão.

Ninguém se lembra de que turma era o China. Em que ano andava ou que notas tinha. Porque o China, que estava na vida como na escolaridade obrigatória, vinha aos pontapés, a cair por aí abaixo «Deixe aprender os que querem aprender!», cumprindo a única lei que conhecia: a lei da gravidade da miséria. «Che, dread, gira um euro, deixa só ver esse móvel», «Queres que meta um furo na barriga?» E tu giravas, deixavas ver, com permissão teórica, porque sabias que o China sabia bem aquilo que tu sabias: o que um pobre quer saber de um rico é sempre uma pergunta retórica.

Miró como punhos

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um membro da aristocracia espanhola pediu ao antigo BPN um empréstimo de vários milhões de euros e deu como garantia uma colecção de obras de arte da autoria de Miró. Como um dos créditos que levaram o BPN à falência era esse, a “nacionalização” do BPN integrou a colecção num perímetro de activos que resultavam do antigo BPN. Esses activos estão, ainda hoje, ao cuidado de duas empresas públicas: a PARVALOREM e a PARUPS, dirigidas politicamente pelo Governo a quem prestam contas.

Durante o mandato do Governo PSD/CDS, essas empresas tinham ordens para esconder dos portugueses a existência dessa colecção e para a venderem o quanto antes. O Governo e as empresas montaram todo um esquema ilegal de exportação das obras para Inglaterra, onde seriam vendidas em leilão, podendo gerar um retorno de 30 a 50 milhões de euros. O BPN custou ao Estado português qualquer coisa como 6 a 7 mil milhões de euros até este momento e pode chegar a 9 mil milhões segundo algumas estimativas. Facilmente se percebe que os 30 a 50 milhões com que PSD e CDS justificavam a urgência da venda não passam de uns miseráveis 0,05% do valor total da dívida do BPN.

A última viagem de Lénine

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Associação Cultural Não Matem o Mensageiro representa neste Portugal dominado por visões niilistas e mercantilistas da arte uma lufada de ar fresco, um regresso renovado a um teatro feito por gente comum para pessoas comuns, sem medo de assumir o comprometimento político e social que o contexto exige. Assim foi com a peça "Marx na Baixa" e depois com "Homem morto não chora". Agora o teatro politicamente comprometido volta à cidade com "A última viagem de Lénine", peça encenada por Mafalda Santos, com base no texto original de António Santos e interpretação de André Levy.

"A última viagem de Lénine" sugere-nos um cenário hipotético baseado numa última viagem do homem que liderou os bolcheviques russos naqueles dias de Outubro de 1917, com destino à cidade de Lisboa. Lénine desembarca de um comboio que circula com um atraso de 90 anos e 63 dias, e é na cidade que viu florescer a Revolução de Abril que procurará abordar aqueles com quem se vai encontrando.

Património é História. A História não se privatiza.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A cultura e o património devem ser vistos como um elemento que potencia o turismo, o que é muito diferente de dizer que devem ser geridos como as atracções de um parque de diversões.

Os vários Governos, dirigidos pelos partidos de organização e orientação burguesa - PS, PSD e CDS - têm vindo a conceber a política de cultura e património alinhados com a tendência que vai marcando as grandes capitais europeias, ou seja, a da gestão do património e das manifestações culturais como se de meras atracções turísticas se tratassem. Além de ser uma perspectiva redutora do potencial das expressões culturais e do património, é uma política que resulta na mera mercantilização do património. Se o património e os hábitos e tradições se tornam meras atracções, as pessoas tornar-se-ão figurantes.

PETIÇÃO - DGArtes: financiamento 2017

Nas artes performativas temos boas e más notícias. As boas é que finalmente se irão rever os critérios e regulamentos dos concursos aos apoios da DGArtes. As más é que corremos o sério risco de manter um nível de financiamento similar ao de 2016. Querendo potenciar as boas notícias e tentando eliminar, ou pelo menos minorar as más, o CENA e o STE tomaram a iniciativa de lançar uma petição pública com algumas exigências.

A diversidade de agentes do sector que aceitaram ser primeiros subscritores e os que agora têm vindo a assinar, mostram que há uma convergência de preocupações muito grande em torno dos financiamento mas também do combate à precariedade e da valorização social das estruturas de criação artística.

É preciso assinar esta petição, dar-lhe força. Depois é preciso continuar a trabalhar para que as exigências nela contida se vão cumprindo. Mas vamos ao primeiro passo, ler e assinar. Ah, e depois divulgar por todos os meios e mais alguns. Vamos a isso?

A maior e a mais bonita festa!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

5 razões para ir à Festa do Avante!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Para quem nunca foi à Festa do Avante! aqui ficam cinco boas razões para o fazer este ano pela primeira vez:

Um onze inicial de classe redobrada

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Além de um entretenimento de massas, que por esta altura ganha contornos absolutamente desproporcionados e muito saturantes, o futebol pode ser também um meio de expressão, de luta e protesto. Assim e aproveitando a época, hoje apresenta-se um onze, de jogadores de futebol, de notoriedade diversa, com mais ou menos razão, de vários pontos do mundo, que em certa altura das suas carreiras decidiram fazer mais do que apenas jogar futebol.

1. Metin Kurt

Extremo do Galatasaray e internacional pelo seu país, a Turquia. Ficou conhecido pela sua militância comunista e pelo seu esforço pela criação de um sindicato de classe para os desportistas profissionais.

Pelo seu activismo foi penalizado quando o Galatasaray não lhe pagou o bónus pela vitória na taça turca, no que teve a solidariedade de quatro colegas que acabariam expulsos da equipa, até que foram reintegrados pela pressão dos adeptos. kurt mesmo assim acabaria por sair do clube pouco depois. Esteve ligado à formação da Associação dos atletas Amadores(1970) e da União Revolucionária dos Trabalhadores Desportivos(2010).Para Kurt "havia necessidade de uma luta democrática nos desportos porque a relação entre os desportistas e os executivos é similar à relação entre escravo e amo". Em 2011, ainda antes de falecer, foi candidato por Istambul pelo Partido Comunista da Turquia.

Mensagem de Gregório Duvivier aos trabalhadores portugueses do espectáculo e do audiovisual

quinta-feira, 2 de junho de 2016


No Brasil luta-se. Luta-se pela democracia, pela manutenção de alguns direitos sociais e laborais que os governos do PT conseguiram implementar, luta-se pela decência. O actor, poeta, cronista, ilustrador e homem de ainda mais instrumentos, Gregório Duvivier, mais reconhecido em Portugal como "aquele da Porta dos Fundos", tem estado na linha da frente destas lutas e também na luta contra o desaparecimento do Ministério da Cultura no Brasil.

O Gregório está em Portugal, com o seu espectáculo "Uma Noite na Lua" e o CENA - Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, foi conversar com ele. Falou-se da situação dos trabalhadores do sector em Portugal, comparou-se essa situação com a dos trabalhadores brasileiros. O Gregório ficou de olhos esbugalhados com as condições em Portugal. Sendo certo que no Brasil há ainda muitas conquistas a serem feitas, o que ele transmitiu ao CENA é que os trabalhadores brasileiros deste sector são respeitados, têm direito à vida. Isto é, têm contratos de trabalho, os horários são cumpridos, existem tabelas salariais, etc.

Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Liberdade editorial versus liberdade de expressão

sábado, 14 de maio de 2016

"Mas não é por acaso que se vê, de cada vez que se avançam perspectivas para uma beneficiação e elevação dos programas televisivos, que os remédios válidos mostram ser sempre e só remédios de ordem política; só a ideologização do meio técnico pode mudar o seu cunho e a sua direcção. Mas a ideologização não significa "partidarização"; significa apenas imprimir na administração do meio uma visão democrática do país; bastaria dizer: usar o meio no espírito da Constituição e à luz da inteligência. Todos os casos em que a nossa televisão tem dado boa prova de si, no fundo, não foram mais do que deduções correctas deste teorema." (Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, 1964).
Foi esta semana conhecido o Barómetro de Comentário Político Televisivo Maio 2016, um trabalho do Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL. E vale a pena a sua leitura e análise.

VI Lénine, a caminho de Lisboa

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Antes de morrer, em 1924, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lénine, foi vítima de terríveis alucinações. Febril e quase paralisado, recorda a sua irmã Maria, chegou a pedir veneno a Stáline para acabar o suplício. Até aqui tudo é histórico.

Segundo o próprio, em Janeiro desse ano, o médico mandou-o apanhar um comboio para Lisboa, onde deveria ser examinado por um médico famoso. Contudo, ao chegar a Lisboa, Lénine depara-se com um mundo estranho que, dizem os jornais, é 2016. Confuso e frustrado, depois de uns dias a vaguear pela cidade, o líder comunista decide regressar à Rússia. É à espera do comboio, em Santa Apolónia, que o encontramos, humano, lúcido, intempestivo e a lutar para compreender quem é que afinal, no meio desta realidade surrealista, está mesmo a alucinar. É esta, grosso modo, a história da peça de teatro «A Última Viagem de Lénine», que a associação Não Matem o Mensageiro estreia em Outubro, no Teatro da Trindade, quando a revolução russa celebra 99 anos.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava "todas as minhas jóias portuguesas" nem "os meus óclos de sol". Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.