As chamas nunca foram de esquerda.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A tendência terrorista da direita faz parte do seu código genético. Só alguém distraído pode pensar que a mesma burguesia que está disponível para usar o fascismo como método do estado a fim de salvaguardar os seus privilégios teria algum prurido em usar o ataque cobarde como instrumento de disputa política.

Desde há muito que as chamas são instrumento da direita acossada e não precisamos regressar ao Reichstag incendiado pelas mãos de Göering e Hitler, pois temos ainda marcas recentes de 1975 em Portugal e muitos se lembram de quantas labaredas se espalharam pelos centros de trabalho do Partido Comunista Português e até pela floresta portuguesa sopradas por um destacamento terrorista dos sectores reaccionários.

Em 2017, Portugal viu a sua terra arder e 100 pessoas morrerem por causas relacionadas com o fogo. Mas isto não é preciso nem correcto: Portugal foi incendiado e 100 pessoas perderam a vida como consequência disso. Será estranho que precisamente no fim de semana antes da alteração das condições meteorológicas deflagrem centenas de incêndios provocando várias frentes principalmente na região norte do país, mas isso não pode constituir prova material para acusar um grupo específico por ter provocado essas ignições. Pode, contudo, o desenvolvimento político dos incêndios, ser prova material do tecido moral de que é feito o PSD e o CDS.

PSD e CDS tudo fazem para usar as chamas, as mortes, a devastação em seu proveito político, numa descarada e vil operação de capitalização de um crime que não sabemos se é ou não organizado. É verdade que estamos perante uma acção criminosa, de décadas, de vários governos, em que se insere o actual, ao permitirem que a floresta permaneça desordenada, o abandono das actividades agrícolas, a desertificação das localidades mais pequenas e ao permitirem que as faixas de segurança marginais das estradas continuem por limpar, ou por promoverem uma política de substituição da floresta autóctone por eucalipto sem as devidas medidas de minimização de risco, por promoverem a falta de recursos públicos, financeiros, materiais e humanos, que afecta as corporações de bombeiros e sapadores e a desestruturação de uma política de protecção civil adequada a catástrofes desta natureza.

Assim para termos uma rápida ideia, o orçamento total para a protecção civil em 2017 é de 148 milhões de euros para todo o ano. Esse valor é consumido em 7 dias de juros da dívida, pelos quais vamos pagar em 2018 qualquer coisa como 8 mil milhões de euros. Ora, em um ano, vamos gastar 54 vezes o orçamento anual da protecção civil portuguesa em juros da dívida, em boa parte respeitantes a uma dívida que não era do Estado até ao momento em que PSD, CDS e PS decidiram começar a pagar os crimes dos banqueiros com o dinheiro dos portugueses. Desde 2009, ano do colapso do Banco dos amigos de Cavaco Silva, também conhecido por BPN, até hoje, já foram gastos mais de 20 mil milhões de euros para colmatar os assaltos aos bancos concretizados pelos homens mais ricos deste país. 20 mil milhões de euros: 135 vezes o orçamento anual da protecção civil.

São estas opções que se repercutem no nosso dia-a-dia. Estes números, que fazem a direita e os seus cães-de-fila pular de alegria quando vêem Portugal agrilhoado e a pagar docilmente os juros da dívida, são os mesmos que fazem exactamente os mesmos cães-de-fila espumar de raiva contra "o Estado que falhou" por falta de recursos. Parece que estou a ver o José Gomes Ferreira (triste coincidência este nome tão nobre ter ido parar ao opróbrio) a delirar de alegria com os 8 mil milhões que pagamos de juros e logo a seguir a exigir demissões por não haver recursos suficientes para apagar fogos.

Não podemos saber que mãos lançaram as acendalhas para a floresta, mas podemos saber que mãos estão a tentar colher os frutos partidários da desgraça. Com clareza: mesmo que os fogos tivessem sido acidentais, há responsabilidades políticas a tirar e medidas a tomar. Todos os que passaram pelos governos e nada fizeram devem assumir essas responsabilidades e os que lá estão devem colocar em prática as medidas imediatamente. Mas isso não significa que vale tudo.



Não vale tudo. O CDS e o PSD podem tentar usar as mortes e a dor dos portugueses que estou certo que todos lhes saberão responder à altura. Não serão muito diferentes os que apoiarem PSD e CDS nesta campanha infame (e não me refiro à crítica política do Governo mas à tentativa de capitalização partidária constante que levam a cabo sem disfarçar) dos que ateavam fogos em 75 e provavelmente serão gente da mesma cepa.

Os portugueses repudiarão os que ateiam fogos tanto quanto os que tentam usá-los. Seja para vender jornais, seja para espalhar o terrorismo político e repudiarão todos quantos tentem manobrar e manipular a verdade para levar a cabo essa campanha a favor da direita mais acossada por estar agora o poder executivo nas mãos de uma outra direita contida e limitada pela correlação de forças à esquerda (e aqui não conta o BE, evidentemente).

"Esquerda tentou cancelar o debate quinzenal com o PM" lia-se no expresso para depois se ler "para acompanhar o luto nacional". Isto é uma estranha forma de relatar o que se passou. Podia ter-se escrito: "PSD e CDS forçam realização de debate quinzenal em dia de luto nacional", mas houve uma preferência clara na forma como se escreveu aquele cabeçalho que diz muito sobre de que lado está o Expresso. PSD, CDS, Expresso e todos os demais órgãos de comunicação social que exploram os incêndios com a exaltação de verdadeiros incendiários estão do lado dos que ainda não suportam a ideia de que PSD e CDS não são monarcas por direito divino nem de qualquer oura espécie. Esse é também o lado de que se colocam historicamente os terroristas.

3 comentários:

  1. Estou totalmente de acordo com o que o Miguel Tiago aqui escreve.

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  2. Os direitalhos, netos e herdeiros do Salamerda aí estão, sempre a espreitar e com os seus comentários repugnantes. Obrigada camarada Miguel Tiago. Houvesse mais homens como tu, na AR, e outro galo cantaria.

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