O meu primo disse que...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Emigrante barricado com arma ameaçou matar a mulher, diz a TVI. Às vezes, nem tudo o que os portugueses fazem lá fora é bom. E nem precisamos de dar o exemplo do colonialismo, do Durão Barroso e do Duarte Lima.

Por estes dias, a propósito da Venezuela, volta a tendência para se dizer que alguém só pode falar de um acontecimento político em determinado sítio se lá se tiver estado ou se se conhecer alguém desse lugar. Se não se viveu na Venezuela nem se tem um primo na Venezuela parece que não se tem direito a opinar. Isso tem sido usado como argumento para defender que ali há uma ditadura. Porque um primo qualquer disse, claro.

Vamos então a esse exercício.

Eu vivi meio ano em Caracas e regressei mais duas vezes. Não tenho primos na Venezuela mas conheço muita gente com a qual estou em permanente contacto. E nas vezes que lá fui não tive boas experiências com portugueses. Que seguramente são primos de alguém que agora anda a dizer que Nicolás Maduro é um ditador.

Na primeira vez que fui a uma mercearia, o dono que era português falou-me do 'malparido' que era Chávez e depois passou o polegar pelo pescoço e disse: aos comunistas há que fazer isto.

Noutra ocasião, quando regressei a Caracas, fui revisitar o dono de uma lavandaria que se queixou imenso de Hugo Chávez. Que as coisas estavam terríveis. Quando se calou, perguntei-lhe como havia conseguido aumentar o espaço da lavandaria para o dobro e abrir ainda um quiosque de jornais e guloseimas num centro comercial.

Doutra vez, a propósito de um comentário despectivo que fiz sobre George Bush um grupo de portugueses acusou-me de ser um agente pago por Chávez para fazer propaganda entre os emigrantes e a conversa acabou com insultos e empurrões.

Curiosamente, toda esta gente era proprietária de pequenas e médias empresas. Curiosamente, todos os que conheci que foram de Portugal durante o fascismo para trabalhar por conta doutrém estavam com Chávez e contavam orgulhosamente como haviam lutado na Venezuela contra a ditadura portuguesa.

Há, infelizmente, demasiadas histórias de portugueses envolvidos em negócios que impõem condições miseráveis aos seus empregados, demasiadas histórias de portugueses que açambarcam produtos para inflacionar os preços e alimentar a imagem de escassez e demasiadas histórias de portugueses que não sabem nem querem saber dos milhões de venezuelanos que graças às políticas dos sucessivos governos bolivarianos abandonaram as favelas, aprenderam a ler e a escrever, foram pela primeira vez a um médico e receberam um apartamento equipado.

É que às vezes não percebemos que um emigrante na Suíça, na Alemanha e em Inglaterra não é a mesma coisa que um emigrante na Venezuela, no Brasil ou na África do Sul. Nesses três últimos países, não se trabalha na limpeza, não se é empregado de balcão, não se é operário numa fábrica. É-se dono de. Só que a Venezuela é de todos os que lá vivem e trabalham e não só dos que são proprietários.

2 comentários:

  1. Esta é a verdade. No entanto, a campanha continua. Desde a RTP, à Rádio África, passando pela Renascença, os textos de João Miguel Tavares, Diogo Queiroz de Andrade ou Francisco Sarsfield Cabral, a Venezuela ocupa um certo espaço de ódio contra aqueles que apoiam a revolução bolivariana.

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  2. Só faltou falar do que define uma ditadura.
    Do que falou foi de como quem quer trabalhar por conta própria e fazer crescer o seu negócio odeia os comunistas que o querem pequenino e cooperativista de espírito (ainda que com o aval pessoal no banco).

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