Direita ponto net

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Por estes dias temos lido uma curiosa, impressionante - mas não pouco adivinhável - sintonia a respeito da situação social e política na Venezuela. Confesso que cheguei a confundir textos do Expresso ou do Observador com os que ultimamente têm aparecido no portal Esquerda.net. A determinada altura, já não sabia se estava a ler Henrique Raposo ou Duarte Marques no Esquerda.net, se estava a ler Mariana Mortágua ou Luís Leiria no Expresso ou no Observador. Só não confundi os últimos artigos do portal do Bloco com os publicados por articulistas de “Povo Livre” ou de “O Diabo”, porque é muito pouco provável que tenha lido ultimamente o que quer que seja destes últimos, nem de passagem ou por distracção. Que o Esquerda.net se tenha tornado, por exemplo, num multifacetado arraial de arrependidos, às piruetas em assuntos internacionais e com vergonha de escrever Syriza ou Tspiras, até se admite. Que chegue ao ponto de se confundir com o argumentário mais rançoso e anti-democrático da direita mais mesquinha e reaccionária, até para o Bloco já me parece um exagero.

A verdade é que quem lê passagens como “a Assembleia Constituinte não será eleita, nem respeitará o parlamento, nem os partidos”, que a votação na qual participaram 8 milhões de cidadãos é “uma ameaça à democracia”, ou que a mesma “usou mecanismos de trapaça”, contrariamente ao que dizem observadores externos, fica sem saber onde veio mesmo parar. É que o nome do portal engana os desavisados. E não é de agora. E o ódio latente com que os responsáveis do BE se referem a um governo democraticamente eleito como o da Venezuela, diz muito acerca das suas verdadeiras motivações e do seu posicionamento ideológico.

Muitos foram, nas últimas décadas, os governos de países da América Latina a merecerem ódios de especial fervor. Um fervor proporcional ao seu grito de revolta contra as amarras imperialistas de quem, num passado recente, patrocinou golpes, semeou o caos e a miséria em toda aquela região. Não ter apreço por este ou aquele líder, por esta ou aquela personalidade, é uma questão menor. Debater vias e processos, causas e consequências, faz parte da dialéctica. Não ter memória, não ter consciência e, sobretudo, reagir publicamente ao som do ruído capitalista e com autênticos assomos de raiva ao pior estilo caceteiro e pinochetista, já me parece muitíssimo mais grave.

2 comentários:

  1. O mais estranho foi o silêncio em relação a certos episódios que aconteceram durante a votação para a Constituinte. Por exemplo, em San Cristobal (Tachira) os votantes foram ameaçados e atingidos por disparos vindos de paramilitares colombianos. Estes chegaram a ferir um soldado da Guarda Nacional Bolivariana, ao mesmo tempo que controlavam os lugares para que ninguém na área tivesse acesso aos centros de votação.
    Em resposta a este grave delito (que nem se quer foi condenado pela ONU), o povo de Táchira caminhou horas, atravessou bosques e rios para votar nos centros de votação mais próximos e onde estariam em paz. Ou seja, o povo defendeu o seu direito ao voto na Constituinte.

    Sei que o Bloco de Esquerda anda a reboque da direita, quando são confrontados com a situação na Venezuela. O mais grave de tudo, é que pessoas como a Joana Mortágua não sabem, não dizem, nem querem saber acerca do processo revolucionário, nem das ilegalidades cometidas pela oposição venezuelana. Os mesmos que se destacam por serem demasiado activistas pelos direitos humanos, nada disseram quando civis venezuelanos foram desnudados, torturados e atados a árvores e postes pelos chamados «encapuchados», apoiados pelo partido da Vontade Popular de Fredy Guevara. Nem tão pouco falaram acerca das 23 vítimas por incêndio. Pelo caminho que isto leva, é muito provável que ainda vejamos Joana Mortágua com uma t-shirt a dizer «Libertem Leopoldo López» comprada a Lilian Tintori.

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    1. Segue os conselhos que te deu o Jorge Fragata.

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