As costas da democracia

segunda-feira, 17 de julho de 2017


Os últimos dias foram bastante profícuos em casos de imbecilidade extrema. Médicos que acham a homossexualidade uma doença, psicólogos que acham que a erva deixas as pessoas homossexuais e uma advogado que é só o espelho dos partidos que representa, PSD e CDS, despejando ódio e preconceito sobre ciganos e negros. O direito de gente como esta encher páginas nos media dominantes não pode ser encarado como uma coisa normal, apenas sujeita a critérios editoriais. A democracia burguesa abre caminho a estas posturas, ao palco para medíocres, ao afunilar opiniões, procurando uma aceitação fácil que possa render alguma exposição a um título chamativo nas redes sociais.

Não há, por isso, ilusões. A democracia burguesa defende os interesses da burguesia e a História continua a demonstrar que são inconciliáveis com a classe oprimida, ainda que esta classe não saiba que o é e por que é.

A batalha da desinformação a que fomos sendo sujeitos ao longo dos anos levou ao ponto em que estamos hoje: é aceitável, em nome da democracia e da liberdade de expressão, colocar sob os holofotes um médico que acha que a homossexualidade é uma doença. Há uma gravidade enorme em tudo isto; primeiro, porque a classe médica é das mais cotadas entre a confiança dos portugueses, depois, porque é inconcebível que um jornal publique isto.

Um médico afirmar que a homossexualidade é uma doença, não está no campo da liberdade de expressão. Está no campo da mentira. É como se um tradutor resolver dizer que “yes” se traduz por “não”. Ele pode dizê-lo, mas está a mentir.

Também o candidato do PSD a Loures nos brindou com uma entrevista em que adopta aquela que sempre foi a postura do CDS, com e sem PSD, em relação talvez não a minorias mas em relação a minorias pobres. Porque há naquele campo muito quem critique as lojas dos chineses, mas esticam os braços para fazer chegar mais um visto gold a um qualquer empresário que esteja disponível para gastar meio milhão de euros numa casa.

Em 2009, Portas afirmava que o “RSI é um incentivo à preguiça” e que os subsidiários são “gente que, pura e simplesmente, não quer trabalhar e quer viver a custado contribuinte". A ideia vingou porque, em tempo de crise profunda, os discursos populistas vendem bem. A História demonstra-o também. E bem podem dirigentes do CDS tentar demarcar-se disto. O partido deles é um dos grandes promotores de uma criminalização da pobreza e da sua censura pública. Foi com PSD e CDS que os desempregados passaram a ter apresentações periódicas na Junta de Freguesia, como qualquer condenado.

A aceitação deste tipo de discursos, a cobro da democracia e da liberdade de expressão é, na verdade, a sua negação. É abrir caminho a discursos fáceis, falsos, que são tomados como verdadeiros. É o vingar da opinião da classe dominante que, enquanto puder dividir os explorados entre explorados-brancos, explorados-ciganos, explorados-negros e por aí fora, vai levando a água ao seu moinho. É o vingar da ideologia dominante no que respeita à não-existência de ideologias e na comparação entre esquerda e direita, que são a mesma coisa. Como se ideologias que defendem extinções em massa, genocídios, a superioridade racial e religiosa fossem comparáveis a uma cuja principal matriz é haver um mundo sem exploradores nem explorados.

O branqueamento do que foi a II Guerra Mundial, em que os EUA aparecem quase como que o fiel da balança, os neutros, entre comunistas e nazis, promove este estado de coisas e beneficia com ele. Porque há alguma esquerda que tem medo de assumir aquilo em que acredita, papagueando as mentiras e falsidades que são debitadas pelos beneficiários da ideologia dominante. Está bom de ver, não colocando em causa a ideologia dominante, esta adopta esta esquerda como sua, promovendo-a como moderna, europeia, o centro-esquerda, como se isso existisse e não fosse apenas social-democracia maquilhada.

A democracia burguesa tem umas costas tão largas que conseguiu, ao longo dos anos e a cobro de supostas democracia e da liberdade de expressão, fazer crer que comunistas e fascistas são a mesma coisa, que autarcas corruptos roubam mas fazem e que o vizinho, que está sem emprego, é um malandro que não quer trabalhar.

E os discursos de André Ventura, Quintino Aires e Gentil Martins são, ao mesmo tempo, alicerce e telhado do edifício que foi sendo construído pela ideologia dominante. E vivem bem uns com os outros.

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