A revolução tem voz de mulher

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.

Guerrilheiras farianas


São três da tarde. Dentro do jeep resiste-se à inclemência do calor e aos sobressaltos da estrada de terra batida. Ao longe, entre as montanhas de Santa Marta e a cordilheira andina, vê-se o primeiro de um número infindável de postos de controlo do exército. Só acabam um quilómetro antes do acampamento das FARC. Centenas de soldados depois e com gincana à mistura, surge a primeira mulher armada e não pertence às forças armadas colombianas. É guerrilheira.

Atrás do sorriso da combatente fariana, há uma autêntica cidade levantada à força dos braços de quem constrói a luta de todos os dias. É Tatu, outra «camarada», como se tratam todos aqui, que fica responsável por mostrar o acampamento. Caminhando pelas ruas dos que projectam o futuro de um mundo melhor, não se fica indiferente ao formigueiro humano que faz palpitar este pedaço de floresta. E também à quantidade de mulheres.

Sentada, ao lado da kalashnikov, no cambuche onde dorme todas as noites, Tatu conta ao Sermos Galiza por que decidiu entrar muito jovem nas FARC: «Eu via a vida das mulheres à minha volta e sentia que não queria aquilo. Não me queria sentir obrigada a ter um marido, a ter filhos, a levar uma vida miserável em que a minha opinião não contasse para nada». Para a guerrilheira de 35 anos as FARC eram um espaço de liberdade. «Eu via-as poderosas, combativas e conscientes do que queriam. A minha entrada foi uma questão de tempo», explica.

Também Maria quer que se saiba por que entrou na organização guerrilheira. Enquanto limpa uma pequena casa, quase em ruínas, a única existente no acampamento, a combatente que leva uma t-shirt desportiva do Junior Barranquilla conta a sua história. Explica que entrou nas FARC há 17 anos e que «não tinha outra opção». A miséria e a pobreza traçaram o caminho: «a minha família não tinha condições económicas e decidi lutar por um país com oportunidades para todos». Maria espera que o filho pequeno não tenha de viver o mesmo e mostra-se expectante com o processo de paz. Gostava de poder estudar comunicação social e desenho gráfico mas não deixa lugar para dúvidas: «Naturalmente, continuarei a participar na luta política porque muda a forma mas não muda o objectivo de construir uma Colômbia justa, socialista e soberana».

«Olhe, jornalista, estou a ler este livro. Fixe o nome: Últimas notícias da guerra. É de um colega seu, Jorge Enrique Botero», quem o diz é um homem vestido à civil que prefere não ser identificado. Soubera que alguém andava a interrogar por que aderiam as mulheres às FARC e meteu conversa: «Esta é a história verídica de uma guerrilheira que fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa pequena aldeia e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-lhe a barriga. Depois escapou-se e entrou nas FARC». Com ar sério, deu a sua opinião de que para muitas mulheres a entrada na guerrilha não é uma opção. «É talvez a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. E aqui sentem que lutam para que todas as mulheres não tenham de fazer essa escolha. O mundo tem de saber isto», rematou.

«Tente violá-la»

Os oligarcas mandam, os jornalistas apontam e os soldados disparam. Durante anos, o conflito que se travou nas montanhas despertou a guerra mediática para forjar uma opinião pública que sustentasse a ofensiva brutal que se desatou contra este grupo armado sobretudo na última década e meia. A mais importante das ideias veiculadas sobre as FARC foi a de que se tratava de um grupo de narcotraficantes e isso permitiu isolar a guerrilha internacionalmente. Mas outra das informações frequentemente veiculadas em reportagens acusava-os de tratar brutalmente as mulheres. Desde supostos haréns de guerrilheiras que tinham de fazer favores sexuais a comandantes, a violações e abortos forçados.

Inty Maleywa é provavelmente uma das artistas mais conhecidas das FARC. Os seus traços ilustram muitos dos desenhos que retratam o imaginário guerrilheiro e a sensibilidade das suas mãos já encheram exposições em vários pontos do país. Ao contrário da maioria das mulheres e homens, camponeses, que se tornaram guerrilheiros pela sua condição de miséria, explica que estudou na universidade e que depois decidiu pegar nas armas.

Questionada sobre os haréns e as violações, o rosto de Inty fecha-se e a voz endurece. Fixa os olhos e conta a história de um jornalista que há anos lhe fez a mesma pergunta. «Está a ver aquela guerrilheira ali ao fundo com uma kalashnikov? Vá e tente violá-la», respondeu-lhe deixando-o calado. É que para a artista plástica não faz sentido algum acreditar em tal mentira. «Mas se fossemos violadas e maltratadas alguma vez nos dariam armas para as mãos? É um absurdo. A violação nas FARC está prevista no regulamento interno com o fuzilamento para quem a cometer.»

Não sabe se são os homens no poder ou se são os homens nas redacções, ou ambos, que não conseguem aceitar que milhares de mulheres colombianas tenham decidido entregar, livremente, a sua vida à luta por um mundo diferente. É que aqui, explica, não há diferenças entre elas e eles. Anedoticamente, lembra quando a mãe foi a um acampamento visitá-la pela primeira vez. «Chegou e abriu a minha mochila. Queria saber se era verdade que nós estávamos obrigadas a levar a roupa dos comandantes», ri-se.

8 de Março

Meia centena de guerrilheiras vestiu o melhor dos sorrisos para desfilar de fuzil ao ombro. São mulheres que marcham sob a orientação de três videógrafas. O objectivo é lançarem uma mensagem à Colômbia e ao mundo no Dia Internacional da Mulher. Enganam-se várias vezes e riem-se muito. A mais velha das combatentes olha para a câmara e explica a importância da participação das mulheres na vida política e social do país e a urgência de se somarem à luta pela paz com justiça social. Em coro, terminam o vídeo com um grito de punho cerrado: «Que vivam as mulheres!»

Fechada num automóvel que acaba de chegar ao acampamento, Virgínia tenta fugir do ruído para gravar. «É a minha voz que vai aparecer no vídeo», explica enquanto limpa o suor da testa. A combatente de 26 anos revela que é de Barranquilla e que estudou filosofia na universidade. Durante vários anos deu aulas como professora em diferentes institutos. Agora, é uma das locutoras da rádio clandestina Cadena Radial Bolivariana. «Comecei a fazer militância estudantil e ganhei consciência política para os problemas do país. Um dia descobriram que colaborava com as FARC e tive de vir para as montanhas», conta.

Para as FARC, o 8 de Março não é uma data qualquer. É uma das mais importantes do calendário. Todos os anos, mesmo nos tempos mais duros, celebram a data e este não é excepção. Enquanto dezenas de guerrilheiros ensaiam um espectáculo de cumbia, outros preparam uma obra de teatro que retrata a opressão que vivem as mulheres.

A meio ano da data em que se prevê a entrega total das armas à ONU, há guerrilheiras que não tiveram outra opção senão pegar em armas no princípio da adolescência. Na Colômbia, sete de cada dez mulheres sofreram ou vão sofrer algum tipo de agressão na sua vida. Segundo a Defensoria del Pueblo, em cada dia, 38 são violadas. Só nos últimos cinco anos, 8 mil mulheres foram assassinadas revela o Centro de Referencia Nacional de Violencia. São números assustadores. A transição para a vida civil pode representar um duro embate para estas guerrilheiras que cresceram longe da realidade em que qualquer mulher pode ser vítima de assassinato, violação e de agressão.

Até para homens guerrilheiros como Yesid que não serão alvo dessa barbárie. No seu cambuche, escreve um texto sobre a luta feminista e explica que é para expor num painel que vai estar à disposição para todos os materiais que estejam relacionados com o tema. «Também vou participar na peça de teatro, vou fazer de mulher», revela. Questionado sobre se se sente cómodo para assumir o papel de mulher, o jovem guerrilheiro responde com um olhar interrogativo: «Como assim? Por que não havia de me sentir cómodo?».

[reportagem publicada no jornal Sermos Galiza]

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