A paz na mira do paramilitarismo

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Há precisamente 30 anos, o que era, então, gerente da sucursal do Banco de Comercio em Valledupar recebeu uma mensagem. «Ou se vão embora ou morrem, filhos da puta, comunistas, guerrilheiros», esclarecia a missiva. Ricardo Palmera que havia estudado economia em Bogotá e que havia começado por ser assessor financeiro do governo na Caja Agraria, no departamento de Cesar, tinha de tomar a decisão mais importante da sua vida. Durante anos, comprometera-se politicamente com a União Patriótica e via agora como caíam assassinados milhares de companheiros seus num processo de paz afogado em sangue. Foi justamente em 1987, depois de uma greve camponesa na praça principal de Valledupar que tomou a decisão frente às ameaças. Diz-se que levou 30 milhões de pesos do banco e tomou o caminho de centenas de perseguidos políticos. No cimo das montanhas da Sierra Nevada de Santa Marta enterrou a sua carreira profissional de êxito e abraçou a vida guerrilheira. Tornou-se num dos mais importantes comandantes das FARC e foi mais tarde capturado e extraditado para os Estados Unidos onde todavia se encontra a cumprir uma pena de 60 anos de prisão.

Trinta anos depois, na cidade que se encontra num vale ao qual deram o nome de Valledupar em memória do cacique indígena Upar todavia se dança vallenato. Na mesma praça onde Ricardo Palmera decidira ingressar nas filas daquela organização guerrilheira, um dos dirigentes locais do partido Marcha Patriótica fala dos desafios dos novos tempos. Entre o chumbo e a paz, há um caminho de pedras que importa percorrer. «Mas sem que nos matem», explica Jimmy. O jovem não esconde a sua preocupação quando nos dias que correm assassinam um activista de esquerda a cada dois dias. Nos anos 80, assassinaram em poucos anos mais de cinco mil militantes da União Patriótica, milhares tiveram de fugir para as montanhas ou para o exílio forçado no estrangeiro. São números aterradores num mundo que fecha os olhos para a barbárie colombiana. Jimmy é obrigado a tomar precauções sabendo ainda assim que não se pode esconder. A hora é de mostrar a cara e enfrentar o perigo por uma Colômbia de paz e justiça social, assegura.

M de medo, M de Medellín

Quem escreva Medellín no Google encontrará «Medellín, ciudad segura», «Medellín, ciudad inteligente», «Medellín, ciudad innovadora», entre outras coisas. De facto, Medellín está na moda. A modernização da capital do departamento de Antioquia tem impulsionado o turismo na cidade. Mas também as séries que exaltam a figura daquele que foi o mais importante narcotraficante do mundo. Pablo Escobar é uma das personagens mais controversas. Suscita amores naqueles que o vêem como um pobre que construiu uma fortuna à margem do estado e ódios naqueles que o consideram um dos responsáveis pela carnificina que se desatou no país.

Quem o descreve é Pedro, nome fictício, para um militante do Partido Comunista Colombiano Clandestino, conhecido como PC3. Enquanto caminha pelas ruas do centro olha para todos os lados e baixa a voz quando alguém passa. À porta de uma loja de bebidas alcoólicas, inesperadamente, uma rapariga aproxima-se e mete conversa. Diz que dá aulas de jornalismo e começa a falar do processo de paz. Pedro finge que não sabe do assunto e que está de saída. Pouco depois, quando entra num café para conversar com Sermos Galiza pede ao dono para aumentar o volume da música.

«Todos os cuidados são poucos para evitar que nos identifiquem e nos assassinem», conta enquanto toma uma cerveja Águila. «Nesta cidade todavia há cerca de 6 mil colaboradores paramilitares que controlam o comércio e as movimentações políticas», assegura enquanto olha para a porta. Recorda os tempos em que o principal opositor ao processo de paz, o antigo presidente Álvaro Uribe, foi primeiro alcalde da cidade e depois governador da região. «Dantes mandavam-te uma carta a ameaçar-te, uma coroa de flores ou deixavam-te o crânio de um animal morto à porta. Agora é diferente. Não avisam».

Pedro descreve a barbárie dos métodos paramilitares numa agoniante narrativa que envolve serras eléctricas, massacres em carniçarias, funerais cujos caixões não levavam mais do que o único pedaço de carne que sobrou do cadáver e incineradoras improvisadas para fazer desaparecer os corpos. Conta também como a gangrena do paramilitarismo se espalhou pelo país ao ritmo da produção cocalera com o beneplácito dos partidos ao serviço da oligarquia.

Em 1988, em pleno processo de paz, em virtude dos acordos de paz entre as FARC, o ELN e o governo de Belisario Betancur, o israelita Yair Klein foi contratado por uma sociedade do ministério colombiano de Defesa. Naquela época, a Colômbia era o melhor cliente da indústria de guerra israelita. Yair Klein, ex-militar israelita e mercenário em vários países, foi contratado por Gonzalo Rodriguez Gacha, traficante de droga e sócio de Pablo Escobar, para treinar grupos paramilitares criados pelos latifundiários colombianos. Nessa época, o jornalista Antonio Caballero, do El Espectador, que veria o seu director assassinado e a redacção despedaçada por uma bomba, exclamava: «o rio Magdalena é a coluna vertebral da Colômbia e por ele já só descem cadáveres de homens assassinados». As principais vítimas eram, com a cumplicidade da oligarquia e do Estado, sindicalistas e comunistas.

Como Israel, a Colômbia recebe, há mais de meio século, o apoio financeiro, logístico e militar dos Estados Unidos e é, como Israel, ponta-de-lança continental das ambições geoestratégicas de Washington. Em 1951, as únicas forças armadas latino-americanas que aceitaram participar na guerra contra a Coreia foram enviadas pelo Estado colombiano. Actualmente, a Colômbia tem o maior número de efectivos militares de toda a América Latina. Para uma população de 46 milhões, Bogotá financia, com o apoio dos Estados Unidos que dizem querer combater o narcotráfico, uma estrutura com mais de dois milhões de soldados. A Argentina que tem 40 milhões de habitantes não tem mais do que 120 mil efectivos militares, por exemplo.

Ser mãe de um comunista na Colômbia

Em Fonseca, diz-se que o paramilitarismo está circunscrito aos negócios do contrabando e que a importância do tráfico de produtos venezuelanos é tal que prefere não pôr em risco o potencial económico desta actividade com actividades violentas. Mas isso não quer dizer que não esteja capaz de agir sempre e quando alguém ameace o seu poder. Há uns anos, uma loja foi atacada por um grupo de desconhecidos. Semanas depois, os responsáveis apareceram desmembrados numa acção cujo modus operandis é o das organizações paramilitares. Sebastian é activista da Marcha Patriótica e sabe que corre perigo. Nesta cidade de 40 mil habitantes é conhecido em todas as partes. O jovem militante irradia alegria e contagia quem lhe está próximo. A actividade política absorve-lhe praticamente todo o tempo.

A mãe de Sebastian podia ser a mãe de qualquer militante de esquerda em qualquer parte do mundo. Preocupada com o filho, com o excesso de tempo dedicado à política que é inversamente proporcional ao tempo dedicado aos estudos, com que perca a juventude em algo que mais tarde pode não significar nada. Mas não é a mãe de qualquer militante de esquerda em qualquer parte do mundo. Sonia é a mãe de um militante comunista na Colômbia. E o que é ser mãe de um jovem comprometido com a luta social e política da classe trabalhadora e da juventude colombiana? Sonia conta que tem medo que um dia o filho não volte a casa, que tenha o mesmo destino que centenas de outros jovens. «Suponho que na Europa seja mais fácil porque sabes que acabarás à noite na tua cama. Mas ele dá tudo, dedica todo o tempo que tem à política num país governado por gente má».

Sonia não esconde que concorda com as ideias do filho. Faz lembrar «A mãe» do escritor russo Máximo Gorki. É defensora da paz, da justiça social e até se atreve a dizer que admira o compromisso dos que lutaram durante anos com as armas. Parecem-lhe boas pessoas. Mas vive numa batalha entre a admiração que tem à militância do filho e o medo de que lhe aconteça alguma coisa. Gostava antes que acabasse o curso, que aproveitasse a juventude para se divertir, para namorar, para fazer aquilo que os jovens costumam fazer. Questionada sobre se ser revolucionário não será também próprio de quem é jovem e questiona a realidade, a mãe de Sebastian concorda mas torce o nariz. Prefere não assumir totalmente o caminho do filho. E atalha a conversa noutro sentido: «Sabe que eu gostava muito de fazer um espaço para gente de terceira idade? É que o estado colombiano não quer saber destas pessoas que trabalharam e sofreram toda a vida. Elas merecem mais».

Reportagem publicada no jornal Sermos Galiza

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