Nem uma menos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A revolta invadiu o bairro Bosque Calderón, uma das zonas mais pobres de Bogotá, onde vivia Yuliana Samboní. Esta menina colombiana de sete anos foi raptada por um abastado arquitecto. Depois, Rafael Uribe Noguera torturou-a, violou-a e matou-a. Há quatro anos, também na capital colombiana, Rosa Elvira Cely havia sido brutalmente violada num parque por dois homens. Morreu quatro dias depois nas urgências do hospital com os órgãos internos destruídos pelos ramos de árvore que usaram para a violar.

«Esta ciudad es la propriedad del Señor Matanza» cantavam os Mano Negra nos anos mais duros da guerra que regou de sangue as montanhas e cidades da Colômbia. Desde que em 1949 a oligarquia decidiu assassinar o candidato presidencial Jorge Eliecer Gaitán, os trabalhadores e o povo levantaram-se em armas. Primeiro como vingança, depois como forma de resistência. Desse processo nasceram as diferentes guerrilhas que deram voz aos condenados daquela terra.

Hoje, os clichês e preconceitos procuram dar a ideia de que as mulheres e os homens que optaram pela violência política para transformar o esgoto em que vivem são terroristas. A ignorância pode muito mas não pode apagar a história. Os soldados colombianos que em 1928 dispararam sobre uma manifestação de 25 mil trabalhadores que se recusaram a cortar bananas para a United Fruit Company cumpriram a mesma função que os militares de hoje. Nesse dia, foram assassinados quase dois mil grevistas.

Essa violência que se estende até aos nossos dias atinge sobretudo a classe trabalhadora. Quase um século depois do Massacre das Bananeiras, a Colômbia continua a ser o país onde mais sindicalistas são assassinados todos os anos. Mas a barbárie atinge de forma implacável os grupos mais discriminados da população colombiana. As mulheres, os negros e os indígenas são as primeiras vítimas de uma guerra que suja de sangue as mãos da oligarquia e do imperialismo.

O livro «Últimas notícias de la guerra», do jornalista Jorge Enrique Botero, destapa a vida de muitas das mulheres que optaram por ingressar nas FARC. Solangie, uma destemida guerrilheira que foi uma das vozes da emissora clandestina Cadena Radial Bolivariana, fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa aldeia no meio da selva e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-o. Depois de desenhar mapas para a guerrilha e de fazer parte da rede de vigilância, as FARC acederam aos sucessivos pedidos de Solangie.

Foi clara ao explicar que para muitas mulheres as FARC não são uma opção. São a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. Hoje, quase metade daquela organização guerrilheira é composta por mulheres comunistas que lutam por uma Colômbia onde não haja lugar para o capitalismo e para a violência contra as colombianas. É uma causa que une camponeses, negros e indígenas, entre mulheres e homens, pelo fim da opressão que é responsável também por todo o tipo de discriminações e violências.

O rapto, violação e assassinato de Yuliana Samboní é o retrato da impunidade com que as diferentes discriminações e violências se abatem sobre o povo colombiano. Quando Rafael Uribe Noguera abandonou o seu bairro rico e cómodo para violar uma menina de um bairro miserável de Bogotá repetiu os passos dos generais que ordenavam sequestrar desempregados, toxicodependentes e sem-abrigo para depois de os assassinar vesti-los de guerrilheiros e apresentá-los como troféus de guerra.

2 comentários:

  1. Só o comunismo salva as mulheres de serem violadas!

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    1. Pelos vistos, José ou Joselito também estava a ser irónico neste comentário.

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