Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Exmo. Sr. Presidente
Fernando Medina

Tal como o Sr. Presidente, não nasci em Lisboa mas tive que vir para cá trabalhar e viver, foi onde encontrei trabalho relativamente melhor remunerado. Quando cheguei a Lisboa, há cerca de 11 anos, pagava 125 euros de renda, num quarto onde dividia a casa com mais 4 pessoas. Depois passei a pagar 240, mas dividia apenas com mais uma e assim fiquei. Vivi sempre em bairros típicos da cidade - Campo de Santana, Madragoa, Graça, Anjos - sempre a mudar de casa porque de 2 em 2 anos as rendas subiam e o salário descia.

Como sou uma criatura de hábitos, costumo ir sempre aos mesmos cafés, aos mesmos bares, às mesmas lojas, às mesmas costureiras, coisa que deixei de fazer há muito. Hoje opto por andar a pé porque, não só o passe aumentou de €17,00 para €35,50, como os autocarros passaram a demorar mais de 20 ou 30 minutos, deixaram de fazer determinados percursos e o metro, enfim... Não só demora como me recuso a fazer percursos como uma sardinha em lata. O que significa que faça chuva ou sol, os transportes públicos deixaram de ser opção.

Deixou também de ser opção jantar fora ou ir ao cinema. Não gosto de centros comerciais e só há um cinema de rua em Lisboa, o Nimas, onde vou de vez em quando, dependendo da programação que é muito específica e só às vezes consigo ir. Isto porque, para viver em Lisboa tenho que ter 3 empregos para conseguir pagar as taxas da água e saneamento, o passe, a electricidade e, sobretudo, as rendas.

Hoje vejo-me obrigada a procurar novamente casa e, numa zona onde queria viver, já não o vou poder fazer. Só nesta zona abriram mais de 100 hostels e todas as casas se estão a transformar em proto-hostels, arrendando quartos apenas a estrangeiros ou através do air b'n'b. Concorri às rendas convencionadas da Câmara, mas apenas a um prédio. O outro prédio que está a concurso é numa zona sem transportes e eu não tenho carro (nem poderia ter, não poderia jamais mantê-lo).

É que, sr. Presidente Fernando Medina, eu tenho 34 anos e 3 trabalhos, passo a maior parte do tempo a trabalhar e quando o não estou a fazer, estou a participar politica e civicamente, não só no meu Partido, como em várias associações e na Assembleia Municipal. E portanto, tudo o que lhe digo não é novo, até porque já uma vez fiz uma intervenção sobre o planeamento urbano e a gentrificação da cidade.

E sabe, sr. Presidente, é terrível ouvir os velhos que ainda sobrevivem à lei das rendas que só têm o 735 ou o 730 para ir aos hospitais e perderem as consultas porque os autocarros não chegam a tempo e eles não têm dinheiro para o táxi. Ou então porque já não há transporte que passe pelas casas deles.

Como é terrível não poder encontrar-me com os meus amigos no Palmeira porque vai encerrar e é dos poucos sítios onde sou bem tratada e os preços são mais do que acessíveis. Como é terrível não ter dinheiro para pagar uma refeição em nenhum restaurante porque são todos da moda e para as bolsas dos turistas que com um emprego ganham mais do que eu com três.

Como é terrível pedirem-me 3 meses de caução para arrendar uma casa cuja renda é, no mínimo, 550 euros. Eu não posso pagar 550 euros por mês, muito menos 1650 de uma só vez. E, sabe, como a minha mãe é reformada e tem uma reforma de miséria, não tenho fiadores. E talvez por isto tenha que sair de Lisboa, ficando ainda mais isolada do que já estou, porque, como deve saber, não é fácil estar longe da família e amigos, que estão todos a 300 quilómetros, sendo que as viagens de comboio são mais caras do que viagens para fora do país.

E sabe, sr. Presidente, o que me faz muita confusão? A Câmara disponibiliza terrenos à Espírito Santo Saúde, retirando serviços municipais, a Câmara vende ao desbarato (e sim, eu tenho a documentação que o comprova) prédios na baixa que depois se transformam em hotéis ou hostels, a Câmara, embora tentando reverter o processo de privatização dos transportes, deixou que isto chegasse a este estado, a Câmara licencia todas as actividades de especulação comercial e imobiliária sem qualquer contrapartida para a cidade, a Câmara fecha ruas e praças públicas para eventos privados, a Câmara vende património secular (como o pavilhão Carlos Lopes) para interesses privados, a Câmara (ou o Vereador Salgado) até falou em demolir Santa Apolónia, a Câmara não quer saber de quem vive na cidade que administra.

E é com toda a sinceridade que lhe pergunto: como é capaz?  Como é capaz de ver uma geração inteira, bem próxima da sua, a fazer das tripas coração para se manter à tona e nem uma renda conseguir pagar ou ter que voltar a casa dos pais ou dividir casa com estranhos? Como é capaz de assistir ao isolamento dos idosos, cada vez mais esquecidos e deixados a si mesmos? Como é capaz de saber que coisas tão simples como jantar com amigos, ir ao cinema, ir ao café é coisa que hoje não é possível?

E não me fale de programas e planos. Isto é o que é: eu, como tantos outros, trabalho muitas horas por dia, com vários trabalhos e nem dinheiro para uma renda de casa tenho porque as rendas são superiores ao salário mínimo nacional. As rendas na cidade onde é presidente. Os passes são caros e os transportes não funcionam. A água (a água!!!!) é das mais caras do país. Diga-me, sr. Presidente, isto é uma cidade onde se possa viver? Onde se queira viver? Está contente com esta sua cidade? Onde está, claramente, reservado o direito de admissão?

3 comentários:

  1. Se continuar assim, será uma cidade fantasma. Lisboa abandonada à sua sorte, sem ninguém.

    Na verdade, não se entende a política das rendas. Uma renda deveria corresponder a 10% de um ordenado. Em vez disso, as imobiliárias vendem as rendas duas vezes mais que o salário mínimo.

    Nesta luta de classes, os senhorios estão na frente, como os «coitados»; os que mais sofrem. Os inquilinos são vistos como desgraçados e abusadores.

    Rendas de € 60? De € 80? Nem pensar! Pobres senhorios.

    Rendas de € 600? De € 800 é que é!

    Ainda ninguém explicou aos senhores imobiliários e aos senhorios gananciosos que a habitação é um direito que até é consagrado na nossa constituição (cada vez mais esquecido).

    Não será este nosso presidente da câmara a mudar e a solucionar este problema, nem os sucessivos governos da burguesia, virados para a austeridade.

    Para resolver este problema, é preciso, sim, uma revolução. Quando esta vier, teremos uma nova política de habitação e a cidade vista, como essa música de Zeca Afonso, «não do lobo, mas sim do homem».

    JN

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  2. Seja aberta ou fechada, porque não a envia mesmo ao dito presidente? Não me diga que está convencida que ele lê mesmo diariamente o "manifesto74"? Não tem dinheiro pró selo? Ora, ora, entregue-a pessoalmente.

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