A ocupação como meio de luta: a experiência da TOCA

sexta-feira, 13 de março de 2015

Em Abril de 2007 uma manifestação com cerca de uma centena de jovens, na sua maioria estudantes, concentra-se em frente ao edifício da Câmara Municipal da Amadora para exigir uma política cultural para o Concelho. Apesar de ser uma das cidades mais jovens e densamente populadas do Distrito de Lisboa, a Amadora é, desde a queda da autarquia nas mãos do PS, um deserto de cultura e um armazém de mão-de-obra barata.

Apóis a leitura de um comunicado, a manifestação do recém-formado MARCHA (Movimento de Acção Reivindicativa pela Cultura e Habitação na Amadora) desloca-se até à antiga taberna Portas Largas, um espaço com quase dois séculos de história, há décadas abandonado pelo proprietário, um conhecido capitalista, mais tarde apanhado num esquema de corrupção.

Nas semanas anteriores, o MARCHA tinha contactado com os vizinhos, explicando o projecto e convidando a comunidade a participar. Ao longo das dezenas de conversas, foi consensual que o abandono do espaço era uma fonte de problemas para o bairro e que faltavam as iniciativas culturais. Após ouvir as preocupações e sugestões dos vizinhos, foi distribuído uma lista de compromissos do MARCHA para com os vizinhos. Sucintamente, o MARCHA garantia aos moradores a segurança e a limpeza do espaço, não permitindo que o ruído se prolongasse para além das 19:00, abrindo o local aos moradores e mantendo preços populares em todas as iniciativas.

A ocupação decorre sem sobressaltos e são formados grupos de trabalho entre os manifestantes. Na recuperação do espaço que se prolonga por mais dois meses, participam voluntariamente dezenas de vizinhos, incluindo pedreiros, electricistas e pintores.

Entre Abril e Novembro, a TOCA (Taberna Ocupada pela Cultura na Amadora) mantém-se aberta todos os dias, com iniciativas culturais aos fins-de-semana. São realizadas dezenas de concertos, exposições, debates, aulas de apoio gratuitas, ciclos de cinema e tertúlias literárias. Por várias vezes, o número de bilhetes vendidos (por 0,50€) ultrapassa os 300. Todos os concertos e iniciativas são também precedidos por momentos políticos, os primeiros para muitos jovens, em que se fala da situação nacional, da luta de classes e da importância da organização.

Com os vizinhos do lado da ocupação e a polícia sem meios para a destruir (o "crime" é semi-público e carece de queixa do proprietário), a TOCA transforma-se num dos principais espaços culturais da Amadora e um polo agregador da juventude do concelho. Para a maioria dos vizinhos e jovens que frequentam diariamente o espaço, a TOCA constitui uma aula de politização contínua: aprende-se a construir um movimento, descobre-se de que lado está cada partido, ganha-se vontade de defender o conquistado, compreende-se a nossa força e vê-se que afinal é possível.

Durante a sua vida, o MARCHA está nas manifestações nacionais, nas greves e na Assembleia Municipal. Para as populações empobrecidas, despolitizadas e não invulgarmente desesperançadas do bairro da antiga Vila Martelo, esta experiência reveste-se de um enorme significado pessoal e político. O segredo da TOCA foi, sucintamente, ser um projecto do bairro e não apenas para o bairro. A título de exemplo de amplitude, os membros de uma família de ciganos romenos que nesse tempo ocupava outro imóvel devoluto em frente, tinha-se tornado, ao cabo de poucos meses, num núcleo de apoiantes activos do MARCHA.

Finalmente, numa noite de Novembro, pelas quatro da manhã, a polícia fecha as ruas que dão acesso à TOCA e, sem qualquer aviso prévio nem retirar nada do seu interior, a Câmara Municipal da Amadora procede à demolição do imóvel de reconhecido valor municipal. A legalidade da demolição é então questionada pelos eleitos da CDU na Assembleia Municipal. Segundo Joaquim Raposo, presidente da Câmara da Amadora, do PS e amigo de António Costa "não há nada a justificar, aquilo foi uma ocupação selvagem e o nosso trabalho é proteger o direito à propriedade privada". Entretanto, cá fora, uma última manifestação do MARCHA exigia outro direito: Cultura e Habitação.

2 comentários:

  1. Projecto interessante.
    A resposta musculada e autoritária é um sinal do potencial do meio de luta.
    Infelizmente os esquerdalhos têm-se apoderado deste meio, sendo que para muitos de nós acaba até por ser visto à partida com desconfiança se não se conhecer e desmascarar (como felizmente foi bem feito aqui).

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