Eles moem e matam

4.2.15

"Eu vou dar-lhe os números". Foi desta forma que Paulo Macedo respondeu numa audição parlamentar, pedida pelo PCP, sobre o estado das urgências. O agendamento teve de ser potestativo para que Paulo Macedo se dignasse a ir ao Parlamento dar explicações aos deputados. De outro modo, continuaria calado, mudo, que é como eu o ouço quando vem com as frases feitas que ouvimos todos os dias do gangue de criminosos que nos governa. "Eu vou dar-lhe os números", disse ele. Entretanto, as urgências continuam caóticas. Os tratamentos para o cancro em modo de espera e o medicamento para a hepatite C está a ser sonegado a cerca de 4.000 pessoas que dele necessitam para sobreviver.

Se é inegável que a indústria farmacêutica funciona numa espécie de máfia, talvez o lobby mais poderoso dos nossos tempos, a verdade é que morreu uma doente com hepatice C que poderia ter sido salva. O governo está a negociar, ao que parece, porque o fármaco custa 40.000 euros.

Seria importante saber a partir de que valor o governo considera que vale a pena salvar uma vida. 40.000 euros, pelos vistos, é demasiado. Assim, deixou morrer. Dito de outra forma, matou. Matou aquela mulher como matou muitos outros que chegam ao SNS depois de contarem os tostões para saber se podem pagar as taxas moderadoras. E demasiado tarde, com certeza, não raras vezes.

"Eu vou dar-lhe os números", disse o Paulo Macedo, que continua ministro. O ministro de um governo que faz tanta questão de assinar de cruz tudo o que a Troika mandou, de braço dado com o PS, está agora a negociar a vida das pessoas. Contas feitas por alto, de acordo com o governo, para os 4.000 seres humanos que precisam do medicamento, incluindo os cerca de 160 que precisam dele urgentemente, 16.000.000 de euros é um preço demasiado alto. São 16 milhões de euros, 1000 vezes menos do que estamos a pagar para resgatar bancos, propriedade dos amigos dos sucessivos governos.

É evidente que é preciso encontrar forma de travar a indústria farmacêutica, que joga com a vida das pessoas da forma que for mais rentável. Mas isso faz-se consistentemente, com um plano de acção que não é só nacional, não se faz quando as pessoas estão a morrer porque o governo se recusa a dar-lhes assistência.

"Eu vou dar-lhe os números", disse ele, com a maior naturalidade. O problema está aqui, como sempre esteve. Quando se fala de números há quem esqueça que estamos a falar de pessoas, de seres humanos, de gente que tem de ter acesso aos direitos mais básicos numa sociedade que se auto-intitula desenvolvida.

"Eu vou dar-lhe os números", digo agora eu. Dou-lhe o 1.000. 1.000 vezes criminoso, 1.000 vezes incompetente, 1.000 vezes assassino.

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  1. Anónimo4/2/15

    Eu sei que isto nada tem a ver com o texto que foi escrito, mas o que se passa com a vossa secção internacional? Andam a dormir?

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    1. A minha está boa. E a tua?

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    2. Anónimo4/2/15

      Continuamos a ter a guerra na Ucrânia, a situação muito difícil no médio oriente e muitas mais notícias por esclarecer.
      Enquanto vocês continuarem a ignorar o que se passa lá fora, em vez de informar e esclarecer, o vosso trabalho fica incompleto.
      Boa sorte nas suas notícias domésticas e durma bem.

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  2. Mas tens aqui a secção internacional neste separador. Boas leituras! http://manifesto74.blogspot.pt/search/label/Internacional

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    1. Anónimo4/2/15

      Já agora, a última notícia internacional que têm publicada é esta: http://manifesto74.blogspot.pt/search/label/Internacional

      É do dia 28 de Janeiro.

      Já estamos no dia 4 de fevereiro.

      Continuem a dormir, porque o Mundo não espera por vocês.

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    2. Devias criar um blogue sobre questões internacionais. Aqui, cada um escreve sobre o que lhe apetece.

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    3. Anónimo5/2/15

      Isso é mau. Esperava mais de vocês.
      Há muitos temas internacionais a precisarem de análise e esclarecimento.

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  3. Argala4/2/15

    Saudações,

    Dando continuidade à série 'um texto de Lénine por dia, não sabe o bem que lhe fazia', vamos hoje ler o 'Aventureirismo revolucionário' de Lénine.

    A palavra aventureirismo, tal como a palavra esquerdismo, são amiúde arremessadas contra os demais, sem que as pessoas cuidem de entender o seu significado. Tal como um comentador que aqui veio acusar um deputado do nosso parlamento burguês de ser esquerdista (ser perceber a óbvia contradição), também neste artigo Octávio Teixeira acusa Bush filho de aventureirista por invadir o Iraque. Em ambos os casos, a palavra está mal aplicada.

    Tal como os anarquistas pretendem confundir reforma com reformismo, do outro lado os reformistas pretendem confundir aventura com aventureirismo. Mas nós compreendemos que o reformismo é a reforma pela reforma, e o aventureirismo é a aventura pela aventura, como muito bem define Lénine num outro artigo que deve ser complementado com este, o que distingue o aventureirismo é que este não tem "princípios, não tem programa, não tem táctica, não tem organização, nem ligação às massas". Ora, a invasão do Iraque responde a um programa, com táctica, com organização, com a propaganda para convencer as massas. A guerra do Iraque é uma aventura, não é aventureirismo. É a resposta de Bush a necessidades imperialistas.

    Creio que é óbvia para todos qual a razão pela qual os reformistas pretendem obscurecer e dificultar a correta compreensão destes termos. Ser contra o aventureirismo não é ser contra a aventura per se. Demais a mais quando todos sabemos que a actividade revolucionária não existe sem a aventura, sem os mais variados riscos. Lénine e Estaline participaram em imensas aventuras, por exemplo, na organização deste arriscadíssimo assalto onde acabam por morrer 40 pessoas (ainda para mais em violação das decisões do Congresso).

    Bem, segue então um excerto que não substitui a leitura integral:

    "Anyone who really carries on his revolutionary work in conjunction with the class struggle of the proletariat very well knows, sees and feels what vast numbers of immediate and direct demands of the proletariat (and of the sections of the people capable of supporting the latter) remain unsatisfied. He knows that in very many places, throughout vast areas, the working people are literally straining to go into action, and that their ardour runs to waste because of the scarcity of literature and leadership, the lack of forces and means in the revolutionary organisations. And we find ourselves—we see that we find our selves—in the same old vicious circle that has so long hemmed in the Russian revolution like an omen of evil. On the one hand, the revolutionary ardour of the insufficiently enlightened and unorganised crowd runs to waste. On the other hand, shots fired by the “elusive individuals” who are losing faith in the possibility of marching in formation and working hand in hand with the masses also end in smoke.

    But things can still be put to rights, comrades! Loss of faith in a real cause is the rare exception rather than the rule. The urge to commit terrorist acts is a passing mood. Then let the Social-Democrats close their ranks, and we shall fuse the militant organisation of revolutionaries and the mass heroism of the Russian proletariat into a single whole!"

    Cumprimentos

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  4. Esbanjar dezenas de milhões de Euros em operações militares para servir os interesses de organizações belicistas, já não há problemas.

    Quanto custa a Portugal os aviões militares que estão a ameaçar a Rússia nos países Bálticos ao serviço da NATO?

    Quantos milhões de Euros já custaram ao nosso país as guerras que não nos dizem respeito nem representam qualquer ameaça à nossa soberania?

    Bósnia, Afeganistão, Kosovo, Mali e por aí fora.

    A natureza do capitalismo não é salvar vidas, é provocar a morte.

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  5. Anónimo4/2/15

    40.000€ por doente, para 4.000 doentes faz 160.000.000€ e não 16.000.000€.
    Não que seja extraordinariamente relevante para a validade da argumentação porque não depende do valor absoluto, mas estando incorrecto, mais vale avisar e corrigir. Cumprimentos.

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    1. Também não é porque tenha grande interesse ou qualquer relevância.

      Mas é bom saber por quanto teria ficado a destruição da agricultura, de todo o setor industrial, frota marítima comercial, pesqueira, etc, etc......?

      E quantos "amigos" foram favorecidos com fundos para que esses actos criminosos se concretizassem?

      Quantos 160 M seriam necessários para cobrirem essa orgia de roubos e destruição?

      Isto para não mencionar os subsídios à lei dos poisios, financiamento a sementeiras de trigo para perdizes, eletricidade subsidiada para o aquecimento de piscinas privadas (uma invenção daquele coiso que mora em Belém) .

      Apoios para a construção de estádios de futebol, marinas privadas para embarcações de luxo, hotéis, condomínios de luxo, e foi com este regabofe todo que os Portugueses viveram anos acima das possibilidades e agora morrem que nem moscas por falta de dinheiro para comprar medicamentos.

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  6. E dizia o António Costa na Quadratura que o ministro Paulo Macedo estava a fazer um bom trabalho!

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