E se for: «proibida a entrada a pretos»?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Agora que já tenho a vossa atenção, gostaria de dizer duas ou três coisas sobre o assunto. A primeira vez que ouvi falar de uma barbearia que só atendia homens e cães pensei «ok, tá fixe». Mas a chave estava aqui: atendia.

Ao ler textos de gente despreocupada que escreve sobre moda e de repente usa o termo neomachista porque ficou de fora de um símbolo da cultura pop e não pode ir cortar o cabelo não sei bem onde acabei por não perceber exactamente do que se tratava.

Ao ver a acção do colectivo Interpolação Feminismos, cuja página de Facebook foi denunciada e já não está disponível (sem comentários) prestei atenção ao assunto e apercebi-me de que a questão nada tem a ver com a prestação de serviços. Tem a ver com a proibição de entrada no espaço. Que sendo privado, é aberto ao público. Não preciso de ser feminista (que não sou) nem de ser mulher para perceber a gravidade da questão.

Chama-se segregação, discriminação e crime.

Artigo 240.º - Discriminação racial, religiosa ou sexual
1 - Quem: 
a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género, ou que a encorajem; ou 
b) Participar na organização ou nas actividades referidas na alínea anterior ou lhes prestar assistência, incluindo o seu financiamento; 
é punido com pena de prisão de um a oito anos. 
    (...)

É a redacção do Código Penal. 

E o que as criaturas exibem como conceito ou estratégia comercial é um crime. Claro que, tratando-se de mulheres facilmente se perguntará: e os ginásios, os spas e por aí fora? Bem, a diferença, uma vez mais, estará entre prestação de serviços e admissão de entrada. E, tratando-se de mulheres, facilmente se terá a reacção que eu própria tive «não deve ser bem assim, devem estar a exagerar».

Não, não estão: o autocolante à porta tem 3 figuras. Um homem, um cão e uma mulher. Sobre a mulher está uma cruz. Mulher não entra. Claro, se fosse «Preto não entra», «Cigano não entra», «Pobre não entra» a mesma situação causaria muito mais incómodo. Seria evidente a discriminação. Pergunto-me: como não é evidente - por se tratar de mulheres? Por que é que a reacção imediata é a relativização do assunto? Por um lado pelo absurdo que é conceber sequer que se proíbe a entrada de uma mulher onde quer que seja. Por outro lado: «nunca fui discriminada por ser mulher, bem pelo contrário». Por outro lado: misoginia. 

Porquê? Alguns - note-se aqui: alguns - dos que se indignam com esta discriminação inaceitável não se indignam com a violência e ilegalidade das discriminações salariais, das violações dos direitos de maternidade, com os patrões (particularmente nos hipermercados) que pedem às mulheres que ponham as mamas de fora para provarem que estão a amamentar, com os horários de trabalho incompatíveis com a participação social e política, com leis laborais criminosas e por aí adiante. Gostava (muito) de ver uma invasão a um banco, pela forma deplorável como tratam as trabalhadoras deste sector. Mas fazem desta barbearia o alfa e o ómega.

Porquê? Alguns entendem que a gravidade não é assim tanta por serem mulheres que não podem entrar e cortar o cabelo num determinado sítio (e veja-se a gravidade de toda a frase), vão cortar a outro, também não é por aí. Pois.

Porquê? Porque ainda se nega a existência de discriminação em função do sexo ou identidade de «género». E ela existe e tem várias gradações consoante a classe (e aqui, lamento mas não concedo, a mulher burguesa não é discriminada na mesma medida e forma que uma mulher operária).

E com tudo isto, a acção da Interpolação Feminismos põe o dedo na ferida. Em Lisboa, século XXI, uma barbearia proíbe a entrada de mulheres. E, aparentemente, é coisa de somenos. Talvez nos obriguem a sentar no banco de trás dos autocarros. E se formos pretas talvez nem possamos votar.

47 comentários:

  1. o miguel tiago n concorda contigo

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    1. Os camaradas não têm de concordar sempre com tudo.

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    2. o miguel tiago explicou que não tinha visto qualquer sinal e parecia ser o mesmo conceito de spa e ginásios como a lúcia bem refere. Não tens foguetes do syriza para ir atirar?

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  2. Sendo o feminismo o sistema que defende a igualdade do homem e da mulher porque é que não te consideras feminista?

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  3. O feminismo não é sistema, é conceito. E não há só um feminismo, há feminismos. Não sou feminista porque os vários feminismos reconduzem a questão da igualdade a diferenças biológicas, ignorando frequentemente a classe a que se pertence. Enquanto a luta for de sexos, não é a minha. Repito: uma mulher burguesa não é discriminada na mesma medida que o é uma mulher operária. E ignorar isto não faz (para mim) qualquer sentido.

    Sobre o Syriza, francamente, não percebi. Mas não vou dar para esse peditório.

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    1. Compreendo e aceito. Obrigado pela resposta!

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    2. oh babes, mas também há vários comunismos que têm graves problemas e não é por isso que deixas de ser comunista. O mesmo com as esquerdas.
      Já para não falar de que a maior parte do feminismo de hoje em dia não vinca essa diferença. Aliás, dá para ver claramente na influência da teoria queer e da interseccionalidade.
      beijas,
      p fjo

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    3. Mas, Feijó, preciso de ser feminista para defender igualdade? Se não for já não defendo? Não há vários comunismo, há várias realidades/modelos concretos. Em termos ideológicos não há vários. Há vários feminismos e todos ele, na minha opinião, não enquadram devidamente a questão de classe. Beijo (e saudade, pá)

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  4. nem precisam de dizer que ciganos não entram. das últimas vezes que lá passei - antes ainda de taparem a montra com aquele papel opaco - lá estava o sapinho virado cá para fora.

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  5. "Não preciso de ser feminista (que não sou)" - isto foi um engano, não foi? é que eu começo mesmo a pensar que algo de grave se passa ali em s.bento....

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  6. vamos falar claro: 40 mulheres foram assassinadas pelos respectivos homens/maridos/ex nos últimos 12 meses, que se saiba e esteja provado. a violência contra as mulheres em Portugal é uma realidade. Mata. Exprime-se de muitas maneiras. E só se combate com medidas políticas e connosco, pessoas, todas juntas, a admitirmos que é um problema nosso, estrutural. Que nós discriminamos as mulheres, que as tratamos mal, que as mulheres ganham menos que os homens pelo mesmo trabalho, que são exploradas 2 vezes, no trabalho e em casa, que desde que nascem educamos as crianças identificadas com o género feminino como tendo que ser obedientes, doces, atentas, bem comportadas, discretas, a cuidarem das crianças, das pessoas doentes, idosas, abdicarem dos seus sonhos, da sua realização profissional, como se o facto de se ter nascido com uma vagina desse alguma capacidade especial para estas tarefas ditas "femininas" e um pénis não.
    o binarismo de género é uma prisão para todas as pessoas. dos géneros todos. isso não nega o facto histórico: as mulheres são exploradas pelos homens há séculos, com muitas lutas e muitas mortes conseguiram ter o direito a votar, a sair à rua sem autorização, e imaginem!, à igualdade perante a lei. ou seja: o feminismo é essa teoria que defende que as mulheres são pessoas.
    mas parece que em 2015, há pessoas com responsabilidades políticas que não leram o artigo 13º da CRP (constituição da república Portuguesa), o tal da IGUALDADE.
    enquanto as pessoas em quem votamos não perceberem que a exploração que as mulheres sofrem todos os dias é tão grave como o racismo, cada ano mais mulheres morrerão assassinadas porque o machismo estrutural desta sociedade e dos nossos representes políticos o permite e defende. basta.
    e garanto-vos que se mais algum deputado comete a estupidez de escrever "entre o homem e a mulher não existem relações de exploração." eu faço uma acção directa quando voltar a portugal num local público. vão ver o que é a "exploração" e o que custa viver com ela em cima todos os dias, ó machistas disfarçados de modernaços. cambada de morcões, como se diz na minha terra.
    * a propósito do post da Rita Gorgulho"

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    1. "eu faço uma acção directa quando voltar a portugal num local público" e faço queixinhas ao meu pai. toma.

      ...que croma...

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    2. O quê? Fazer estas figuras? Não faças isso a ti própria, R@qu@l Fr@ir@. https://www.youtube.com/watch?v=B5APgLMZ-I0

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  7. Raquel, não sou feminista. Não significa, de todo, que não defenda a igualdade. Não a defendo é nos mesmos termos que o fazem os diversos feministas. Nem sei a que te referes quando falas de S. Bento porque nem moro nem trabalho nesses lados.

    Não divido a sociedade entre homens e mulheres e não me revejo em nenhuma vaga dos feminismos. Sou, contudo, militante acérrima da defesa dos direitos da mulher e intervenho em várias associações de defesa dos seus direitos.

    Agradeço as palavras mas nem subsumo como causa primeira de discriminação a violência doméstica (está longe de o ser) e não posso defender os direitos das mulheres sem considerar a classe de que são oriundas. Uma operária numa fábrica de cortiça ainda ganha menos do que um homem nas mesmas funções. Uma professora ganha o mesmo que um professor. Uma mulher que seja vítima de violência doméstica que possa pagar as custas judiciais tem um grau de discriminação muito diferente de uma mulher que as possa pagar. E é precisamente a consciência de que as coisas são diferentes que me impede de ser feminista (e rejeito o feminismo marxista porque acho que ele próprio é uma antítese nos termos).

    A luta é de classes e essa luta contempla, como não podia deixar de ser, todas as discriminações. Já os feminismos se centram apenas e só na questão biológica (e construções sociais) ignorando, deliberadamente, a classe social como factor determinante. Enquanto assim for nenhum feminismo servirá devidamente a emancipação da mulher. E é isso que está em causa.

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  8. Esta Raquel Freire teve um espasmo nos ovários... Andam muito mal as ciências sociais portuguesas, quando gente deste nível é levada a sério!

    "e garanto-vos que se mais algum deputado comete a estupidez de escrever "entre o homem e a mulher não existem relações de exploração." eu faço uma acção directa quando voltar a portugal num local público. vão ver o que é a "exploração" e o que custa viver com ela em cima todos os dias, ó machistas disfarçados de modernaços. cambada de morcões, como se diz na minha terra."

    Pensas que esta merda é uma luta de pokemon ou quê?

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    1. Não é luta de pokemon, é a luta pelas mulheres, pelos seus direitos. E a Raquel tem toda a razão por querer lutar pelas mulheres. E acabar com o que se anda a passa pelo país.

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  9. A frase do ano "Pensas que esta merda é uma luta de pokemon ou quê?"

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  10. A Lúcia parece(-me a mim) que estar a axagerar um bocado. Gostava só de deixar o meu humilde comentário em relação a este tópico.

    Sou pela igualdade de direitos e deveres entre todas e todos e reconheço que existem ainda vários problemas de questões de género que podem ser resolvidos na nossa sociedade (ocidental e "previligiada"). Também os há, os problemas que têm sido resolvidos com o passar dos anos. E isso é algo que todos podemos louvar.

    Em relação ao letreiro, à porta da barbearia, pôr em causa a liberdade e igualdade das mulheres eu queria dizer o seguinte (que ninguém se ofenda demasiado porque não é preciso):

    1) A observação de que o letreiro põe as mulheres abaixo de cão é, para mim, estú... exagerada, vah. A meu ver, o letreiro não tem implícito que o cão seja melhor que a mulher, ou a mulher melhor que o cão (é uma comparação ilógica a meu ver até). Eu leio o letreiro como: "Homem sim, cão sim, mulher não." Não é preciso lê-lo de formas como: "O homem pode entrar, o cão como é o melhor amigo do homem pode também, a mulher como é uma cadela, não". De qualquer das maneiras, cada pessoa interpreta o letreiro à sua maneira, que pode ser tendo em conta o materialismo histórico, a emancipação da mulher, o liberalismo económico, a história do capuchinho vermelho. (Há até pessoas que ainda não sabem ler). Quem vai dizer como se deve "interpretar" um letreiro e depois mandar tirá-lo quando não gostar do que se lê? Por outras palavras, a moral da nossa sociedade depende assim tanto da existência, ou não, daquele letreiro?


    2) Quanto à decisão da barbearia de as mulheres não poderem ser lá atendidas. Eu cá acho que não há ninguém no direito de obrigar barbeiros ou outra pessoa qualquer a cortar o cabelo às mulheres, aos homens, ou às outras 7 000 milhões de pessoas diferentes na Terra. Dá ares de autoritarismo desmedido.
    Percebo que possam haver pessoas que se sintam ofendidas por esta regra do estabelecimento e que queiram assim manifestar-se de várias formas e feitos. Mas acho também que irem lá para dentro aos gritos, encapuzadas e aos saltos contra as pessoas e esperar que toda a gente lá dentro (inclusive pessoas que pagam para ali estar) compreenda o que ali se está a defender parece-me um bocado rebuscado. Também não fico muito confortável ao pensar que vivo numa sociedade onde me podem entrar pelo estabelecimento adentro (imaginemos uma sapataria) aos gritos, e encapuzados a filmarem-me por eu ter escrito na porta: "Só cá entram gays marxistas que curtem tony carreira" (era suposto isto ser uma especie de piada, talvez o exemplo não seja o melhor, tanto que não deve existir nenhuma pessoa assim). Vais

    3) Na questão de género, acho que não é assim que se muda algo. Visto de fora parece mais uma cena de vandalismo de espaço público/privado. Há que lutar pelo direito à igualdade de acesso, de direitos e de deveres mas uma coisa que é muito important mantermos nas nossas cabecinhas pós-modernas, é, julgo eu, que diferenças físicas, hormonais, comportamentais, da psique e sensoriais são diferentes entre homens e mulheres. Que não se espere que tenhamos todos de urinar de pé ou usar tampões.

    PS: Não conheço as pessoas intervenientes nem a barbearia em si e não sei bem porque me estou a dedicar a expor esta ideia aqui, mas pronto, cá fica.

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  11. Não é um letreiro. É um estabelecimento comercial que impede que as mulheres entrem. Ponto.

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    1. Impede como assim? Existe um porteiro à entrada do estabelecimento? As mulheres que entrem ali dentro são expulsas? Se sim, de que forma? São agredidas, ignoradas, são mal educados para com elas? Não percebo bem esse "Ponto" que a Lúcia parece tão veemente querer impor.

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    2. Caro António, a resposta a tudo isso na primeira pessoa pode ser lida aqui: http://mariacapaz.pt/cronicas/sobre-figaros-barbershop-misoginia-por-leyla-lagosta/

      Entretanto, isto começou a ser falado por causa de um homem, que se deslocou à barbearia em questão com a mulher e a filha e a quem foi dito que a mulher e a filha teriam de sair enquanto ele cortava o cabelo. Infelizmente não encontro esse link.

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    3. Aqui está:

      http://dirigivel.blogspot.pt/2014/10/menina-nao-entra.html?m=1

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    4. Caro André e Anónimo, obrigado pela info e pelos links.

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  12. Feminista: Pessoa que acredita na igualdade política económica e social dos sexos. Estás então a dizer que não acreditas na igualdade dos sexos?

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    1. Toda a pessoa que acredita na igualdade política económica e social dos sexos é feminista? Ou algumas pessoas que acreditam na igualdade política económica e social dos sexos são feministas? Pode-se acreditar na igualdade política económica e social dos sexos sem se ser feminista, ok? ;)

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    2. Trigo limpo, farinha amparo!!

      Eu acredito na igualdade política, económica e social tout court. Não é só entre sexos, é entre todos. E por isso é que sou comunista. A discriminação das mulheres no salário é apenas mais uma razão para fazer a revolução e alterar as relações sociais.

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    3. Bom, se formos reduzir de forma tão tacanha a intervenção sobre o mundo entre feministas e não feministas, está mais do que dito o que é, para alguns, o conceito de feminismo.

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  13. Notava-se uma certa sensibilidade de Lénine para com a questão da libertação da mulher trabalhadora. Ler:

    "For under capitalism the female half of the human race is doubly oppressed. The working woman and the peasant woman are oppressed by capital, but over and above that, even in the most democratic of the bourgeois republics, they remain, firstly, deprived of some rights because the law does not give them equality with men; and secondly—and this is the main thing—they remain in household bondage", they continue to be “household slaves", for they are overburdened with the drudgery of the most squalid, backbreaking and stultifying toil in the kitchen and the family household." International Working Women’s Day, 1921.

    Dou razão à Lúcia e defendo que este debate se tem que fazer novamente. O debate sobre o que é ser feminista hoje e quais os aspetos da emancipação da mulher trabalhadora pelos que temos de lutar.

    Têm aparecido por aí movimentos ditos feministas, nem vou referir nomes, com tendências claramente burguesas e objetivos que convergem com as necessidades atuais do capital.

    Muitos e muitos debates de faca e alguidar com as feministas mais histriónicas deixaram-me marcas profundas.. e o facto de uma merda duma barbearia conseguir provocar tanta algazarra mostra o estado em que estamos.. queria ver se fosse com uma trabalhadora do supermercado, quantos é que se recrutavam para lá ir armar a puta..

    Cumprimentos

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    1. Se fosse o quê com 1 trabalhadora do supermercado? Só uma? Já vi gente ir acudir 1 trabalhadora. É a caridade. E a maçada burguesa do letreiro anula as restantes lutas? As lutas em várias frentes anulam-se umas às outras?
      Quanto a puta, que eu saiba somos todas.É essa a nossa condição desde que nascemos. Continuamos a ceder e a condescender no letreiro que nos dá por "salopes que não entram"...e nem uma trabalhadora explorada se safa.
      Os oprimidos são muitos e por muito diferentes que sejam, os oprimidos e as opressões, há um traço comum que os/as atravessa. Os contributos são todos válidos para combater a opressão. O feminismo não é uma Ong impostora, somos nós, as putas que diariamente levam com merdas e lhes reagem, cada uma às suas trampas e ao "fim do dia" há Coletivo. Todos os dias e desde sempre. Sem agenda nem panfleto, a maior parte das vezes. Putas, somos todas ou havia a ilusão que só a trabalhadora do supermercado era vista assim? Um termo que não tem equivalente no masculino, com semelhante carga fonética.
      O que me interessa a fome das crianças em portugal se há crianças miseráveis, doentes e mortas nos países africanos? Esta é a sua lógica?
      Recomendam num mural do fb que as tementes espreitem isto:
      http://en.wikipedia.org/wiki/Intersectionality

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  14. Agora sobre o comentário da Raquel Freire: papeis de género e exploração entre sexos. Estamos de acordo na primeira questão e em desacordo na segunda.

    Sim existem reminiscências reaccionárias que subalternizam o papel da mulher na sociedade. Isso é inegável, e é mais uma razão para tomarmos o poder e assim podermos operar uma transformação cultural a este nível. Ou também aqui nos vamos ficar pelas reformazitas e as quotas?!?!

    Sobre a exploração da mulher pelo homem.. não quer desenvolver um pouco mais?

    E se quiser fazer uma ação direta, eu alinho nela. Escolha uma dessas fábricas têxteis onde as operárias trabalham pelo salário mínimo. Vamos lá, raptamos @ patr@@, obrigamos @ fdp a aumentar salários e ainda lhe cobramos o imposto revolucionário. Alinhas?

    Cumprimentos

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  15. Um bom post que desperta alguns comentários bem curiosos.

    Outros nem tanto.

    Mas as marcas cada um mostra as que tem.

    É como as farsas

    De

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  16. Aguardo ansiosamente pelo dia em que homens e mulheres vão partilhar o mesmo WC, os mesmos balneários, etc, etc. Igualdade.

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  17. O que Argala diz e com toda a razão é que é sempre curioso como estas polémicas e acções nunca incidem sobre mulheres operárias e pobres que sabem realmente o que é exploração e opressão. Isto não é por acaso, é a realidade do feminismo pequeno-burguês que temos. Eu até percebo a indignação por o letreiro ser ofensivo, mas não concordo que um produto ou um serviço não possa ser prestado selectivamente a homens ou a mulheres - e é natural que apareçam piadas como as do anónimo anterior. Agora insisto já as mulheres que sabem o que é exploração e opressão nunca se lembram delas.

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  18. o miguel tiago é acionista desta barbearia?

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    1. penso que não, mas se fosse seria "accionista", que acho que ele não escreve com o AO...

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  19. Se quiserem falar de barbearias terei todo o gosto, mas tendo em conta que o nome do tópico "e se for proibida entrada a pretos?", já percebi que não é para falar de barbearias com toda a certeza.

    Para falar de desigualdades também não sirvo, a minha avó recebe mais reforma que o meu avô, a minha mãe trabalha menos horas e mesmo assim recebe mais que o meu pai, as mulheres que trabalham comigo recebem mais do que eu, etc, etc...por isso para encher a internet de suposições e mal entendidos, vou-me abster.

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  20. o miguel tiago deve adorar ir lá

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  21. Ya. Todos os dias fazer a minha farta barba. Rodeado de cães e sem mulheres à volta. Curto bue

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  22. E perante isto, um/a jurista para redigir a queixa à Provedoria de Justiça? A situação é conhecida há muito e nada foi alterado. Falta a queixa.

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  23. Partilhei o texto porque faz um retrato da situação. É útil, dá jeito.
    O feminismo não é nem tem de ser um conceito. É uma condição inerente a qualquer mulher que exija a igualdade perante a lei e em sociedade, a qualquer homem que faça o mesmo. Não vão ser as escravas da biologia e as inconscientes da diferença de condição "mulher rica/mulher pobre" que arrancam o feminismo a alguém só porque sim ou por achismos.Só não me posso intitular uma "mulher feminista" porque isso é um pleonasmo já que combato a desigualdade, neste caso de género.
    Ler esse seu parentisis é para mim ler "sou preta, luto pela libertação mas não sou anti-colonialista", isso fragiliza logo um discurso e uma luta inteira. Perda de tempo com a urgência de se anunciar o que se é ou deixa de ser num texto que designado tecnicamente por feminista. Estar a bater nesta tecla parecer-lhe-à um detalhe fútil mas é o equivalente ao "atendia". Faz a diferença e nem sequer seria assunto para matraquear se não tivesse havido o parentisis: (eu sou pelo estado social mas não pago impostos?)
    Consigo dizer-lhe, no entanto, que acabei por me ignorar olimpicamente e deitar antes esta minha intransigência para o lixo, who cares about me!
    Trata-se de um texto feminista, infelizmente um imperativo.
    Divulgue-se e neste caso com urgência. Obrigada por este texto.

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    1. Catarina,

      Tens que explicar o que é a desigualdade de género. Em que consiste. Não é porque eu negue que ela exista, mas porque circulam por aí teses que eu considero reacionárias e se ajustam simplesmente às actuais necessidades do capital, de negar a sexualidade reprodutiva ao proletariado, negar a necessidade de transformar as relações sociais, e vender uma "modernidade" absolutamente obscurantista.

      Eu creio que o capitalismo encontrou apenas algumas coincidências históricas com o movimento feminista precisamente pela necessidade de comprimir os salários em relação ao rendimento nacional.

      E sim, podias ser preta e colonialista. Aquilo a que Malcolm X chamava House Negro. Tal como eu conheço autodenominadas feministas que, para mim, são o pior inimigo das mulheres trabalhadoras.

      Cumprimentos

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    2. Obrigada pelas palavras, Catarina. No entanto não posso concordar com o determinismo feminista que pretende impôr ao texto. Os conceitos são fundamentais e não são desprovidos de ideologia. Se recuso os feminismos é porque não me identifico com eles e com o que defendem, no caso, por entender que são bem mais atávicos do que o meu conceito de igualdade. Levado ao extremo, o seu pensamento, concluiria que um homem não pode ser feminista.

      Não sei desde quando é que a igualdade exige que sejamos feministas, aliás, a imagem usada no texto é precisamente retirada do movimento sufragista americano que, feminista, defendia o voto para as mulheres: mas só as brancas. Daí que não concorde, de todo, com o pressuposto de que o feminismo é condição sine qua non para a defesa da emancipação feminina.

      E francamente não entendo o choque que provocou esta afirmação. Aliás, entendo. O texto cedo se tornou sobre isso ao invés de suscitar comentários sobre a razão que me levou a escrevê-lo. O que só por si revela bem a raiz pequeno-burguesa da maioria dos feminismos que por aí grassam.

      Não defendo, como aqui foi dito, que nos devemos preocupar "é com as operárias": uma coisa não determina a exclusão da outra. Mas exaspera-me, como aliás o disse no texto, que a emancipação da mulher só seja tema na violência doméstica ou na Figaros.

      Quanto à queixa à Provedoria, de pouco adiantará uma vez que não há qualquer poder executivo.

      Da minha parte fiz o que me competia: denunciei publicamente (aqui, no facebook, na televisão) e fiz uma queixa às autoridades competentes pela fiscalização. Não é meu apanágio dar nota de tudo o que faço, mas muito menos ficar-me pela rede. Que também é uma diferença muito grande entre afirmar-me feminista ou não e lutar - efectivamente e no concreto - pela igualdade e pela emancipação. Normalmente quando chega ao blogue ou às redes sociais, o que tinha a fazer (no concreto) já está feito. Não tenho é por hábito anunciá-lo publicamente.

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    3. Esbarrámos na intransigência mútua. É quando daqui já não se avança e o combate acaba por ineficácia, "aqui" simbolicamente. Noutro comentário, a Lúcia poderá constatar que referi homens feministas. Se me permite, formalmente faz lembrar aquela da igualdade de direitos civis, "sim com certeza mas não lhe chamem "casamento" !pow! estaca zero.
      Se houve tiques burgueses nos comentários, não houve um tique burguês no texto com a necessidade de se demarcar? Não criou um ruído burguês e um obstáculo à mensagem que queria passar? Por mim dispensava a palavra feminista no texto, o que me surpreendeu foi ter de levar com ela.
      As interrogações que deixei agora (retóricas) são só exemplos do bloqueio entre duas pessoas, nós,que exigem o mesmo da vida mas que, em conjunto, perdem a força por uma intransigência. A minha será tão burguesa quanto a sua e no entanto, não cedo (pq é o detalhe do "atendia") e a Lúcia continuará a ter resposta para mim.
      Numa micro escala, consigo perceber porque continua a "Mulher na Prisão" e porque é que o letreiro da barbearia vai permanecer lá e a multiplicar-se a um nível inconsciente, se preferir.
      Perante um "inimigo comum e opressor", as divergentes não cedem e o inimigo avança, ou a "inimiga", de opressão. Não invento isto, está na literatura e é comprovado pela realidade ou vice-versa. Primeiro o voto era só para as brancas? Essas mulheres foram um obstáculo ao voto para todos ou fizeram parte do processo? Bem sei, é lento e frustrante a igualdade passo a passo.Quanto à ação em nome da mesma igualdade, a ideia que tenho de mim é a de estar sempre no terreno porque nem sei sair dele. Ainda bem que fez a queixa, obrigada.

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  24. Cara Catarina,

    parece-me que está a laborar num erro. Não há qualquer intransigência, apenas diferença de opiniões sobre conceitos. Nada mais. Toda a cedência da minha parte na medida em que a luta se constrói mesmo com todas essas divergências quando o objectivo é comum, naquilo que é comum. Mas essa cedência não pode (nem deve) implicar que a todo o momento as coisas sejam discutidas, com a necessária profundidade que merecem. Isso não significa, de todo, que não exista unidade na acção, mesmo no quadro da divergência. E assim se avança.

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  25. Concordo, Lúcia. Concordo efetivamente consigo.
    Há momentos na "discussão pública" em que a mera teima exaspera ao ponto de nos levar, por vezes, a generalizar vendo mais uma teima e outra e outra, em vez de uma conversa que avança e que acrescenta. Às vezes, são momentos que se resumem à projeção, no interlocutor, de uma teima que já é só "nossa"/minha.Uma espécie de defesa. Comete-se o erro do qual se passa a vida a fugir. Espero estar a conseguir explicar-me.
    Continuo "na minha", realmente, mas percebo que a carga com que o expus ou a excessiva força que dei à expressão me fez, de facto, cometer o erro.
    Suspeito que na altura em que escrevi "ainda bem que fez a queixa", terei sentido muito ao de leve o que me está a dizer. Este seu último comentário confirma-me a suspeita...que foi insuficiente para ter vontade de alterar o meu. A Lúcia diz-me que terei laborado um erro e eu concordo consigo. Não calcula o alívio que isso me dá, nitidamente a discussão pública não me tem sido simples, já agora largo o desabafo.
    Não creio que alguma vez me vá ser agradável aquela parte do seu texto, nem que seja por "mero" efeito estilístico (não é de somenos importância) e no entanto, claro que é assim que se avança.
    Ok! :)

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