O imperialismo também usa silenciador

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Esta tarde, o deputado venezuelano Robert Serra, eleito pela zona de Caracas que inclui o bairro 23 de Enero, baluarte da revolução bolivariana, ia participar numa conferência consignada ao tema «Fascismo, vanguarda extrema da burguesia». Mas já não vai. Caiu assassinado mais a sua companheira na noite passada. Para lá da especulação, há boas razões para suspeitar do imperialismo, essa mão invisível que se abate sobre os povos mas que só se confirma décadas depois quando se desclassificam documentos.

Um desses guerrilheiros que se levantou em armas durante décadas contra a oligarquia venezuelana confessava-me há dias que já havia tropeçado em gente que duvidava da intervenção imperialista no país de Bolívar e Chávez. Suponho que a ingenuidade floresça através da sementeira ideológica que impõem os meios de comunicação para ofuscar a realidade. A contra-revolução em Portugal não começou a 11 de Março ou a 25 de Novembro. Desde o primeiro dia, as potências capitalistas distribuíram armas, deram preparação militar, montaram uma ampla rede mediática, deram assessoria política e investiram milhões em organizações e partidos que sendo de direita eram obrigados a dizer-se de esquerda. Não é novidade e tudo isso era amplamente denunciado pelos comunistas e aliados durante o processo revolucionário. Contudo, tudo o que hoje se pode confirmar através de documentos dos próprios pontas-de-lança do imperialismo - que antes eram confidenciais e que, entretanto, foram tornados públicos - comprova aquilo que para alguns era tão pouco credível.

Hoje, décadas depois, os vencedores atrevem-se a admitir aquilo que sempre negaram. No entardecer da vida, recordam com nostalgia os tempos em que financiavam o PS e o PSD e explicam sem inibições que a estratégia era vencer os comunistas defendendo princípios de esquerda para solidificar o poder para mais tarde entregar o país de bandeja à Europa capitalista. E assim foi. Apesar de terem tardado quase quatro décadas de resistência e luta dos trabalhadores, não há sinais da Reforma Agrária e a grande indústria depois de privatizada foi desmantelada. Os serviços públicos jazem nas mãos de privados e os que ainda sobram esperam a sua vez na fila.

Na luta de classes, o capitalismo investe na distracção. Enquanto inventa novas mascotes terroristas para justificar a invasão e a pilhagem, o imperialismo usa toda a parafernália mediática para semear o medo. O oligarca ordena, o jornalista aponta e por todas as partes é o sangue dos trabalhadores que jorra. Nesta farsa em que vivemos, permanentemente bombardeados por informação falsa, escolher entre a verdade e a mentira afigura-se uma árdua tarefa que exige um esforço hercúleo. É por isso que a batalha da comunicação é fulcral. E na Venezuela, onde o petróleo está nas mãos do Estado, onde o poder dos media foi desafiado e onde as conquistas sociais avançaram décadas em poucos anos, o imperialismo caminha com a sua mão silenciosa mas sangrenta.

Assistimos, hoje, a várias frentes abertas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Na Líbia, na Síria, no Iraque, no Curdistão, na Ucrânia, na Venezuela e na China, o imperialismo desdobra-se em intervenções indirectas utilizando métodos que não sendo novos surpreendem pela simultaneidade. Há que denunciá-lo. O imperialismo também usa silenciador: todas as suas ferramentas de comunicação. A crise do capitalismo e a existência de novas realidades geopolíticas que desafiam o imperialismo torna-o agressivo. Só a unidade dos trabalhadores e dos povos, a sua luta e resistência, poderá frenar esta ofensiva que pode desembocar numa guerra mais alargada pondo, inclusive, em risco a própria humanidade. É esse o repto: acabar com o capitalismo antes que ele acabe connosco.

7 comentários:

  1. Quando matam é por desespero. Este crime contra o deputado venezuelano terá, de certeza, reflexos na sociedade americana, hoje a cair de podre.
    Quanto mais dinheiro gastam em armas para matar inocentes, mais problemas têm para resolver em casa.
    Washington parece não perceber isto. A própria intervenção na Síria é tão estúpida como perigosa e pode ameaçar os próprios Estados Unidos da América.
    Washington não tem visão nenhuma do que está a fazer. É tudo feito a sangue-frio, tal como este crime cometido contra Robert Serra.

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  2. Unidade dos povos? Isso é um delírio, sejam de direita ou de esquerda os povos são nacionalistas e dominadores e só precisam em determinada altura de possuir mais poder para dominar outrém, foi assim com o Império Romano, Mongóis, China, Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Rússia, Alemanha, EUA, URSS etc coisa e tal! Unidade dos povos, este mundo é prolífico em inocentes!

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  3. É pena que o anónimo das 07:00 não tenha entendido nada acerca da morte de Robert Serra e da sua companheira María Herrera. É muito provável que este episódio tão duro e difícil lhe tenha passado ao lado.
    Se tivesse acompanhado as últimas notícias e imagens do velório deste jovem deputado venezuelano, teria compreendido melhor a expressão «unidade dos povos» e, neste caso, «unidade do povo venezuelano».
    Infelizmente, o que grassa neste anónimo é a ignorância de nem se quer sentir ou expressar a dor deste momento, num jovem que foi baleado pela direita fascista, apoiada por Washington e congressistas do género McCann.

    É a ignorância estúpida, ordinária e imbecil.

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  4. Na Venezuela é mais provável morrer baleado num assalto comum do que num acidente de automóvel! Casais a morrer assassinados são às dúzias por dia, é coisa já antiga, anterior ao Hugo Chavez! Deixem a porra da mania do internacionalismo e preocupem-se em defender os portugueses do neoliberalismo!

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  5. Mas que LaPalissada!
    Comunismo contra capitalismo?
    Ontem, Hoje e Sempre.
    Qual a novidade?
    Os vossos heróis não mataram à fartazana?
    Os vosso patronos soviéticos não conspiraram, subsidiaram e desinformaram?
    Se é para ver quem acaba primeiro, vão os comunas com assinalável vantagem na dianteira.

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  6. Não há dúvida que a ignorância e a estupidez são capazes de comentários inéditos. Basta ler o comentário das 16:26 e a do autor do blog "A Chispa", o conhecido José.

    Só um idiota poderia igualar a morte do deputado Robert Serra a qualquer outro crime praticado na Venezuela, sem perceber a situação política.

    É preciso ser bronco para ter esta falta de jeito e capacidade, mas a verdadeira ignorância é capaz de tudo.

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  7. Sabemos que qualquer imbecil é capaz de dizer isto:

    «Na Venezuela é mais provável morrer baleado num assalto comum do que num acidente de automóvel! Casais a morrer assassinados são às dúzias por dia, é coisa já antiga, anterior ao Hugo Chavez! Deixem a porra da mania do internacionalismo e preocupem-se em defender os portugueses do neoliberalismo!»

    O crime contra Robert Serra foi um acto cobarde, mas está de acordo com um novo plano, conduzido pela extrema direita fascista venezuelana, apoiada pelo colombiano Álvaro Uribe e congressistas americanos, como John McCann.

    Por detrás desta morte, está o nome de Lorent Saleh, pertencente a um grupo de extrema direita chamada «JAVU». Por outro lado, temos o deputado da extrema direita, Carlos Berrizbeitia, que disse a alguns deputados socialistas venezuelanos terem os dias contados.

    A declaração de Berrizbeitia foi antes do atentado. Horas depois, foi assassinado Robert Serra. Terá sido uma ordem dada por televisão? Qual a conexão entre este deputado e Lorent Saleh? Este último advertia num video amador que algumas execuções seriam feitas contra quadros médios do partido socialista venezuelano.

    O caso é grave, porque mostra a que ponto pode chegar o desespero da direita, como também do imperialismo americano.



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