Cancro: sou contra - és contra o quê?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

É a altura do Peditório Nacional da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Nos cruzamentos, semáforos, em vários locais, incluindo hospitais do Serviço Nacional de Saúde estarão pessoas, voluntários, que abnegadamente dispõem do seu tempo e da sua bondade para ajudar neste ... peditório... convictos de que estão - e estão - a dar o seu genuíno contributo na luta contra o cancro.
Começa a altura em que as televisões, os outdoors, as revistas e a internet se enchem de um cartaz cuja face famosa varia, permanecendo a afirmação. Sou Contra.

Saltam logo as caras conhecidas a fazerem a sua campanha anual, com cara séria, a apelar aos sentimentos mais nobres de cada um de nós. No entanto, não consigo deixar de pensar naquela frase. «Sou contra.». Mas contra o quê?

Contra o fim da isenção de taxas moderadoras para os doentes crónicos? É que um doente com cancro não tem necessariamente que morrer. Pode ser «tão só» um doente crónico sujeito a tratamentos duros, invasivos e desgastantes. Pode mesmo ter derrotado o cancro e ficado com algumas das muitas consequências da sua presença. Mas se essa consequência não estiver tabelada, este governo não o deixa ter a sua doença - que é crónica - e, consequentemente, até pode ter que ir ao hospital três a quatro vezes por mês. E, de todas as vezes, terá que pagar taxa moderadora (7, 75 euros), exames (desde 4 euros de uma análise ao sangue até aos 40 e muitos euros de uma colonoscopia com sedação e biópsias), urgência (20 euros). Se não tiver dinheiro, não faz os exames nem vai às consultas. Pode ter a sorte de ter uma recidiva e, voltando o cancro, volta a estar isento. Mas isto se tiver a sorte de o cancro voltar.

Contra a inexistência de medicação de última geração nos hospitais? É que como a medicação é muito cara, este governo tem optado por não dotar os hospitais do SNS e, assim, os doentes cancerosos fazem uma medicação menos eficaz, com menos probabilidades de resultados eficazes, com terapias mais invasivas e dolorosas ou não fazem nenhuma porque o medicamento não é vendido nas farmácias e mesmo que fosse, não tinham dinheiro para o comprar.

Contra a recusa de tratamentos paliativos porque são dispendiosos? É que são recusados numerosos tratamentos com vista apenas ao bem-estar de doentes cancerosos em estado terminal, e como vão morrer e vão, bem podem morrer com dores que se calhar ninguém vai perceber porque eles já nem falam.

Contra o fim do transporte gratuito de doentes? É que com as alterações deste governo, iniciadas com o governo PS ao transporte de doentes, se um doente com cancro tiver a sorte de lhe ser atribuído um transporte, só tem que caber no horário dos outros 6 doentes transportados na mesma ambulância e assim, quando vai fazer o tratamento a um hospital a 60 km da sua residência (ah, sim, várias valências estão encerradas!) só tem que ficar o dia todo fora de casa, sozinho (vá, na companhia dos outros doentes que não conhece de lado nenhum), deste as 7 da manhã até às 18 porque tem que esperar por todos os tratamentos (uma vez que a ambulância, como é evidente, só vai fazer uma viagem).

Contra o preço absurdo da medicação? Particularmente aqueles medicamentos mais capazes do controlo da dor, esses também não são a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e necessários e mesmo que sejam, a pessoa com cancro tem que escolher. Ou toma os que tem mesmo que tomar ou...

Contra a inexistência de um regime laboral e de segurança social de protecção aos doentes com cancro? Pois, é verdade! Quem tem cancro não tem um regime que tenha em conta o natural absentismo de pessoas que têm que fazer quimioterapia, radioterapia - de novo, nem todos os doentes com cancro morrem! - e os proteja nesta situação tão complicada. A lei está há décadas por regulamentar e, graças a Mota Soares, os doentes com cancro (e todos os outros que estejam doentes por mais de 30 dias) têm direito a apenas 55% da sua remuneração base.

Contra o encerramento de hospitais? Esta é auto-suficiente, não é?

Contra a falta de médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos e outros trabalhadores nos hospitais e centros de saúde? (esta também se explica a si mesmo, vá)

Contra a inexistência de uma legislação laboral que permita a um membro da família (pai, mãe, filho, filha, avô, avó e outros parentes, já ficaram com a ideia) poder cuidar de uma pessoa com cancro sem ter que perder o emprego ou, optando pela «baixa» para assistência à família, perder o salário e apenas prestar apoio 15 dias? (é que às vezes dar banho, alimentar, cuidar, fazer companhia, amar, leva bem mais tempo do que isso...)

Sou contra. Contra o quê?

Eu sou contra a falta de dignidade na vida e na morte de uma pessoa. De qualquer pessoa. Particularmente quando essa pessoa tem cancro. E sei - sei-o de facto - que alguém com cancro não precisa de um peditório. Essa pessoa tem direitos. E esses, exige-se que sejam cumpridos. Um doente com cancro não precisa de esmolas. Precisa que o Estado assuma o seu papel, cumpra e garanta o seu direito à saúde e respeite a dignidade de cada ser humano.

14 comentários:

  1. Muito, muito bom !

    Alguns números que falam por si:

    -há 1 600 000 utentes sem médico de família;

    -entre 2007 e 2012, a despesa pública com a saúde diminuiu 8,6 por cento, enquanto a despesa das famílias aumentou 13,9 por cento. As famílias portuguesas gastam hoje 5,2 por cento do seu orçamento familiar com a saúde, enquanto a média nos países da OCDE é de 3,2 por cento.

    -as famílias suportam de forma directa cerca de 30 por cento das despesas com saúde;

    -os quatro grandes grupos privados de saúde (BES Saúde, José de Mello Saúde, Lusíadas Saúde e Trofa Saúde) controlam 83 por cento do chamado «mercado de saúde», que representa qualquer coisa como 1500 milhões de euros/ano, e mais de metade das unidades de saúde do País, das quais 23 são hospitais;

    -parte substancial das receitas destes grupos são garantidas pelo Estado, através do regime convencional, das PPP ou de subsistemas como a ADSE. No caso do BES/Saúde, atinge os 50 por cento;

    -nos últimos quatro anos, os cortes no sector atingiram os 1667 milhões de euros. Anulando-se o efeito do aumento dos preços, isto significa uma redução real de 2398 milhões

    Daqui:
    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/numeros-que-falam-por-si-1792626

    (De)

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  2. Muito bom texto e opurtuno.

    A.Silva

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  3. Gostei, texto muito oportuno e relata bem o estado da saúde que se vive em Portugal.

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  4. O que dizer do anúncio «Sou Contra» com um actor conhecido de telenovelas? Esta, como outras, faz lembrar a campanha contra a doença do «lupus». O actor escolhido? Nem mais, nem menos, do que o actor medíocre e de direita, Nicolau Breyner. Nesta campanha, Nicolau Breyner tentava representar um homem doente com «lupus». De morrer às gargalhadas. A famosa «Tia Eva» tentou, como também tentou este outro medíocre que entrou na campanha contra o cancro.

    Aliada a estas campanhas (do sabe-se lá para quê), estão sempre as mesmas caras... as mesmas mediocridades.

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  5. ah, ah, o Nicolau Breyner e a maioria dos subsidioactores são agora apoiantes do António Costa..

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  6. Decrete-se a felicidade geral!
    cada um que diga qual é a sua, e exija-a sem transigência, sem recuo!
    Alguém há-de pagar, a começar por quem tem mais do que eu.
    Quando chegar a minha vez, SOU CONTRA!
    Tão fácil ser bonzinho... até que chega a conta.

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  7. - Mas a conta não está a chegar, todos os dias que passam?
    Então as PPP, e Swaps, e privatizações, e proventos dos gestores bancários,e juros das dívidas contraídas pela seita ao serviço da banca, e néscios e pútridos "empresários" com marcas indeléveis de corrupção coladas ao cangaço, e troikistas néscios e pútridos, e torcionários ao seu serviço...todos eles a apresentar a conta para que os que trabalham pagarem?

    -Felicidade geral?
    Mas que obtusidade mal cheirosa é esta que nem sequer sabe que o que está em causa não é esta pirosice declamada em jeito de pedante da extrema-direita, ("decrete-se a felicidade geral") mas o direito à dignidade e à saúde?

    - "Alguém há-de pagar a começar por quem tem mais do que eu"...mas que tontice é esta?
    Que prosaico argumento girando em torno do umbigo neoliberal, mas em que se detecta de forma marcada esta sabujice de defesa dos que mais têm e o complexo de poltrão na defesa do patrão.

    - A vez do sr jose? Mas não se lembram da vez do sr jose? Dos tempos do fascismo, considerados por este como "tempos progressivos?

    Então é só ler o post seguinte

    De

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  8. A saúde em Portugal durante a ditadura e os ganhos em obtidos com o SNS

    Em 1971 a despesa nacional com a saúde representava 2,6% do PIB e a grande maioria da população não tinha acesso aos cuidados de saúde. Era o tempo das Misericórdias onde a prestação de cuidados era gratuita mediante a apresentação de atestado de pobreza e dos postos da “Caixa” criados pelos regimes de segurança social das diversas actividades económicas e profissionais. E apenas acessíveis aqueles que descontavam para a “Caixa”.
    Alguns indicadores de saúde expressam bem a realidade daquela época e a realidade actual.
    A taxa de mortalidade perinatal, o número de óbitos fetais de 28 ou mais semanas de gestação e óbitos de nados-vivos com menos de 7 dias de idade, era em 1960 de 42,2 por mil e em 2012 baixou para 4,2 por mil.
    A taxa de mortalidade neonatal, número de óbitos de crianças com menos de 28 dias de idade, era em 1960 de 28 por mil e em 2012 baixou para 2,2 por mil.
    A taxa de mortalidade infantil, número de óbitos de crianças com menos de 1 ano de idade, era em 1960 de 77,5 por mil e em 2012 baixou para 3,4 por mil.
    A taxa de mortalidade materna, número de óbitos de mulheres devido a complicações da gravidez, do parto e de puerpério, era em 1960 de 115,5 por 100 mil e em 2012 baixou para 4,5 por 100mil.
    Os novos casos de tuberculose por 100mil habitantes eram em 1960 de 194,5 e em 2011 baixaram para 22,6.
    A esperança de vida à nascença, número médio de anos que uma pessoa à nascença pode esperar viver, era em 1970 de 67,1 anos e em 2011 aumentou para 79,8 anos.

    Daqui:
    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/a-saude-em-portugal-durante-a-ditadura-1797836

    (De)

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  9. Impressionante!!!!
    Então paga e não chateies.


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  10. ( se o sôr jose não se importar, guarde para si os diálogos íntimos com o seu "amigo" da cerveja , o tal capo flamengo que prefere confraternizar com os seus acólitos servis em vez de fazer o que lhe compete fazer)

    "Uma das linhas de ataque que maiores prejuízos podem trazer ao SNS:

    Entre 2010 e 2013 (4 anos), reformaram-se 2 103 médicos, sendo que:
    1 050 são de Medicina Geral e Familiar,
    25 de Saúde Pública
    1 028 da área hospitalar.

    "Já em 2004, o grupo Jorge Mello, um dos maiores grupos económicos da área da saúde, considerava que “A SAÚDE ERA O NEGÓCIO DO SEC. XXI” constando mesmo no seu “site” em 3/6/2004 a seguinte reivindicação: “O GRUPO MELLO DEFENDE A PRIVATIZAÇÃO DE METADE DO SNS”.
    Em Março 2014 (está no “site” do grupo) “o presidente da José de Mello Saúde defende que a liberdade de escolha seja uma realidade no sistema de saúde”mas paga pelo Estado . E diz que “ acredita que, adoptada de forma progressiva, é, não só exequível, como se virá a tornar indispensável na estruturação e sustentabilidade de um sistema de saúde”.
    Em 27-3-2014, Paulo Macedo, ministro vindo do grupo BCP, afirmou na Comissão de Saúde da AR que “quer aumentar a escolha dos utentes na área das cirurgias, exames e consultas (DN)
    Artur Osório, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada,em entrevista dada ao JN en 31/3/2014, defendia que “os modelos públicos se
    transformem em privados, com gestão privada, com liberdade de escolha do doente” ,
    cabendo ao Estado a obrigação de garantir um serviço de saúde tendencialmente
    gratuito , ou seja de o pagar
    A administradora Isabel Vaz da ES Saúde do grupo Espírito Santo, defende que o
    O.E. deve financiar seguros de saúde para todos os portugueses, a fim de que estes
    possam escolher entre serviços privados e unidades de saúde públicas em igualdade de
    concorrência.
    O PSD defende também no seu programa a liberdade de escolha entre serviços de saúde entre privado e público, mas ambos pagos pelo OE."

    Todas estas pérolas podem ser lidas aqui, neste excelente trabalho de Eugénio Rosa

    http://www.eugeniorosa.com/Sites/eugeniorosa.com/Documentos/2014/18-2014-35-anos-sns.pdf

    De

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  11. O José é mesmo estúpido (aqui no blog Manifesto 74). No seu blog «A Chispa!» é o herói do comunismo verdadeiro e ainda não proclamado. Haja paciência com este idiota.

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  12. Excelente.
    Fazer das campanhas contra o Cancro (e outras) tribunas publicitárias para muitos dos "famosos" é já um hábito. Nunca atacam as causas.. E têm sempre uma perspectiva caritativa do assunto.
    Mas ca raio de pergunta, quem é que não é "contra o Cancro?

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