Política e Geometria 3

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Governo Sombra, que começou por ser transmitido apenas na rádio, passou depois para a televisão e agora é repetido umas duas vezes na televisão ao fim-de-semana, tal não é o seu sucesso (ou tal não é a falta de investimento em programação destes órgãos de comunicação social), é o mais lúdico dos programas de debate político ou não fora a presença de Ricardo Araújo Pereira, que não só anima o programa com o seu inegável sentido de humor como, com alguma diplomacia associada a esse humor, vai largando tiradas que tornam o programa tolerável. Tolerável é a palavra certa, porque um outro interveniente no programa, João Miguel Tavares, desequilibra a balança da qualidade com as suas saídas pretensamente informadas, pretensamente críticas, pretensamente inteligentes, atropela as intervenções dos outros participantes e até dá a sensação que tem autorização superior para o fazer. Parece ser mais um que vive no país do faz-de-conta: “faz-de-conta que o país está a melhorar”, “faz-de-conta de que os nossos governantes são bonzinhos apesar de incompetentes”, “faz-de-conta que a culpa disto tudo supera os responsáveis da nação”, “faz-de-conta que realmente andámos todos a viver acima das nossas possibilidades”, “faz-de-conta que não há nada a fazer”.

Governo sombra é a expressão usada para designar quer um governo de oposição que dirige o país de modo secreto e paralelo, quer um poder que está por detrás do poder público e que é o verdadeiro decisor dos destinos da nação. A sombra é também um elemento da geometria – não esqueçamos que a geometria trata das “medidas da terra” – e depende da fonte luminosa, do raio luminoso, do objecto exposto à luz e da superfície onde se vai projectar. Existe a sombra própria (zona do objecto que não fica iluminada), sombra projectada (superfície que não fica exposta à luz devido à presença do objecto), sombra espacial (o espaço que fica entra entre o objecto e a sombra projectada). Numa perspectiva da geometria o governo sombra invisível e decisor será a sombra própria objecto, o governo. O governo sombra secreto e paralelo será a sombra espacial de outros objectos que não o governo.

É difícil, também neste programa, perceber o que pretendiam os seus criadores com o nome. Pretendiam aludir ao governo de oposição? Ou ao governo invisível? Qualquer uma das alternativas estará errada. Este governo de faz-de-conta é mais um a fazer sombra ao governo, a iludir e a esconder, por mais risos e sorrisos que nos provoque o Ricardo Araújo Pereira.

Mas há mais. Há um Fora das Quatro Linhas que não é nada fora. Está completamente dentro, não de um campo relvado, mas dentro de um rectângulo ideológico cada vez mais apertado e, com falsos futebóis, pretendem manter-nos dentro. Há um paradoxo da tangência (ou pode ser que já tenha acabado), um programa de “entrevistas poderosas e viscerais em que grandes vultos das artes, do espectáculo, do meio intelectual se vão despojar perante uma figura incontornável do audiovisual e se vão dar a conhecer como seres tangíveis” que só era paradoxo no que se refere aos grandes vultos e não era apenas tangente (um ponto em comum), mas verdadeiramente secante (intersecção) da mediocridade.

Entretanto já foi esquecida a espiral recessiva, conceito criado certamente por quem não entendia muito de geometria. As espirais são sempre construídas de forma progressiva, em crescendo. Em abstracto é possível construir alguns tipos de espiral monocêntricas que não tenham como ponto de partida o centro, mas esta é uma espiral construída a partir de 6 centros, a troika estrangeira e a troika nacional. Estas espirais policêntricas são consideradas falsas espirais. Tal como é falso quase tudo o que nos impingem sobre a crise.

O que importa mesmo não é se havia ou não espiral recessiva, o que importa é que a recessão chegou à casa da esmagadora maioria dos portugueses. Se a economia do país não já não está em recessão mas a nossa vida está, do que precisamos é de sermos todos charneira e provocarmos esse movimento, tão familiar à geometria, gerador de um espaço novo, a rotação, também chamada de revolução.

4 comentários:

  1. Para que conste, o Ricardo Araújo Pereira é um defensor de sempre do revisionista João Amaral que tentou destruir o PCP. Para que conste eu e muitos outros camaradas lutamos duramente no agora sudoso ano de 2000 por salvar o PCP de quem o queria destruir. Hoje há muita juventude que não se lembra e muito camarada que virou as costas ao verdadeiro marxsimo-leninismo e à luta pela qual se bateu o Álvaro Cunhal dedicou a sua vida. Mas eu não esqueço nem perdoo e estarei cá para derrotar as ratazanas revisionistas até ao último oportunista.

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  2. Pois... O Ricardo Araújo Pereira tem aquela graça natural, talentosa e simpática. Uma - porque não - genialidade humorística. Uma espécie de António Silva às avessas: quase tudo o que dali vem, tem graça e não é estúpido. Por tudo isso, eu até gostaria de pensar que não é (politicamente falando) um sacana. Mas é.

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  3. Mais uma vez...
    chapeau

    De

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  4. Eu não sei se o Ricardo Araújo Pereira defendeu o João Amaral (que até morreu com cartão) e não sei em que medida será um sacana. O que sei é que me revejo na esmagadora maioria das opiniões que ele assume publicamente e até desejaria mais sacanas destes a entrarem pela televisão dos portugueses todos os dias, em vez de Josés Gomes Ferreira, Professores Marcelo, Sócrates, Marques Mendes, Ferreiras Leite, Antónios Costa, Camilos Lourenço, e outros que tais.
    O homem é humorista e faz duma parte do seu trabalho uma arma, o que é mais do que faz a quase totalidade da gente da cultura do nosso país, que muito se queixa e pouco se mexe. Saiu da JCP? Mandou umas bocas sobre só ter tirado imperiais na festa enquanto foi militante? Teve uma saída parva (de que rapidamente se arrependeu) com a Odete Santos? O homem não é um comunista. A maior parte do povo português também não é. E nem por isso são sacanas.

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