A comunicação do regime - por António Filipe

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

No léxico comunicacional dominante, o “regime” é um exclusivo dos países que quem manda nos media decidiu hostilizar.

A Coreia do Norte tem regime, mas a Coreia do Sul não tem. Na América Latina há um regime e meio. Cuba tem sempre um regime. A Venezuela tem dias: quando se trata de atacar a legitimidade do Governo de Nicolas Maduro, há o regime de Nicolas Maduro. Quando se trata de celebrar acordos comerciais com a Venezuela, já não há regime. No resto das Américas, ainda não há regimes, mas há países que, pelas orientações progressistas que prosseguem, ainda se arriscam a ter regime.

Em África, há um sector dos media que elege Angola como um dos poucos países africanos que tem regime. O regime de Eduardo dos Santos. Na CPLP, mais ninguém tem regime. E mesmo Angola, tem dias. O Zimbabwe de Mugabe passou por uns tempos em que tinha regime, mas tem andado esquecido. Deixou de ser uma prioridade mediática e perdeu o regime, até ver.

No Médio Oriente, só há dois regimes: o da Síria e o do Irão. Felizmente para o Katar, para o Bahrem, ou para a Arábia Saudita, que aí não há regimes. Como já não há regimes no Iraque ou na Líbia. Aí a situação conheceu uma grande mobilidade. Sadam e Kadafi viveram muitos anos no poder sem ter regime. Mas um belo dia passaram a ter regime e foram apeados pelas armas para que os respectivos países deixassem de ter regime. Hoje já não há regimes nesses países.

A China é um caso paradigmático. Quando se trata de noticiar condenáveis casos de corrupção muito semelhantes aos que ocorrem em países onde não há regime, dá-se mesmo um upgrade, e refere-se o regime comunista, em caixa alta e com símbolos coloridos em fundo, mas quando se trata de noticiar a venda da EDP ou dos seguros da Caixa a chineses, o regime subitamente eclipsa-se, e os chineses passam a ser unicamente chineses, ou seja, deixam de ter regime.

Na Europa, a Rússia voltou de há uns anos para cá a ter regime. Com o fim da URSS deixou de haver regime, mas como os oligarcas russos decidiram guardar para si os proventos da restauração capitalista, frustrando as expectativas dos oligarcas de outras paragens, voltaram a ter regime. Eles e todos os que se queiram dar bem como eles: Ucrânias, Biolorrússias e seja quem for. A Ucrânia está dividida: há os que lutam pelo regime e os que lutam para não ter regime. Ter ou não ter regime depende muito dos ciclos eleitorais. Já na antiga Jugoslávia, só a Sérvia tem direito a ter regime. E enquanto não reconhecer o Kosovo terá regime. Já o dito Kosovo, pode ser “governado” por traficantes a soldo, mas não tem regime.

Entre nós também não há regime. A democracia anda pelas ruas da amargura. O regime democrático definha às mãos da troika, dos governos, dos partidos e dos media que sustentam a criminosa política de empobrecimento e de traição nacional. Lutar por uma alternativa a este estado de coisas é um imperativo democrático e patriótico, ainda que nos arrisquemos a ter regime.

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9 comentários:

  1. Definitivo ou intermitente, desde que entre o "regime" é de emagrecimento...
    Não vejo nenhum dos países em que ele toca a melhorar...
    "Regime" não obrigado, seja qual for o prisma pelo qual for visto... o do autor desta crónica ou o dos que ele critica!!!

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  2. Um texto de facto excelente. Um verdadeiro ovo de Colombo

    Pena que o zé bento nem sequer tenha percebido a ironia profunda e o desmascarar desta verdadeira segregação mediática. Tão sorrateira que passa completamente despercebida aos olhos de tantos.E dada a beber quotidianamente.
    De

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  3. todos os paises têm um regime.só que uns saõ democraticos e outros não.quanto as transaçoes comerciais com governos com regimes não democraticos,são normais. no comercio não entram as questões politicas.lembro que muitos paises negociavam com o chile de pinochet,nomeadamente a ex "socialista" urss. quem o disse foi carlos altamirano lider sindical do chile.

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  4. Claro que no comércio entram e de que maneira as questões políticas.Essa é mesmo de quem anda um pouco distraído, não?
    O exemplo mais famoso é o de Cuba...

    Mas há mais. E o mais é que este texto de António Filipe chama a atenção, não para o facto óbvio da existência de "regimes" em todos os países, mas sim para o uso que os media fidelizados e ao serviço da ideologia dominante faz do termo "regime.

    Um texto que já o defini antes como brilhante. Que não tem culpa, claro, do entendimento um pouco lento que alguns têm da sua leitura.
    De

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  5. Nem mais nem menos. Precisamente. Excelente.

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